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Começarei apresentando
alguns mitos, através de alguns exemplos,
e como do mito chega-se a uma evidência
científica. Na verdade, ele, o mito, já
estava lá e era uma verdade. Nós
simplesmente vestimos o mito com a nossa linguagem
acadêmica e passamos então a dizer
que ele é uma verdade.
Há
um trecho da Odisséia de Homero que me
encantou demais: é o encontro de Homero
com a deusa, Circe, que teria envenenado os colegas
de Homero. Homero recebe o auxílio do deus
Hermes para enfrentar Circe (Plaitakis, A. and
Duvoisin, R.C., "Homer's Moly Identified
as Galanthus nivalis L.: Physiologic Antidote
to Stramonium Poisoning" Clinical Neuropharmacology,
6:, 1-5 1983).
Os
cientistas procuraram essa planta maligna e descobriram,
sem muita dificuldade, que na Ilha de Creta há
a Datura stramonium, que tem um princípio
anticolinérgico, o qual provoca alucinações
com muitas imagens de animais. Um exemplo semelhante
de planta existe no Brasil: é a famosa
trombeteira, zabumba ou véu-de-noiva, que
apresenta os mesmos princípios anticolinérgicos.
Existem muitos exemplos de envenenamento aqui
no Brasil, inclusive com aparecimento de alucinações,
com a trombeteira.
Foi
mais difícil descobrir a Moly, a planta
sagrada. Mas após muita busca ficou certo
que ela é a Galanthus nivalis, planta que
sintetiza um princípio anticolinesterásico
que neutraliza o efeito da outra planta. Este
princípio ativo é a galantamina.
Essa
planta já era conhecida há 300 a.C.,
e só foi identificada mais recentemente.
O princípio anticolinesterásico
da Galanthus nivalis aumenta os níveis
de acetilcolina e portanto combate o bloqueio
colinérgico produzido pela primeira planta.
Da Galanthus nivalis obteve-se uma substância,
a galantamina, que no momento está sendo
olhada com muito interesse, pois parece ser muito
promissora para aumentar os níveis de acetilcolina,
onde esses níveis precisam ser aumentados,
como por exemplo na doença de Alzheimer.
Em
síntese, esta história é
um caso típico de um mito que na realidade
vestimos de linguagem moderna, a chamada evidência
científica.
Para
continuar justificando a psicofarmacologia dos
fitoterápicos apresentarei ainda alguns
exemplos.
Um
deles ocorre na Amazônia, onde índios
podem ficar totalmente fora da realidade, ao tomarem
uma mistura de duas plantas, chamada de ayahuasca,
que traduzindo no idioma quíchua, segundo
o antropólogo americano Canon, significa
"vinho da alma".
Esses
índios acreditam que ao utilizar essa bebida
entram no verdadeiro aspecto da vida, porque o
cotidiano é uma falsidade e não
uma realidade. A realidade mesmo seria quando
eles estão sob a ação do
"vinho da alma". E no que esse mito
se transformou? Hoje há uma imensa clareira
na Floresta Amazônica, na qual se estabeleceu
uma colônia, chamada fazenda São
Francisco, onde vivem atualmente os adoradores
da ayahuasca.
Outra
comunidade religiosa que utiliza as mesmas plantas
é a do Céu do Mapiá, no Amazonas,
onde também construíram um templo
religioso. E já existem templos religiosos,
utilizando a ayahusca em quase todas as capitais
do Brasil.
Os
índios da Amazônia utilizam duas
plantas para obter essa ayahuasca. Uma planta
chamada Psychotria virídes, conhecida também
como rainha ou chacrona. Essa planta sintetiza
uma substância chamada dimetiltriptamina,
um agente alucinógeno. Para chegar ao cérebro,
essa substância necessita vencer a barreira
intestinal onde existe uma enzima, a monoamina-oxidase,
que a destrói. Por isso, toda vez que se
toma a rainha sozinha ela pouco efeito faz, porque
a substância ativa quase não chega
ao cérebro. Os índios descobriram
então que um cipó, chamado caapi,
contém uma substância que inibe essa
enzima no tubo intestinal; por isso a mistura
de duas plantas faz a bebida sagrada, que é
a ayahuasca, ser bastante ativa.
Essa
explicação da mistura faz com que
não se tenha mais um mito, mas sim uma
realidade. Comprovado pela farmacologia temos:
a dimetiltriptamina, uma droga indólica,
que possivelmente interfere com a serotonina no
cérebro, e a harmina, presente no cipó,
que é inibidora de monoamina-oxidase. Esse
é um exemplo de plantas da nossa Amazônia
que possuem agentes farmacológicos com
efeitos muito claros no ser humano. Elas são
um mito ou uma realidade científica de
acordo com a nossa visão, nossa ideologia.
Outro
exemplo, muito antigo, vem de uma ilha na Oceania.
Indígenas tomavam uma beberagem da planta
kava-kava, a Piper methysticum, preparada exatamente
como nossos índios faziam o cauim. As mulheres
pegavam as raízes da planta, mastigavam
e cuspiam num pote, depois as pessoas bebiam e
tinham alterações mentais, bem características
e interessantes.
Mais
recentemente, obteve-se um extrato dessa planta.
Um extrato é um conjunto e não uma
única substância. No caso, o extrato
contem as kavas lactonas ou lactonas da kava-kava.
Como
disse o professor Romildo Bueno, podemos ter bons
medicamentos, corretamente aprovados, a partir
de um extrato que contenha vários princípios
ativos padronizados. Existem cerca de oito produtos
medicinais registrados no Brasil, a partir das
plantas.
O
da planta kava-kava é um deles. Os senhores
podem ficar admirados, mas não há
um único produto com planta brasileira
que tenha sido registrado e licenciado no Brasil
como medicamento, para venda com prescrição
médica. Isso é curiosíssimo
a meu ver: um país riquíssimo em
flora; e, no entanto, quando temos um medicamento
registrado à base de extrato de planta
ela é européia, africana ou asiática.
Se
nós observarmos as plantas no mundo, analisando
as espécies chamadas endêmicas, isto
é, que só ocorrem em uma região,
a Suíça tem apenas duas plantas,
a Alemanha 16, o Reino Unido 73, o México
3.376 e a Amazônia entre 25 e 30 mil. E
o Brasil não é só a Amazônia,
é a caatinga, o cerrado, o pantanal, a
mata atlântica. Temos uma diversidade tremenda,
praticamente não estudada até agora.
Nesse sentido, temos que abrir os olhos, porque
é a natureza que está no Brasil,
mas não acho que por isso ela seja só
brasileira. Se não tivermos competência
para explorar essa natureza (quadro 2), outros
poderão fazer. Precisamos acordar para
isso. |