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Introdução
ao Tratamento dos Transtornos Mentais
(Avaliação e Tratamento)
(continuação
da página anterior)
DISTÚRBIOS
DE ANSIEDADE E DISTÚRBIOS DISSOCIATIVOS
Fundamentos
do Diagnóstico
- Ansiedade
observável ou manifestação
evidente de um mecanismo de defesa (como uma
fobia), ou ambas.
- Não
limitado a um distúrbio de ajustamento.
- Sintomas somáticos
ligados ao sistema nervoso autônomo
ou a um sistema orgânico específico
(p.ex.: dispnéia, palpitações,
parestesias).
- Não
resultante de distúrbios físicos,
estados psiquiátricos (p.ex.: esquizofrenia)
ou abuso de drogas (p.ex.: cocaína).
Considerações
Gerais
Stress,
medo e ansiedade tendem a ser interativos. Os
principais componentes da ansiedade são
psicológicos (tensão, medos, dificuldade
de concentração, apreensão)
e somáticos (taquicardia, hiperventilação,
palpitações, tremor, suores). Outros
sistemas orgânicos (p. ex.: o gastrintestinal)
podem estar envolvidos nas queixas de vários
sistemas. Fadiga e distúrbios do sono são
comuns. Os sintomas simpaticomiméticos
da ansiedade tão tanto uma resposta ao
estado do sistema nervoso central quanto um reforço
de maior ansiedade. A ansiedade pode tornar-se
autógena, pois os sintomas reforçam
a reação, espiralando-a. Em geral,
é isso que acontece quando a ansiedade
é um epifenômeno de outros distúrbios
médicos ou psiquiátricos.
A
ansiedade pode ser indefinida, resultando em ataques
ansiosos agudos e ocasionalmente tornando-se crônica.
Quando um ou vários mecanismos de defesa
(ver acima) estão funcionando, as conseqüências
são os conhecidos problemas de fobias,
reações de conversão, estados
dissociativos, obsessões e compulsões.
A falta de estrutura costuma ser um fator contribuinte,
como se nota naquelas pessoas que têm “a
neurose do domingo”. Elas se saem bem durante
a semana, com um programa de trabalho planejado,
mas não toleram o fim-de-semana desestruturado.
Como as atividades planejadas tendem a refrear
a ansiedade, muitas pessoas têm dificuldades
crescentes quando as perdem, como ocorre na aposentadoria.
Alguns acreditam que as várias manifestações
da ansiedade não são um resultado
de conflitos inconscientes, mas sim “hábitos”
— padrões persistentes de comportamento
inadaptativo, adquirido por aprendizagem. Os “hábitos”,
por serem inadaptativos, são modos insatisfatórios
de lidar com os problemas da vida — daí
resulta a ansiedade. Busca-se ajuda somente quando
a ansiedade se torna demasiado dolorosa. Fatores
exógenos como os estimulantes (p.ex.: cafeína,
cocaína) devem ser considerados como um
fator contribuinte.
Constatações
Clínicas
A.
Distúrbio de ansiedade generalizada:
É o mais comum dos distúrbios ansiosos
clinicamente significativos. As manifestações
iniciais surgem aos 20-35 anos de idade, com leve
predominância nas mulheres. Os incapacitantes
sintomas ansiosos da apreensão, preocupação,
irritabilidade, hipervigilância (preparação
ante ameaças) e queixas somáticas
são de longa duração e persistem
durante pelo menos um mês. As manifestações
incluem os sistemas cardíaco (p.ex.: taquicardia,
aumento da pressão sangüínea),
gastrintestinal (p.ex.: aumento da acidez, dor
epigástrica) e neurológico (p.ex.:
dores de cabeça, quase-síncope).
Algumas das origens ou causas que exacerbam a
ansiedade podem ser identificadas nas situações
da vida.
B.
Distúrbio de pânico: É
caracterizado por episódios de ansiedade
intensas, imprevisíveis, recorrentes e
de curta duração, acompanhados de
acentuadas manifestações fisiológicas.
A agorafobia pode estar presente. Sintomas e sinais
perturbadores como dispnéia, taquicardia,
palpitações, dores de cabeça,
tonturas, parestesias, sensação
de asfixia, sufocação, sensação
de falta de ar; náusea e inchaços
estão associados a sentimentos de tragédia
iminente (resposta de alarme). Recorrentes ataques
de pânico durante o sono (não pesadelos)
ocorrem em cerca de 30% dos distúrbios
de pânico. A ansiedade por antecipação
desenvolve-se em todos esses pacientes e restringe
ainda mais sua vida cotidiana. O distúrbio
de pânico tende a ser familiar, com início
antes dos 25 anos de idade; afeta 3-5% da população;
e a proporção homens/mulheres é
de 2:1. O período pré-menstrual
apresenta maior vulnerabilidade; as pacientes
freqüentemente passam por avaliações
médicas de emergência (p. ex.: buscando
“ataques cardíacos” ou “hipoglicemia”)
antes que seja feito o diagnóstico correto.
Sintomas gastrintestinais são muito comuns,
ocorrendo em cerca de 1/3 dos casos. Infartos
do miocárdio, feocromocitoma, hipertireoidismo
e várias reações a drogas
recreativas podem imitar um distúrbio de
pânico. O prolapso da válvula mitral
pode estar presente, mas em geral não é
fator significativo. Pacientes com distúrbio
de pânico recorrente muitas vezes se tornam
desmoralizados, hipocondríacos, agorafóbicos
e deprimidos. Esses indivíduos correm um
maior risco de grande depressão e tentativas
de suicídio associadas a esse distúrbio.
O abuso do álcool (cerca de 20%) resulta
de autotratamento e muitas vezes está combinado
com dependência de sedativos. Alguns pacientes
têm ataques atípicos de pânico
associados a sintomas do tipo convulsivo, que
geralmente incluem fenômenos psicossensoriais
(é comum vir à tona um histórico
de abuso de estimulantes). Cerca de 25% dos pacientes
com distúrbio de pânico têm
também transtornos obsessivo-compulsivos.
C.
Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC):
Na reação obsessivo-compulsiva,
a idéia ou impulso irracional se introduz
persistentemente na percepção consciente.
As obsessões (pensamentos recorrentes,
como o medo de ser exposto a germes) e compulsões
(ações repetitivas como lavar as
mãos muitas vezes antes de descascar uma
batata) são reconhecidas pelo indivíduo
como absurdas e ele resiste a elas, mas a ansiedade
só é aliviada pelo desempenho ritualístico
da ação ou pela contemplação
deliberada da idéia ou emoção
invasora. A preocupação básica
subjacente do paciente é não perder
o controle. Muitos pacientes não mencionam
os sintomas e precisam ser interrogados sobre
os mesmos. Esses pacientes costumam ser previsíveis,
metódicos, conscienciosos e inteligentes
— traços que são vistos em
muitos comportamentos compulsivos, tais como o
transtorno da compulsão alimentar periódica,
purgativos e o correr compulsivo. Há uma
sobreposição do distúrbio
obsessivo-compulsivo e outros comportamentos (“espectro
TOC”), incluindo tiques, tricotilomania
(arrancar cabelos), onicofagia (roer unhas), hipocondria,
síndrome de Tourette e distúrbios
alimentares (ver Capítulo 29). A incidência
de 2-3% do TOC na população em geral
é muito mais alta do que tinha sido anteriormente
reconhecido. Além disso, há uma
alta comorbidade de TOC e depressão profunda;
2/3 dos pacientes com TOC desenvolverão
uma grande depressão durante a vida. A
proporção homens/mulheres é
semelhante, com as mais altas taxas ocorrendo
entre as pessoas jovens, divorciadas, separadas
e desempregadas (todas elas altas categorias de
stress). São comuns anormalidades neurológicas
da coordenação motora fina e movimentos
involuntários. Sob stress extremo, esses
pacientes às vezes exibem comportamentos
paranóides e delusões, em geral
associados com a depressão, e podem imitar
a esquizofrenia.
D. Distúrbio fóbico:
A ideação fóbica pode ser
considerada um mecanismo de “deslocamento”
no qual o paciente transfere os sentimentos de
ansiedade de seu objeto verdadeiro para outro
que possa ser evitado. Entretanto, como as fobias
são mecanismos de defesa ineficazes, há
uma tendência para aumento em seu escopo,
intensidade e número. As fobias sociais
são globais ou específicas; nas
primeiras, todas as situações sociais
são mal toleradas, enquanto o segundo grupo
inclui ansiedade de desempenho ou fobias bem delineadas.
A agorafobia (medo de lugares abertos e áreas
públicas) está freqüentemente
associada a sérios ataques de pânico.
Os pacientes geralmente desenvolvem a agorafobia
no começo da vida adulta, tornando difícil
um modo de vida normal.
E.
Distúrbio dissociativo: Fuga (a
súbita e inesperada saída de casa,
com incapacidade de recordar o próprio
passado), amnésia, sonambulismo, múltipla
personalidade e despersonalização
são estados dissociativos. A reação
é precipitada por uma crise emocional.
O sintoma produz redução da ansiedade
e uma solução temporária
da crise. Os mecanismos incluem repressão
e isolamento, bem como uma concentração
particularmente limitada como se vê nos
estados hipnóticos. Os sintomas dissociativos
são semelhantes, de muitas maneiras, aos
sintomas vistos em pacientes com disfunção
do lobo temporal.
Bend
BC Philpott RM: Persistent post-traumatic stress
disorder (Clinical conference.) Br Med J 1994;
309:526. [NLM Cit ID: 94372712]
Katz
L et al: A review of the psychobiology and pharmacotherapy
of posttraumatic stress disorder. Can J Psychiatry
1996; 41:233. [NLM Cit ID: 96326827]
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