Consenso
sobre a Síndrome de Abstinência do
Álcool (SAA)
e o seu tratamento
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1.1.3.
Tratamento hospitalar
Essa
modalidade é reservada aos casos mais graves,
que requerem cuidados mais intensivos. Doses mais
elevadas de BZDs são geralmente necessárias
e sua prescrição deve ser baseada
em sintomas avaliados de hora em hora. Deve ser
dada atenção especial à hidratação
e correção de distúrbios
metabólicos (eletrólitos, glicemia,
reposição vitamínica). Em
alguns casos, a internação parcial
(hospital dia ou noite) pode ser indicada, e,
nesses casos, a orientação familiar
sobre a necessidade de comparecimento diário
deve ser reforçada e a retaguarda para
emergências deve ser bem esclarecida. A
utilização de "bafômetro",
quando esse recurso está disponível,
pode ser feita na chegada do paciente na unidade.
Abordagem
não-farmacológica:
- Monitoramento
do paciente deve ser freqüente, com aplicação
da escala Clinical Institute Withdrawal Assessment
for Alcohol, Revised – CIWA-Ar (Anexo),
que orienta a avaliação do paciente
em relação à gravidade
da SAA e a necessidade de administração
de medicamentos.
- A locomoção
do paciente deve se restrita;
- As visitas
devem ser limitadas, pois o ambiente de tratamento
deve ser calmo, com relativo isolamento, de
modo a ser propiciada uma redução
nos estímulos audiovisuais;
- A dieta deve
ser leve, quando aceita. Pacientes com confusão
mental devem permanecer em jejum, pois existe
o risco de aspiração e complicações
respiratórias. Nesses casos, deve ser
utilizada a hidratação por meio
de 1.000 ml de solução glicosada
5%, acrescida de 20ml de NaCl 20% e 10ml de
KCl 19,1%, a cada 8 horas.
Contenção
física
Os
pacientes agitados que ameaçam violência
devem ser contidos, se não forem suscetíveis
à intervenção verbal. A contenção
deve ser feita por pessoas treinadas, preferivelmente
com quatro ou cinco pessoas. É muito importante
explicar ao paciente o motivo da contenção.
Os
pacientes devem ser contidos com as pernas bem
afastadas e com um braço preso em um lado
e o outro preso sobre a sua cabeça. A contenção
deve ser feita de modo que as medicações
possam ser administradas. A cabeça do paciente
deve estar levemente levantada para diminuir a
sensação de vulnerabilidade e reduzir
a possibilidade de aspiração.
A
contenção deve ser removida, uma
de cada vez a cada cinco minutos, assim que o
paciente seja medicado e apresente melhora do
quadro de agitação. Todo o procedimento
deve ser documentado em prontuário.
Abordagem
farmacológica:
- Reposição
vitamínica: a mesma recomendada para
os níveis anteriores;
- BDZs: a prescrição
deve ser baseada em sintomas, avaliados a
cada hora pela aplicação da
escala CIWA-Ar. Quando a pontuação
obtida for maior que 8 ou 10, administrar
uma das seguintes opções: Diazepam:
10-20mg VO a cada hora; Clordiazepóxido:
50 - 100 mg VO a cada hora. Nos casos de hepatopatias
graves: Lorazepam: 2-4 mg VO a cada hora.
- A administração
de BDZs por via intravenosa requer técnica
específica e retaguarda para manejo
de eventual parada respiratória. Deve-se
administrar no máximo 10mg de diazepam
durante 4 minutos, sem diluição.
11.2.
Manejo das complicações
Convulsões:
a maioria das crises é do tipo tônico-clônica
generalizada. As crises convulsivas correspondem
a uma manifestação relativamente
precoce da SAA, mais de 90% ocorrem até
48 horas após a interrupção
do uso de álcool (pico entre 13 e 24 horas)
e estão associadas com evolução
para formas graves de abstinência. Cerca
de 1/3 dos pacientes que apresentam crises evoluem
para delirium tremens, se não forem tratados.
Em 40% dos casos, as crises ocorrem isoladamente.
Nos pacientes que apresentam mais de uma crise,
elas ocorrem geralmente em número limitado.
Quando houver história prévia de
epilepsia, devem ser mantidos os medicamentos
já utilizados pelo paciente. O diazepam
(ou um BDZ de ação longa) é
a medicação de escolha, na dose
de 10 ou 20 mg, via oral. O uso endovenoso é
especialmente indicado durante os episódios
convulsivos. Não há consenso para
a indicação de carbamazepina no
tratamento de crises convulsivas da SAA. A literatura
não respalda a utilização
de defenil-hidantoína (fenitoína)
no tratamento dessa complicação
da SAA.
Delirium
Tremens: forma grave de abstinência,
geralmente iniciando-se entre 1 a 4 dias após
a interrupção do uso de álcool,
com duração de até 3 ou 4
dias. É caracterizado por rebaixamento
do nível de consciência, com desorientação,
alterações sensoperceptivas, tremores
e sintomas autonômicos (taquicardia, elevação
da pressão arterial e da temperatura corporal).
Doses elevadas de BDZ são necessárias,
mas o uso associado de neurolépticos é
geralmente indicado. O tratamento farmacológico
inclui: diazepam 60mg por dia (ou lorazepam até
12mg por dia, em casos de hapatopatia grave) e
haloperidol 5mg por dia. No caso de ocorrer distonia
induzida por neurolépticos (particularmente
se forem administrados por via parenteral), esse
efeito colateral pode ser controlado com o uso
de anticolinérgicos (biperideno 2mg);
Alucinose
alcoólica: quadro alucinatório
predominantemente auditivo, com sons do tipo cliques,
rugidos, barulho de sinos, cânticos e vozes.
As alucinações podem ser também
de natureza visual e tátil. Os pacientes
podem apresentar medo, ansiedade e agitação
em decorrência dessas experiências.
Uma característica peculiar desse tipo
de fenômeno é que ocorre na ausência
de rebaixamento do nível de consciência
e evolui sem alterações autonômicas
óbvias. É tratado com neurolépticos,
particularmente o haloperidol 5mg ao dia, por
seu menor potencial de induzir convulsões.
Neurolépticos podem induzir distonias agudas
e outros distúrbios de movimento, que podem
ser tratados com anticolinérgicos.
11.3.
O que não fazer
A
administração de glicose, indiscriminadamente,
por risco de ser precipitada a síndrome
de Wernicke. A glicose só deve ser aplicada
parenteralmente após a administração
de tiamina;
O
uso rotineiro de difenil-hidantoína (fenitoína)
parenteral, a chamada "hidantalização",
uma vez que o uso desse anticonvulsivante não
parece ser eficaz no controle de crises convulsivas
da SAA;
A
administração de clorpromazina e
outros neurolépticos sedativos de baixa
potência para controle de agitação,
uma vez que podem induzir convulsões. O
haloperidol é a indicação
mais adequada;
A
contenção física inadequada
e indiscriminada, que provoque lesões nos
pacientes.
Abaixo,
na Figura 5, planos de tratamento, contra-indicações
e o manejo das complicações estão
resumidos para consulta.
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