4
DISTRIBUIÇÃO
Após
ser absorvido ou injetado na corrente sangüínea
o fármaco distribui-se para os líquidos
extra e intracelular. O volume de distribuição
aparente (Vd), é o parâmetro utilizado
para descrever essa distribuição
e pode ser definido como o volume de líquido
necessário para conter a quantidade total
(Q) da droga no corpo na mesma concentração
presente no plasma (Cp) e é matematicamente
expresso como: Vd=Q/Cp em litros/Kg de peso corporal.
O
Vd depende das propriedades físico-químicas
da droga, como a sua solubilidade em água
e lipídeos e a capacidade de se ligar às
proteínas (plasmáticas ou teciduais).
O volume de distribuição elevado
indica que a droga é distribuída
a várias partes do corpo, com a permanência
de pequena fração no sangue, e um
pequeno volume de distribuição indica
que a maior parte da droga permanece no plasma
provavelmente como resultado da ligação
às proteínas plasmáticas
(LPP).
A
alteração de fármacos em
nível de distribuição entre
dois componentes medicamentosos se dá principalmente
por mecanismo competitivo frente a sítios
comuns de ligação protéica.
4.1 Ligação às Proteínas
Plasmáticas (LPP)
Um grande número de drogas se apresenta
ligadas a proteínas plasmáticas
e podem assim estar envolvidas em interações
por deslocamento de LPP; muitos destes exemplos
têm sido citados na literatura, porém,
não é intenção rever
exemplos deste tipo de interação
no presente capítulo, o objetivo é
abordar os conceitos envolvidos e a discussão
da importância clínica das interações
que envolvem o deslocamento da LPP.
As drogas são transportadas para os seus
sítios de ação, biotransformação
e excreção, normalmente, ligadas
a proteínas plasmáticas ou a hemácias.
A fração do fármaco que fica
livre em solução aquosa pode ser
de até 1%, estando o restante associado
principalmente a proteínas do plasma. Uma
vez que somente a droga livre pode exercer sua
ação, a resposta terapêutica
de uma droga será dependente da porcentagem
da droga livre. A mais importante proteína,
no que concerne à ligação
a fármacos, é a albumina, que liga
muitos ácidos e um número menor
de fármacos básicos (ver quadro
5).
Outras proteínas plasmáticas, incluindo
a beta-globulina e a alfa1-glicoproteína
ácida - uma proteína de fase aguda
que aumenta nas doenças - também
foram apontadas como responsáveis pela
ligação de certos fármacos
como clorpromazina e quinina.
As drogas geralmente se ligam a sítios
específicos do plasma e dos tecidos e a
afinidade de uma droga pelo seu local de ligação
é medida pela constante de associação
(Ka) entre a droga e a proteína. A reação
de ligação pode ser considerada
como uma associação simples das
moléculas do fármaco a uma população
finita de seus locais de ligação:
F (fármaco livre) <--> (local de
ligação) + FL (complexo).
QUADRO
5 - Alguns fármacos que se ligam à
albumina plasmática.
| Fármaco |
%
ligada na concentração terapêutica |
%
dos sítios de ligação
ocupados |
Diclofenaco |
99,5 |
<
1 |
| Diazepam |
95-99 |
<
1 |
Varfarina |
95-99 |
<
1 |
| Amitriptilina |
95-99 |
<
1 |
Nortriptilina |
95-99 |
<
1 |
| Clorpromazina |
95-99 |
<
1 |
Imipramina |
95-99 |
<
1 |
| Desmetilimipranina |
95-99 |
<
1 |
Indometacina |
95-99 |
<
1 |
| Sulfisoxazol |
95-99 |
50-60 |
Tolbutamida |
95-99 |
50-60 |
| Ácido
valpróico |
95-99 |
50-60 |
Fenitoína |
90 |
3 |
| Hidralazina |
85-90 |
<
1 |
Quinina |
70-90 |
<
1 |
| Lidocaína |
50 |
<
1 |
Ácido
acetilsalicílico (ASS) |
50 |
50 |
Fonte:
HANG et al (1997).
Geralmente
cada molécula de albumina tem, pelo menos,
dois sítios de ligação para
a maioria dos fármacos e os diferentes
sítios de ligação vão
apresentar diferentes Ka. A concentração
normal de albumina no plasma é de cerca
de 0,6 mmol/L (4g/100ml); com dois sítios
por molécula de albumina, a capacidade
de ligação de fármacos da
albumina plasmática seria, portanto, de
aproximadamente 1,2 mmol/L, de modo que os sítios
de ligação estão longe de
saturação (ou seja, bem abaixo das
concentrações terapêuticas
da maioria dos fármacos).
A concentração do fármaco
ligado [FL] varia quase que em proporção
direta à concentração do
fármaco livre [F]. Nessas condições,
a fração ligada, mostrada no quadro
5, é independente da concentração
do fármaco; entretanto, alguns fármacos,
como, por exemplo, a tolbutamida e algumas sulfonamidas,
agem em concentrações plasmáticas
em que a ligação às proteínas
se aproxima da saturação; isto significa
que a adição de uma quantidade do
fármaco no plasma vai aumentar de modo
desproporcional a concentração da
forma livre; portanto se a dose desta droga for
dobrada, a concentração de droga
livre no plasma pode aumentar em três vezes
ou mais. Isto é mostrado na figura 3 para
o fármaco antiinflamatório fenilbutazona.
A existência, na albumina plasmática,
de sítios de ligação para
os quais muitos fármacos diferentes têm
afinidade significa que pode haver competição
entre eles, de modo que a administração
de um fármaco B pode reduzir a ligação
a proteínas de um fármaco A e aumentar,
então sua concentração plasmática
na forma livre. Para fazer isto, o fármaco
B necessita ocupar uma fração considerável
dos sítios de ligação (HANG
et al ,1997).
 |
FIGURA 3 - Ligação da fenilbutazona
à albumina plasmática.
Adaptado de HANG et al, 1997.
4.2
Efeitos da LPP na Farmacocinética
Antes
de considerarmos os efeitos do deslocamento da
droga de seus locais de LPP, é necessário
discutir primeiramente os efeitos desta ligação
na farmacocinética de uma droga. A distribuição
de uma droga é afetada pela sua LPP, uma
vez que a droga ligada não fica disponível
para se difundir para os outros tecidos; isto
significa que drogas altamente ligadas no plasma,
como por exemplo, a varfarina, tem a tendência
de apresentar um pequeno volume de distribuição;
realmente o Vd da varfarina é baixo e se
aproxima do volume plasmático (0,05 l/Kg
de peso corporal), significando que a varfarina
quase não se difunde para os outros tecidos.
Algumas drogas, porém, podem estar altamente
ligadas no plasma e também nos tecidos
e então apresentar uma Vd maior, como os
medicamentos antidepressivos tricíclicos
e fenotiazínicos, nos quais quase toda
a droga presente no plasma se encontra ligada
a albumina, porém, devido à capacidade
dessas drogas de se ligarem aos tecidos, a droga
circulante representa somente uma pequena fração
do total da droga no corpo (KOCH-WESER e SELLERS,
1976).
A biotransformação de drogas com
altas taxas de extração hepática,
como o propranolol, envolve a deslocação
de seus sítios de ligação
e a captação da droga pelas células
hepáticas. A ligação das
drogas às proteínas plasmáticas
pode afetar a biotransformação,
que pode estar aumentada se a droga está
altamente ligada e é rapidamente eliminada
pela biotransformação hepática,
pois a LPP age como um sistema de transporte,
levando a droga para fígado. Alternativamente,
se esta tem uma baixa taxa de extração
hepática, a biotransformação
pode ser diminuída pela LPP; pois neste
último caso, a eliminação
metabólica será diretamente proporcional
a fração livre de droga encontrada
no sangue assumindo uma cinética de primeira
ordem (LEVY & YACOBI, 1974).
Em
relação à eliminação
renal, somente a droga não ligada é
filtrada no glomérulo; portanto uma diminuição
da LPP irá aumentar a concentração
da droga livre disponível para a filtração
- isto significa que se uma droga estiver altamente
ligada a proteínas e depender de sua filtração
glomerular para a sua eliminação
(não sujeita ao metabolismo ou secreção
tubular renal), geralmente apresentará
um tempo de meia-vida longo, como o diazóxido
que está 90% ligado e tem uma meia-vida
de 30 horas. A secreção tubular
renal não é limitada pela ligação
protéica, assim drogas que tem uma alta
taxa de excreção renal devida à
secreção tubular como a penicilina,
a LPP irá favorecer a eliminação
por transportar a droga para seu local de excreção
(D’ARCY & MCELNAY, 1982).
4.3 Efeitos de Deslocamento da LPP
Mudanças
nas porcentagens de droga ligada e não
ligada de uma droga pode ser devido à competição
com outras drogas e/ou a competição
com substâncias endógenas pelos sítios
de ligação.
Os agentes mais importantes no deslocamento da
LPP são compostos ácidos; eles freqüentemente
têm uma alta afinidade pela albumina. Se
duas drogas se ligam a um mesmo local da proteína
haverá uma competição entre
as drogas por estes sítios, pois compostos
com uma alta afinidade deslocam drogas com afinidade
menor.
Muitos dos fármacos mostrados no quadro
5 não afetam a ligação de
outros fármacos por ocuparem, em concentrações
plasmáticas terapêuticas, apenas
uma diminuta fração dos sítios
disponíveis, e apenas alguns fármacos
causam efeitos inesperados por deslocar outros
fármacos, como por exemplo, as sulfonamidas,
que ocupam cerca de 50% dos sítios de ligação
em concentrações terapêuticas.
O fármaco deslocado não precisa
ocupar uma fração apreciável
destes sítios, de modo que o diazepam por
exemplo, é consideravelmente deslocado
dos sítios de LPP pela aspirina, mas não
vice-versa.
Mesmo que as drogas por si só não
acarretam o deslocamento da LPP, os seus metabólitos
podem estar envolvidos nesta interação;
por exemplo, o ácido tricloroacético
- um metabólito do cloral hidratado - desloca
a varfarina de seus sítios de ligação
na albumina.
Um deslocamento não competitivo pode ocorrer
quando uma droga ao se ligar à proteína,
faz com que ocorram mudanças físico-químicas
desta macromolécula dando origem a alterações
na estrutura terciária (conformacional)
da proteína, o que pode levar a mudanças
de afinidade nos sítios de ligação
específicas para um outro grupo de drogas
(SELLERS & KOCH-WESER,1970).
O ácido acetilsalicílico (AAS) interfere
na ligação de algumas outras drogas
por um mecanismo incomum. O AAS é capaz
de acetilar resíduos de lisina das moléculas
de albumina. A ligação de albumina
com acetrizoato, ácido flufenâmico
e fenilbutazona e possivelmente outras drogas
aniônicas são modificadas na presença
do AAS (PINCKARD et al, 1973).
4.4 Deslocamento da LPP e o Vd
Uma
diminuição na LPP de uma droga,
devido a uma interação por deslocamento,
aumentará seu Vd, uma vez que a droga deslocada
se difundirá para os tecidos e isto levará
a uma diminuição na concentração
total da droga no plasma, porém depois
de atingindo o equilíbrio a concentração
da droga livre plasmática será a
mesma que na situação anterior (ver
figura 4). Desde que as ações farmacológicas,
incluindo os efeitos tóxicos, corresponde
a concentração da droga livre no
plasma, este tipo de interação geralmente
acarreta poucas conseqüências para
os pacientes, com exceção dos seguintes
casos: injeção rápida de
um agente deslocador e durante o monitoramento
do nível plasmático de uma droga.
Se uma injeção em “bolus”
de um agente deslocador é administrada
ao paciente, o deslocamento de uma outra droga
dos seus sítios de ligação
será quase imediata, enquanto que a distribuição
e o estabelecimento da condição
de equilíbrio levará algum tempo.
Isto significa que a concentração
da droga livre no plasma aumentará e a
concentração total da droga permanecerá
a mesma alguns instantes depois da injeção.
Este aumento da concentração plasmática
da droga livre pode permitir uma maior reação
com os receptores ou permitir a entrada da droga
em compartimentos que normalmente ela não
atinge, como por exemplo o sistema nervoso central
(SNC). Um exemplo disto é a injeção
de sulfonamidas em neonatos levando ao deslocamento
da bilirrubina, a qual pode entrar e se depositar
no cérebro levando ao quadro de kernicterus,
com sérias conseqüências para
a criança (HAMAR & LEVY, 1980).
 |
FIGURA
4 - Seqüência de alterações
nas concentrações plasmáticas
de drogas durante interações por
deslocamento.
1-Situação antes do deslocamento;
2-Imediatamente após o deslocamento; 3-Redistribuição
da droga deslocada; 4- Situação
de equilíbrio re-estabelecida. Notar que
nesta situação, apesar da concentração
total no plasma estar diminuída, a concentração
da droga livre no plasma é semelhante à
situação 1.
A
monitoração dos níveis plasmáticos
é realizada com a determinação
da concentração total da droga -
se a LPP é diminuída devido a uma
competição entre drogas pelos sítios
de ligação da albumina, a concentração
da droga total no plasma estará diminuída,
porém o nível da droga livre estará
normal (assim como os seus efeitos terapêuticos);
se a dose do paciente for aumentada, baseada na
monitoração plasmática, poderá
causar efeitos tóxicos devido a um aumento
da concentração plasmática
da droga livre. Este tipo de problema pode surgir
quando se está monitorando a fenitoína
e o paciente recebe, por exemplo ácido
valpróico (KOBER et al, 1981).
4.5 Efeitos do Deslocamento das LPP na
Eliminação das Drogas
Para
drogas com uma alta taxa de extração
hepática (biotransformação),
que envolve mecanismos de transporte ativo para
concentrar a droga nos hepatócitos, a maioria
da droga é retirada do sangue quando ele
passa pelo fígado; portanto a extração
é dependente do fluxo sanguíneo
hepático. Uma diminuição
da concentração total da droga no
plasma, devido ao re-equilíbrio depois
do deslocamento da LPP, e conseqüentemente
o aumento do seu Vd, levará a uma diminuição
da eliminação hepática da
droga, apesar do “clearance” permanecer
o mesmo, uma vez que o fluxo sanguíneo
e a taxa de extração não
sofrem alterações (clearance=fluxo
sangüíneo x taxa de extração)
(HUANG & OIE, 1984).
Quando ocorre uma diminuição da
eliminação de drogas com alta taxa
de extração hepática, depois
do deslocamento, a concentração
da droga livre pode aumentar, uma vez que a quantidade
total da droga no organismo se encontra aumentada;
portanto se uma droga é administrada por
via parenteral, pode ser necessário reduzir
a dosagem para se evitar os efeitos tóxicos
provocados pela competição pelas
LPP; porém quando a droga é administrada
por via oral, o efeito de primeira passagem hepática
pode ajudar a diminuir os efeitos adversos conseqüentes
desta interação (ROWLAND, 1980).
Para
drogas com uma pequena taxa de extração
hepática, na qual a biotransformação
depende da concentração da droga
livre, uma diminuição na concentração
total da droga depois do deslocamento terá
pouco efeito na eliminação (o “clearance”
neste caso estará aumentado devido ao aumento
da taxa de extração).
Quanto à excreção renal,
se a droga é eliminada, somente por filtração
glomerular, uma diminuição, depois
do deslocamento, da concentração
total da droga sem mudanças na concentração
da droga livre, não levará a mudanças
na eliminação absoluta da droga.
Esta situação torna-se mais complexa
quando ocorre secreção tubular ativa
e reabsorção parcial da droga. Quando
ocorre secreção tubular, porém
sem reabsorção a situação
poderia se assemelhar àquela das drogas
envolvidas no processo ativo durante a biotransformação
no fígado. Nesta última condição,
por exemplo, a taxa de eliminação
pode estar diminuída, devido à diminuição
da concentração plasmática
total da droga, depois do deslocamento, requerendo
em casos extremos, uma redução da
dose (LEVY, 1980).
4.6 Ligação das Drogas aos
Tecidos e o seu Deslocamento
Para
algumas drogas o Vd é bem maior que o volume
sanguíneo, significando que grande parte
destas drogas se encontra ligada aos tecidos -
o deslocamento da ligação tecidual
levará a um aumento da droga livre que
favorecerá a difusão da droga para
o compartimento plasmático; conseqüentemente
a concentração da droga no plasma
ficará aumentada depois do re-equilíbrio
da droga deslocada, ou seja, um efeito inverso
do observado no deslocamento das LPP (ver figura
5).
 |
FIGURA
5 - Curvas de concentração plasmática
– tempo para drogas envolvidas em interações
por deslocamento de seus sítios de ligação.
a) Deslocamento da droga das LPP e diminuição
da contração plasmática devido
ao aumento do Vd, a taxa de eliminação
pode diminuir ou aumentar, isto vai depender se
a eliminação da droga envolve processos
ativos de transporte ou não – b)
Deslocamento da droga de seus sítios de
ligação teciduais e aumento da concentração
plasmática da droga (redução
do Vd), a taxa de eliminação geralmente
vai aumentar, pois uma quantidade maior da droga
vai estar sendo transportada para os seus sítios
de eliminação. Adaptado de D’ARCY
& MCELNAY, 1982.
Depois
do deslocamento da droga dos seus sítios
de ligação nos tecidos, haverá
uma redução do Vd associado a uma
diminuição do tempo de meia-vida
da droga no organismo, pois o transporte da droga
para os seus órgãos de eliminação
(geralmente os rins ou o fígado) estará
aumentado, porém o aumento da droga livre
no plasma poderá resultar em aumento dos
efeitos terapêuticos e até aparecimento
de efeitos tóxicos; isto significa que
em interações deste tipo, o regime
posológico talvez deva ser alterado, com
menores doses administradas em intervalos mais
curtos, para prevenir grandes flutuações
nos níveis séricos da droga; mantendo,
porém a mesma dosagem total.
Uma interação importante que envolve
o deslocamento da ligação tecidual
ocorre entre a digoxina e quinidina. Um estudo
foi realizado por LEAHEY et al (1978) em pacientes
sob terapia com digoxina que receberam também
a quinidina e o resultado deste trabalho mostrou
que o nível sérico da digoxina aumentou
de 1,4 ng/ml para 3,2 ng/ml com a administração
da quinidina (o intervalo terapêutico está
entre 0,8 e 2,0 ng/ml); 59% dos pacientes apresentaram
sintomas como anorexia, náusea e vômito
depois de iniciar a terapia com quinidina - estes
efeitos desapareceram nos pacientes em que a dose
de digoxina foi reduzida, sugerindo que os sintomas
referidos eram causados pela digoxina. Alguns
pacientes, inclusive apresentaram arritmias cardíacas
graves.
Apesar das interações entre digoxina
e outras drogas, como a quinidina verapamil e
amiodarona, envolverem outros mecanismos como
a diminuição da secreção
tubular renal da digoxina, o deslocamento tecidual
da digoxina pode trazer conseqüências
clínicas importantes para o paciente.
4.7 O Significado Clínico das Interações
por Deslocamento
A
ligação das drogas às proteínas
é um parâmetro farmacocinético
importante. Muitos métodos estão
disponíveis para o estudo de fenômenos
envolvendo a ligação das drogas
às proteínas plasmáticas
ou teciduais. As interações que
envolvem o deslocamento das drogas dos seus sítios
de ligação do plasma ou do tecido
foram relatadas como sendo os mecanismos causadores
em muitas interações medicamentosas.
Entretanto, a importância deste tipo de
interação foi superestimada e exagerada,
sendo que grande parte dos dados foi obtida de
estudos in vitro. (MCELNAY & D'ARCY,
1983).
Uma vez que a droga deslocada pode normalmente
se redistribuir fora do compartimento plasmático,
os aumentos de concentrações da
droga livre são geralmente transitórios
e conseqüentemente não causarão
alterações significativas nos efeitos
farmacológicos. Geralmente as interações
clinicamente importantes envolvendo o deslocamento
das drogas de seus sítios de ligação
apresentam um outro mecanismo envolvido, como
a redução da biotransformação
e/ou diminuição da eliminação
renal; entretanto em determinadas situações
específicas como por exemplo, quando a
droga é administrada por via endovenosa
ou quando o paciente está sob monitorização
terapêutica, o conhecimento das interações
por deslocamento das LPP é fundamental.
O
deslocamento das drogas das ligações
teciduais tem um grande potencial para causar
efeitos adversos no paciente, uma vez que neste
caso ocorre um aumento da concentração
sérica da droga que pode levar a um aumento
dos efeitos farmacológicos e possivelmente
o aparecimento de efeitos tóxicos. O deslocamento
das drogas dos seus sítios de ligação
tanto no plasma como nos tecidos poderá
aumentar significativamente a concentração
da droga livre no plasma, levando a um aumento
dos efeitos da droga deslocada. |