Psicofarmacologia dos Fitoterápicos

Prof. Dr. Elisaldo Carlini
Professor Titular de Psicofarmacologia da EPM/Unifesp

Quando eu falar de eficácia de um fitoterápico, dentro de um Simpósio denominado Mitos x Evidência Clínica, devo-me ater aos aspectos farmacológicos, toxicológicos e clínicos, formando esta evidência científica (quadro 1).

 
Quadro 1

Pesquisas com Plantas medicinais no Brasil

 
Começarei apresentando alguns mitos, através de alguns exemplos, e como do mito chega-se a uma evidência científica. Na verdade, ele, o mito, já estava lá e era uma verdade. Nós simplesmente vestimos o mito com a nossa linguagem acadêmica e passamos então a dizer que ele é uma verdade.

Há um trecho da Odisséia de Homero que me encantou demais: é o encontro de Homero com a deusa, Circe, que teria envenenado os colegas de Homero. Homero recebe o auxílio do deus Hermes para enfrentar Circe (Plaitakis, A. and Duvoisin, R.C., "Homer's Moly Identified as Galanthus nivalis L.: Physiologic Antidote to Stramonium Poisoning" Clinical Neuropharmacology, 6:, 1-5 1983).

Os cientistas procuraram essa planta maligna e descobriram, sem muita dificuldade, que na Ilha de Creta há a Datura stramonium, que tem um princípio anticolinérgico, o qual provoca alucinações com muitas imagens de animais. Um exemplo semelhante de planta existe no Brasil: é a famosa trombeteira, zabumba ou véu-de-noiva, que apresenta os mesmos princípios anticolinérgicos. Existem muitos exemplos de envenenamento aqui no Brasil, inclusive com aparecimento de alucinações, com a trombeteira.

Foi mais difícil descobrir a Moly, a planta sagrada. Mas após muita busca ficou certo que ela é a Galanthus nivalis, planta que sintetiza um princípio anticolinesterásico que neutraliza o efeito da outra planta. Este princípio ativo é a galantamina.

Essa planta já era conhecida há 300 a.C., e só foi identificada mais recentemente. O princípio anticolinesterásico da Galanthus nivalis aumenta os níveis de acetilcolina e portanto combate o bloqueio colinérgico produzido pela primeira planta. Da Galanthus nivalis obteve-se uma substância, a galantamina, que no momento está sendo olhada com muito interesse, pois parece ser muito promissora para aumentar os níveis de acetilcolina, onde esses níveis precisam ser aumentados, como por exemplo na doença de Alzheimer.

Em síntese, esta história é um caso típico de um mito que na realidade vestimos de linguagem moderna, a chamada evidência científica.

Para continuar justificando a psicofarmacologia dos fitoterápicos apresentarei ainda alguns exemplos.

Um deles ocorre na Amazônia, onde índios podem ficar totalmente fora da realidade, ao tomarem uma mistura de duas plantas, chamada de ayahuasca, que traduzindo no idioma quíchua, segundo o antropólogo americano Canon, significa "vinho da alma".

Esses índios acreditam que ao utilizar essa bebida entram no verdadeiro aspecto da vida, porque o cotidiano é uma falsidade e não uma realidade. A realidade mesmo seria quando eles estão sob a ação do "vinho da alma". E no que esse mito se transformou? Hoje há uma imensa clareira na Floresta Amazônica, na qual se estabeleceu uma colônia, chamada fazenda São Francisco, onde vivem atualmente os adoradores da ayahuasca.

Outra comunidade religiosa que utiliza as mesmas plantas é a do Céu do Mapiá, no Amazonas, onde também construíram um templo religioso. E já existem templos religiosos, utilizando a ayahusca em quase todas as capitais do Brasil.

Os índios da Amazônia utilizam duas plantas para obter essa ayahuasca. Uma planta chamada Psychotria virídes, conhecida também como rainha ou chacrona. Essa planta sintetiza uma substância chamada dimetiltriptamina, um agente alucinógeno. Para chegar ao cérebro, essa substância necessita vencer a barreira intestinal onde existe uma enzima, a monoamina-oxidase, que a destrói. Por isso, toda vez que se toma a rainha sozinha ela pouco efeito faz, porque a substância ativa quase não chega ao cérebro. Os índios descobriram então que um cipó, chamado caapi, contém uma substância que inibe essa enzima no tubo intestinal; por isso a mistura de duas plantas faz a bebida sagrada, que é a ayahuasca, ser bastante ativa.

Essa explicação da mistura faz com que não se tenha mais um mito, mas sim uma realidade. Comprovado pela farmacologia temos: a dimetiltriptamina, uma droga indólica, que possivelmente interfere com a serotonina no cérebro, e a harmina, presente no cipó, que é inibidora de monoamina-oxidase. Esse é um exemplo de plantas da nossa Amazônia que possuem agentes farmacológicos com efeitos muito claros no ser humano. Elas são um mito ou uma realidade científica de acordo com a nossa visão, nossa ideologia.

Outro exemplo, muito antigo, vem de uma ilha na Oceania. Indígenas tomavam uma beberagem da planta kava-kava, a Piper methysticum, preparada exatamente como nossos índios faziam o cauim. As mulheres pegavam as raízes da planta, mastigavam e cuspiam num pote, depois as pessoas bebiam e tinham alterações mentais, bem características e interessantes.

Mais recentemente, obteve-se um extrato dessa planta. Um extrato é um conjunto e não uma única substância. No caso, o extrato contem as kavas lactonas ou lactonas da kava-kava.

Como disse o professor Romildo Bueno, podemos ter bons medicamentos, corretamente aprovados, a partir de um extrato que contenha vários princípios ativos padronizados. Existem cerca de oito produtos medicinais registrados no Brasil, a partir das plantas.

O da planta kava-kava é um deles. Os senhores podem ficar admirados, mas não há um único produto com planta brasileira que tenha sido registrado e licenciado no Brasil como medicamento, para venda com prescrição médica. Isso é curiosíssimo a meu ver: um país riquíssimo em flora; e, no entanto, quando temos um medicamento registrado à base de extrato de planta ela é européia, africana ou asiática.

Se nós observarmos as plantas no mundo, analisando as espécies chamadas endêmicas, isto é, que só ocorrem em uma região, a Suíça tem apenas duas plantas, a Alemanha 16, o Reino Unido 73, o México 3.376 e a Amazônia entre 25 e 30 mil. E o Brasil não é só a Amazônia, é a caatinga, o cerrado, o pantanal, a mata atlântica. Temos uma diversidade tremenda, praticamente não estudada até agora. Nesse sentido, temos que abrir os olhos, porque é a natureza que está no Brasil, mas não acho que por isso ela seja só brasileira. Se não tivermos competência para explorar essa natureza (quadro 2), outros poderão fazer. Precisamos acordar para isso.

 
Quadro 2
Pesquisa com plantas medicinais no Brasil

Como pesquisar:
1. coletas guiadas por quimiotaxonomia;
2. coletas a partir de conhecimentos tradicionais como indicativo de potenciais farmacológicos;
3. coletas em locais com alto grau de diversidade e endemismo:
País ou região Nº de espécies endêmicas
Suíça 02
Alemanha 16
Reino Unido 73
México 3.376
Amazônia 25.000 a 30.000

Fonte: Em - Selected Guidelines for Ethnobotanical
Research: a field manual. Ed. Alexiades, M. N. The New York Botanical Garden, New York, 1996.

 
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