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BIOTRANSFORMAÇÃO DE DROGAS
Muitas
interações medicamentosas podem
ocorrer por alterações nas enzimas
biotransformadoras que estão presentes
no fígado e em outros tecidos extra-hepáticos.
Os mecanismos farmacocinéticos envolvidos
nestas interações consistem principalmente
em mudanças no complexo enzimático
citocromo P450 (CYP), que pode ser inibido ou
induzido por algumas drogas, afetando assim a
biotransformação destas drogas.
O entendimento destes mecanismos é extremamente
importante para a escolha de um regime terapêutico
envolvendo várias drogas.
5.1 Biotransformação e o
Papel do CYP.
A maioria dos fármacos possui caráter
lipofílico e, em pH fisiológico,
permanecem não ionizados ou parcialmente
ionizados. Devido a estas características,
os mesmos tenderiam a permanecer no organismo,
já que seriam reabsorvidos nos rins, após
a filtração glomerular. Visando
a eliminar estas substâncias exógenas,
o organismo pode lançar mão de sistemas
enzimáticos utilizados normalmente para
a degradação de substâncias
endógenas. Desse modo, a biotransformação
é a transformação enzimática
dos fármacos em metabó1itos com
características mais hidrofílicas,
tendo como objetivo facilitar a excreção
pelo organismo.
A
biotransformação de fármacos
pode ser dividida em duas fases. A fase I consiste
nas reações de oxidação,
redução e hidrólise, ocasionando
sempre uma modificação estrutural
do fármaco, o que na maioria das vezes
pode levar a sua inativação. No
caso de administração de pró-fármacos,
a fase I vai ser fundamental para gerar a substância
farmacologicamente ativa. Na fase II, conhecida
como fase de conjugação, ocorrem
reações de conjugação
do fármaco com substâncias endógenas,
visando a facilitar sua excreção.
Os processos das fases I e II são independentes,
ou seja, o fármaco pode sofrer apenas reações
de fase I ou de fase II, ou as duas, seqüencialmente.
Geralmente as reações da fase I
introduzem um grupo relativamente reativo, como
o grupo hidroxila, na molécula, e este
grupo funcional servirá, então,
como ponto de ataque para o sistema conjugador,
que fixa a ele um substituto maior, como um grupo
glicuronil, sulfato ou acetil.
O órgão onde ocorre a maioria das
reações de biotransformação
é o fígado, por apresentar várias
enzimas ou complexos enzimáticos especializados.
Dentre elas, destacam-se as mono-oxigenases do
complexo enzimático CYP, as redutases,
as esterases e as transferases (COSTA & STRECK,
1999).
O
CYP é o principal responsável pela
biotransformação de fármacos
no organismo humano, estando presente principalmente
no retículo plasmático liso (fração
microssômica) dos hepatócitos, podendo
também ser encontrado em outros órgãos,
como pulmões e rins. O CYP é uma
proteína com um grupo prostético
heme (ou grupo ferro-porfirina, ver figura 6)
e pertence ao grupo das mono-oxigenases, que são
enzimas que catalisam reações nas
quais um átomo de oxigênio da molécula
de O2 é incorporado na molécula
do substrato orgânico, o outro átomo
é reduzido a H2O. As mono-oxigenases requerem
dois substratos que funcionam como redutores dos
dois átomos de oxigênio do O2. O
substrato principal (no caso o fármaco)
recebe um dos dois átomos de oxigênio
e o co-substrato (no caso do CYP é a nicotinamida
adenina dinucleotídeo fosfato - NADPH)
fornece átomos de hidrogênio para
reduzir o segundo átomo de oxigênio
a água (LEHNINGER, 1986).
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FIGURA
6 - Estrutura do grupamento heme unido covalentemente
ao citocromo.
O anel porfirínico está indicado
em azul. Fonte: ALBERTS et al, 1997.
O
sistema transportador de elétrons, envolvido
na biotransformação das drogas,
se processa da seguinte maneira: O NADPH ao se
oxidar reduz uma flavoproteína - a NADPH
citocromo P450 redutase. Esta ao oxidar-se reduz
uma proteína Fe++ não-heme, que
por sua, ao se oxidar, reduz o CYP, que reage
com o oxigênio molecular para formar o complexo
ativo oxigênio-CYP e o transporta para a
molécula da droga, oxidando-a (observar
a figura 7) (MELLO, 1998).
FIGURA
7 - Sistema transportador de elétrons envolvido
na hidroxilação de drogas via CYP.
Adaptado de MELLO, 1998.
5.2
Isoformas do CYP
O
CYP apresenta várias isoformas, que são
formas múltiplas de uma mesma enzima que
catalisam o mesmo tipo de reação
, neste caso de oxidação , apresentando
afinidade por substratos diferentes, biotransformando,
portanto, fármacos distintos. Além
disso, as isoformas diferem na sua distribuição
pelo organismo e na regulação de
sua atividade, apresentando diferentes inibidores,
indutores e fármacos marcadores. Estes
últimos são utilizados para a determinação
da atividade de cada isoforma e, por isso, são
também substratos das mesmas.
Atualmente mais de 30 isoformas do CYP estão
identificadas em humanos, as quais são
classificadas de acordo com as convenções
da biologia molecular e identificadas por um número
arábico indicando a família (membros
de uma mesma família são os que
apresentam mais de 40% de aminoácidos idênticos);
seguido de uma letra em caixa alta que indica
a subfamília (55% de aminoácido
idênticos) e um outro número representando
o gene na subfamília, por exemplo CYP1A2.
As enzimas envolvidas na biotransformação
de drogas em humanos pertencem às famílias
1,2,3 e 4 (NELSON et al, 1996).
Aproximadamente 70% do CYP hepático são
constituídos pelas isoformas CYP1A2, CYP2A6,
CYP2B6, CYP2C, CYP2D6, CYP2E1 e CYP3A. Entre estes
o CYP3A (CYP3A4 e CYP3A5) e o CYP2C (principalmente
o CYP2C9 e 2C19) são as subfamílias
mais abundantes, responsáveis por 30% e
20% respectivamente do CYP total. As outras isoformas
apresentam a seguinte contribuição
para o CYP total: CYP1A2 em 13%, CYP2E1 em 7%,
CYP2A6 em 4% e CYP2D6 em 2% (LIN & LU, 1998).
Uma avaliação do mecanismo de “clearance”
metabólico de 315 drogas diferentes (BERTZ
& GRANNEMAN, 1999) revelou que 56% são
eliminadas primariamente através da ação
das várias isoformas do CYP; a CYP3A4 foi
a mais importante (50%), seguida pela CYP2D6 (20%),
CYP2C9 e CYP2C19 (15%) e o restante era biotransformado
pelas CYP2E1, CYP1A2, CYP2A6 entre outras, de
modo que podemos estimar que 90% das reações
de oxidação das drogas em humanos
podem ser atribuídas a estas sete enzimas
principais. O conceito que a maioria das oxidações
de drogas são catalisadas por um pequeno
número de enzimas é importante na
prevenção e identificação
das possíveis interações
medicamentosas envolvendo a biotransformação
dos fármacos.
Um dos muitos aspectos interessantes do CYP é
que além de poder catalisar várias
reações de oxidação
(hidroxilação, desalquilação,
epoxidação, oxigenação
de heteroátomos) ele também pode
biotransformar um grande número de xenobióticos
de caráter lipofílico. Cada isoforma
do CYP possui atividade catalítica para
um amplo espectro de substratos. A capacidade
do CYP em biotransformar múltiplos substratos
é responsável por um grande número
de interações medicamentosas associadas
com a inibição do CYP. A inibição
da biotransformação de fármacos
por competição por uma mesma enzima
pode resultar em elevações na concentração
plasmática de algumas drogas e levar a
sintomas clínicos importantes. As interações
medicamentosas em nível de biotransformação
também podem ser no sentido de indução
do CYP.
A atividade das isoformas também pode ser
afetada pelo polimorfismo genético e de
acordo com a atividade enzimática de cada
isoforma, pode-se dividir a população
em dois grupos distintos: os metabolizadores extensivos
(MEs) e os metabolizadores pobres (MPs). Os primeiros
possuem a isoforma com atividade normal, não
apresentando problemas para biotransformar os
fármacos. Os metabolizadores pobres têm
a atividade da isoforma diminuída ou nula,
podendo levar a diferenças significativas
na posologia de alguns fármacos. Entre
as principais isoformas que apresentam polimorfismo
genético, segundo um estudo de INGELMAN-SUNDBERG
et al (1999), estão a CYP2D6 (caráter
autossômico recessivo, sendo a freqüência
de metabolizadores pobres de 5 a 10% na população
caucasiana) e a CYP2C19 (também de caráter
autossômico recessivo, com a freqüência
de metabolizadores pobres variando entre 2% a
3% na população caucasiana, podendo
chegar até 23% na população
oriental).
5.3 Mecanismos de Inibição
do CYP
O
ciclo catalítico do CYP consiste de pelo
menos 7 etapas distintas:
a) ligação do substrato à
forma férrica da enzima;
b) redução do grupo heme de férrico
(Fe+++) para o estado ferroso (Fe++) por um elétron
vindo do NADPH;
c) ligação do oxigênio molecular;
d) transferência de um segundo elétron;
e) quebra da ligação O-O;
f) oxigenação do substrato;
g) liberação do substrato.
Embora a interferência em qualquer uma destas
etapas possa levar a inibição da
atividade enzimática do CYP, as etapas
(a), (c) e (f) são particularmente vulneráveis
à inibição. O mecanismo de
inibição do CYP pode ser dividido
em três categorias: inibição
reversível ou competitiva, inibição
não-competitiva e inibição
irreversível. Entre estas, a inibição
reversível é provavelmente o mecanismo
mais comum responsável pelas interações
medicamentosas. As interações reversíveis
resultam da competição pelo sítio
ativo da enzima e provavelmente envolva somente
a primeira etapa do ciclo catalítico do
CYP. Por outro lado, agentes que atuam durante
a ligação do oxigênio ou em
etapas subseqüentes levam a inibições
não-competitivas ou inibições
irreversíveis (HALPERT, 1995).
5.3.1 Inibição reversível
ou competitiva
Muitos
dos inibidores reversíveis potentes do
CYP são drogas que contêm o nitrogênio,
com a presença dos grupos imidazol, piridina
e quinolina (figura 8). Estes compostos ligam-se
ao ferro do grupo prostético heme e/ou
também a região lipofílica
da proteína no CYP; as drogas que se ligam
simultaneamente a estas duas regiões são
inibidores mais potentes. A potência de
um inibidor é determinada por seu caráter
lipofílico e pela força de ligação
entre o par de elétrons do nitrogênio
da droga e o ferro do grupo heme do CYP. Por exemplo,
o cetoconazol e a cimetidina (figura 8), que são
compostos contendo o imidazol, interagem com o
Fe+++ do CYP (CYP férrico); porém,
a cimetidina é um inibidor reversível
relativamente mais fraco, devido provavelmente
a sua baixa lipossolubilidade e a sua menor afinidade
em se ligar ao CYP microssômico; por outro
lado, o cetoconazol é um potente inibidor
do CYP, possivelmente pela sua alta lipossolubilidade.
De modo similar, o fluconazol contém um
grupo triazol (figura 8) que se liga ao ferro
do heme prostético, mas é um inibidor
menos potente, novamente devido principalmente
a sua menor lipossolubilidade (LIN & LU, 1998).
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FIGURA
8 - Estruturas dos grupos imidazol, piridina e
quinolina e dos fármacos cetoconazol, cimetidina
e fluconazol.
Os
agentes derivados da piridina também podem
interagir com o Fe+++ do CYP - entre os derivados
de piridina o inibidor mais conhecido é
a metirapona; este composto age como um inibidor
potente e seletivo das várias isoformas
do CYP, incluindo a inibição da
11-beta-hidroxilase que catalisa a etapa final
da biossíntese do cortisol. Esta inibição
da 11-beta-hidroxilase permite o uso da metirapona
no diagnóstico e tratamento das manifestações
de excesso de cortisol (síndrome de Cushing)
e outras desordens hormonais (JONEN et al, 1974).
As quinolinas consistem de uma outra classe de
heterocíclicos contendo o nitrogênio
que também apresentam uma potente inibição
do CYP, como por exemplo as elipticinas - um grupo
de agentes antileucêmicos (inibem a síntese
do ácido desoxirribonucléico (DNA)
e do ácido ribonucléico (RNA)) com
propriedades imunossupressoras, isolados primariamente
da Ochrosia elliptica - que contém
o grupo quinolina em sua estrutura, interage com
o ferro (na forma férrico ou ferroso) do
CYP. A elipticina e seu derivado 9-hidroxi-elipticina
têm sido usados com sucesso como inibidores
da CYP1A1 e CYP1A2.(LESCA P et al, 1979).
Outros derivados de quinolina, como a quinidina
e a quinina (figura 9) são potentes inibidores
reversíveis da 4-hidroxilação
da debrisoquina, uma reação catalisada
pela subfamília CYP2D. Curiosamente a quinidina
é um potente inibidor da CYP2D6 em humanos,
porém ela é biotransformada pela
CYP3A4 e não pela CYP2D6; assim um potente
inibidor de uma determinada isoforma do CYP não
precisa ser necessariamente o substrato desta
isoforma (LIN & LU, 1998).
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FIGURA
9 - Estruturas da quinidina e quinina –
potentes inibidores de CYP2D.
A quinina contém um grupo quinolina ligado
através de uma ligação álcool
secundária a um anel de quinuclidina. A
quinidina possui a mesma estrutura que a quinina
exceto pela configuração espacial
do grupo álcool secundário.
Muitos
agentes antimaláricos (como a primaquina,
cloroquina, amodiaquina e mefloquina – ver
figura 10) contêm um anel quinolina e são
potentes inibidores reversíveis do CYP;
porém, a atividade inibitória não
está associada com a estrutura da quinolina,
uma vez que o nitrogênio da piridina está
inacessível pelo impedimento estéreo.
Em vez disso, o grupo amino em substituintes do
anel quinolina parece ser o determinante primário
da potência inibitória observada
nestes compostos. Acredita-se que o grupo amino
terminal da primaquina está envolvido na
ligação direta com o Fe+++ do heme
(MURRAY & FARREL, 1986).
FIGURA 10 - Estrutura dos
agentes antimaláricos - primaquina, cloroquina,
amodiaquina e mefloquina. |