Depressão Leve a Moderada:
Aspectos Clínicos e Epidemiológicos

Prof. Dr. Paulo Mattos -Professor Adjunto do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal.
Pesquisador do Centro Integrado de Pesquisas do Instituto de Psiquiatria da UFRJ.

Um especialista não tem dificuldade em identificar quadros de distimia; no entanto, a maior parte dos quadros depressivos aparece primeiro para o clínico-geral ou para o não-psiquiatra, que costumam apresentar muita dificuldade para distinguir a depressão leve a moderada.

Quem primeiro falou sobre o assunto foi Burton (1577-1640) no século XVI. Segundo ele havia a diferença entre depressão, que era uma doença, e o temperamento melancólico (quadro 1).

Curiosamente, uma religiosa do século XVI, Teresa de Jesus, caracterizou pela primeira vez a melancolia como doença. Ela também distinguiu a doença do que seria o caráter melancólico, conseguindo identificar duas expressões diferentes.

Falret (1824-1902) também falou sobre psicose maníaco depressiva. Na opinião dele havia formas atenuadas, se referindo não só ao que hoje conhecemos como ciclotimia, ou como ao que os americanos chamam de bipolar tipo II, como também às formas atenuadas de depressão, dentre elas a distimia.

 
Quadro 1
Distimia
  • Burton (1577-1640): doença e também temperamento melancólico
  • Teresa de Jesus (séc. XVI): distinção entre melancolia como doença e caráter melancólico
  • Falret (1824-1902): formas atenuadas da folie circulaire
 
Kraepelin em 1921 (quadro 2) voltou ao mesmo assunto. Havia a depressão que era da própria insanidade maníaco-depressiva, atualmente chamada de doença bipolar e o temperamento depressivo.

Kretschmer (1936) foi o primeiro a dizer que realmente existiam duas entidades, que poderiam ser identificadas separadamente. No entanto, existia um continuum entre elas, desde a distimia até a doença depressiva propriamente dita.

Kurt Schneider (1923) apresentou sua classificação de transtornos de personalidade, que tem a psicopatia do subtipo depressivo como um deles. Ele também identificava um transtorno menor, associado ao temperamento do indivíduo.

 
Quadro 2

Distimia

  • Kraepelin (1921): temperamento depressivo e insanidade maníaco-depressiva
  • Kretschmer (1936): continuum entre temperamento básico e doença
  • Kurt Schneider (1923): psicopatia subtipo depressivo
 
Na DSM-II (1968) (quadro 3) falava-se em depressão neurótica, onde a ênfase era na personalidade do indivíduo e curiosamente não nos sintomas. Na CID-9 permaneceu o termo neurose depressiva.

No RDC surgiu pela primeira vez o termo transtorno depressivo menor, que seria, ao contrário do temperamento depressivo, um quadro de natureza recorrente cíclica que não teria a intensidade da depressão maior.

Na DSM-III aparece o termo que persiste até o momento, que é a distimia. E na DSM II R permanece o termo distimia, só que fica estabelecido que a distimia não é meramente um resíduo da depressão maior. Ao contrário, freqüentemente ela antecede a doença depressiva. É muito comum que no tratamento da depressão não haja remissão completa da doença, assim como em várias outras doenças.

 
Quadro 3

Distimia

  • DSM-II (1968): depressão neurótica - ênfase na personalidade e não nos sintomas.
  • CID-9 (1978): neurose depressiva
  • RDC (1978): transtorno depressivo menor
  • DSM-III (1980): distimia
 
O estudo da Epidemiologic Catchment Area (ECA) Program (Robins & Regier, 1991), realizado há quase uma década, ainda persiste como ponto de referência para avaliação de doenças na comunidade. Na população a incidência de depressão maior é tipicamente mais significativa entre os 30 e 40 anos, quando é mais fácil fazer o diagnóstico. Pois é justamente nessa faixa que nós procuramos mais a depressão maior (quadro 4).
 
Quadro 4
ECA (Weissman et al, 1991)Depressão Maior Distimia
  Depressão Maior Distimia
18-29 anos 5,0 3,0
30-44 anos 7,5 3,8
45-64 anos 4,0 3,6
+ 65 anos 1,4 1,7
 
À semelhança da depressão, onde há uma diferença entre os sexos, na depressão maior ela é bastante nítida, em média quatro vezes maior em homens do que em mulheres. Na distimia as mulheres também são mais acometidas; no entanto, apenas o dobro apresenta a doença em relação aos homens.

O interessante é que essa pretensa distinção entre depressão e distimia pode não se manter. No estudo ECA ficou evidente que quase metade dos distímicos, ao longo da vida, viria a ter depressão maior. E 28% daqueles que têm depressão maior também têm distimia no momento do diagnóstico. É o que se chama de depressão dupla.

Um estudo mais recente é o de Zurick, no qual fica claro que as classificações de distimia, transtornos depressivos breves e recorrentes, na verdade, não se mantêm ao longo do tempo. Estudando um daqueles cantões da Suíça e acompanhando a população ao longo dos anos, observou-se que quem tinha depressão breve recorrente em um ano depois de quatro anos apresentava depressão maior ou distimia, ou ao contrário. Com isso, remontamos a aquela idéia de haver um contínuo desde o temperamento depressivo até a doença depressiva.

No quadro 5 observa-se que o indivíduo que tem algum episódio depressivo, no caso depressivo maior, sem distimia, evolui em 22% dos casos. Já o que tem um único episódio depressivo com histórico de distimia evolui em 9% dos casos.

 
Quadro 4
Evolução
%
Episódio depressivo simples, sem distimia
22
Episódio depressivo simples, com distimia
9
 
Episódios recorrentes com distimia prévia e recuperação completa são uma raridade. E os indivíduos que têm episódios recorrentes com distimia prévia, sem recuperação completa, são a maioria dos casos.

Mais ainda, episódios recorrentes sem distimia prévia, com recuperação completa, são mais freqüentes. Como se vê a presença da depressão leve, distimia, agrava o prognóstico da depressão maior. E episódios recorrentes sem distimia prévia, sem recuperação completa, também são bastante freqüentes.

Ninguém apresentou distimia pura nesse estudo. A dúvida é se ela realmente existe, pois a maioria dos distímicos, como se mostrou, irá apresentar quadros de depressão maior posteriormente.

Existem outros conceitos que surgiram mais modernamente, como de depressão menor, fases recorrentes de sintomas depressivos intervalados em fase sem nenhum ou com muito poucos sintomas; a depressão breve recorrente, que só dura alguns dias; a subsindrômica, onde indivíduos têm sintomas de depressão, mas não preenchem os critérios para o diagnóstico de nenhum dos quadros expostos anteriormente; e os transtornos depressivos de personalidade, dos quais voltou-se a falar ultimamente.

 
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