P&D
dos Fitoterápicos e a Singularidade dos
Extratos
Prof. Dr.
João Batista Calixto
Prof.
titular de Farmacologia da UFSC, especialista
em Farmacologia de plantas, com várias
publicações nessa área.
A
mistura sempre significa para o médico
uma grande preocupação, porque ele
sempre foi treinado a trabalhar, estudar e usar
um princípio ativo, com uma molécula
definida.
Por
definição, fitoterápicos
constituem uma mistura de um a até milhares
de compostos, dependendo do número de plantas
que se tem. Muitas vezes, não conhecemos
qual é o principal responsável pela
atividade biológica de um fitoterápico.
Além disso, essa mistura ainda pode ter
uma variedade muito grande de ação.
Hoje
já está cientificamente comprovado
que isso não é uma panacéia.
Nossa ignorância nessa área é
muito grande e precisou que os americanos e europeus
se interessassem por essa área para que
ela crescesse. Infelizmente, poucas plantas foram
estudadas cientificamente, especialmente do ponto
de vista clínico para confirmar sua eficácia
e toxicidade. No entanto, esse dado hoje está
mudando.
Outra
característica dos fitoterápicos
é que eles têm uma atividade terapêutica
enorme. Em geral são tratamentos muito
prolongados. Na maioria das vezes, e certamente
nas áreas como essa de psiquiatria, são
tratamentos preventivos, chamados de antioxidantes,
que têm um grande apelo popular.
A
fonte da matéria-prima é um outro
problema. Elas variam, mas não é
impossível de se fazer esse controle. Esse
foi um dos motivos que retardaram o uso clínico
desses medicamentos, que hoje já são
seguramente tão ou mais eficazes como muitos
outros, clinicamente estudados, com moléculas
bem definidas.
Para
distinguir as principais diferenças entre
um medicamento fitoterápico e um medicamento
sintético, podemos definir alguns parâmetros.
O procedimento analítico, que pode ser
facilmente controlado, em um medicamento com molécula
definida, em um fitoterápico é difícil,
porém hoje já possível.
A
matéria-prima de uma molécula pura
é definida. Nas plantas, além de
ser limitada, varia com a época da coleta,
região, clima etc. No entanto, para o médico,
isso já não interessa tanto, e sim
saber se funciona e se há testes clínicos
relevantes.
O
controle de qualidade e a padronização
nos fitoterápicos também não
constituem uma tarefa fácil.
Do
ponto de vista da toxicologia, uma molécula
pura tem uma toxicologia mais definida, nas plantas
é mais raro. A biodisponibilidade não
se aplica às plantas, fala-se de atividade
terapêutica. Outros aspectos importantes
são dados empíricos, não
importantes na molécula definida, mas que
têm papel fundamental nos fitoterápicos.
Estudos
clínicos eram muito raros. Hoje já
existem muitos bons trabalhos. Muitas plantas
têm gosto e propriedades próprias,
o que limitou muito esses estudos, por dificuldades
de definição de placebos. Então,
hoje o médico já pode entender muito
bem o que é um produto à base de
planta.
Esse
foi o mercado que mais cresceu no mundo farmacêutico
nos últimos 10 a 20 anos. O mercado mundial
de medicamentos, da ordem de 300 bilhões
de dólares, estabilizou-se nesse patamar,
e ano a ano os fitoterápicos vêm
crescendo sobretudo nos países ricos.
A
Alemanha é o país que mais consome
medicamentos fitoterápicos no mundo, cerca
de 3,5 bilhões de dólares, sendo
que mais de 60% do consumo é prescrição
médica. Cada alemão consome 37 dólares/ano
em planta.
No
entanto, em nenhum outro país esse mercado
cresceu como nos Estados Unidos. Há seis
anos o país não tinha nenhuma tradição
nessa área. Os americanos, que têm
60% da indústria mundial de medicamentos,
percebendo o crescimento nessa área, retiraram
as plantas do controle da FDA, sendo as mesmas
comercializadas como suplementos dietéticos
e criaram um órgão, o MAC, para
estudar as medicinas alternativas de várias
plantas.
Isso
significa que provavelmente nos próximos
anos teremos uma política de medicamentos
fitoterápicos também comandada pelos
Estados Unidos.
Dentre
os motivos que levaram ao crescimento desse mercado
está a preferência mundial pelas
coisas naturais; a preocupação com
os efeitos colaterais de medicamentos sintéticos,
o que é uma ilusão pensar que medicamentos
fitoterápicos não têm efeito
colateral; o grande interesse pela medicina alternativa,
o que naturalmente ocorre em países ricos,
porque nos pobres tem que usar o que existe e
a preferência por tratamentos preventivos.
Com o avanço da idade, a população
vai ficando mais velha, e começa a usar
preventivamente tratamentos, incluindo aí
muitos medicamentos antioxidantes. Reside aí
uma boa parte desse aumento do consumo.
Além
disso, está também a preocupação
de que essa medicina pode ser eficaz quando a
medicina oficial não funciona; a qualidade
clínica desses medicamentos, que já
era de se esperar, foi melhorada, passando muitos
médicos de vários países
a prescrevê-los. E finalmente, porque os
medicamentos sintéticos custam muito caro.
A
grande preocupação da OMS e de toda
a indústria farmacêutica, que tem
justificado todos os investimentos, tem sido tornar
os fitoterápicos mais eficazes, eticamente
confiáveis e que possam trazer ao médico
uma segurança de aplicação.
Quanto
aos efeitos colaterais das plantas, uma revisão
publicada há dois anos atrás indica
que existem dois tipos de efeitos colaterais muito
comuns nas plantas. O primeiro, intrínseco,
é a toxicidade que as plantas têm.
Várias reações próprias
delas, doses excessivas, uso inadequado, interação
medicamentosa e muitas alergias. E o segundo,
extrínseco, deve-se à baixa qualidade
desse material, especialmente em nosso país,
como a identificação falsa das plantas,
falta de controle de qualidade, contaminação
por metais pesados, inseticidas e insetos, substituição
e adulteração de plantas, tudo isso
porque a Vigilância Sanitária de
alguns países fechou os olhos para esses
cuidados. Isso é um problema de saúde
pública, que precisa ser repensado.
Do
ponto de vista de estudo científico, gostaria
de mostrar a planta Hypericum perforatum L. (St
John's Wort), da qual se utilizam as folhas para
o tratamento da depressão. Os constituintes
são vários, dentre os quais vale
ressaltar a hiperforina, um dos princípios
ativos mais importantes no tratamento da depressão.
Hypericum perforatum L. tem um mecanismo de ação
novo, que deve dar origem a um novo tipo de antidepressivo.
Recentemente foi mostrado que essa substância
(hiperforina) aumenta a concentração
de sódio intra-celular, criando uma outra
possibilidade terapêutica de desenvolvimento,
não só dessa planta, como de outros
análogos e moléculas. Possui menos
efeitos colaterais, mecanismo de ação
que parece estar mais relacionado com inibição
de captação de serotonina. E o que
é mais importante é que há
milhares de estudos clínicos, duplo-cegos,
alguns bem controlados, muito confiáveis,
publicados nas melhores revistas internacionais.
Não há porque essa planta, se bem
desenvolvida, não ter um mercado igual
a qualquer outro antidepressivo.
Em
geral há problemas nos estudos clínicos,
porque não se pode comparar extratos que
foram diferentemente estudados. Esses estudos
clínicos muitas vezes usaram diferentes
procedimentos. Muitos não servem porque
não foram randomizados, outros porque não
incluíram pacientes corretamente ou porque
o número de pacientes é insuficiente.
Dificuldade de estabelecer placebo e fazer estudo
duplo-cego é um outro problema grave na
área de plantas. Isso tudo está
sendo checado e há de ser bem estudado.
Existem
vários fatores que dificultam esses estudos
clínicos. Primeiro porque muitas vezes,
por não conhecer os princípios ativos,
se desconhece a ação resultante
de vários produtos atuando sinergicamente,
e isso do ponto de vista clínico é
muito difícil de se avaliar.
Em
segundo lugar, porque esses princípios
ativos aumentam ou diminuem, dependendo de como
o material foi transportado, estocado, como era
o solo no qual cresceram, qual parte da planta
foi coletada, as condições de luminosidade,
etc. Por isso todas as plantas usadas clinicamente
são cultivadas em situações
muito específicas e um extrato nunca pode
ser comparado com outro.
O
registro é um outro grande problema. O
melhor sistema é o europeu, onde se usam
conhecimentos científicos e tradicionais.
O Brasil tem uma lei que sugere que se registrem
esses produtos nessa categoria. Para registrar
um produto fitoterápico tem que haver um
estudo de eficácia clínica, toxicologia,
controle de qualidade e estabilidade.
No
Brasil, nós usamos quase sempre ervas frescas
moídas com pouco ou nenhum estudo científico,
às vezes extratos secos, sem controle de
qualidade adequado do produto, eventualmente uma
tintura, um extrato, mas não chegamos a
um medicamento fitoterápico. Isso deveria
ser feito pela indústria com o apoio das
universidades e dos centros de pesquisas.
Os
fitoterápicos com controle de qualidade
têm hoje um mercado muito grande (aproximadamente
30 a 40 bilhões de dólares) em todo
mundo. E nós ainda não temos nenhum
medicamento fitoterápico com eficácia
clínica e estudos de toxicidade totalmente
desenvolvido no Brasil. |