10.
Avaliação laboratorial
Para
complementar a avaliação inicial
é necessário que se realize
alguns exames laboratoriais com o objetivo
de investigar adequadamente as alterações
orgânicas decorrentes da dependência
do álcool e que influenciam a síndrome
de abstinência. Os exames indicados
são: o volume corpuscular médio
(VCM); os níveis das enzimas hepáticas
(TGO,TGO,GGT); e eletrólitos, como
o magnésio, o sódio e o potássio.
Para
o diagnóstico diferencial das complicações
podem ser solicitados outros exames: radiografia
ou ultrassonagrafia de tórax, abdome
e/ou crânio ou tomografia computadorizada
de crânio.
11.
Tratamento
Os
objetivos do tratamento da síndrome
de abstinência do álcool são:
1. o alívio dos sintomas existentes;
2. a prevenção do agravamento
do quadro com convulsões e delirium;
3. a vinculação e o engajamento
do paciente no tratamento da dependência
propriamente dita; 4. a possibilidade de
que o tratamento adequado da SAA possa prevenir
a ocorrência de síndromes de
abstinência mais graves no futuro.
11.1.
Planejamento geral do tratamento
Serão
considerados três níveis de
atendimento, com complexidade crescente:
tratamento ambulatorial, internação
domiciliar e internação hospitalar.
O tratamento pode ser dividido em não-farmacológico
(que inclui os cuidados gerais e orientações)
e farmacológico. Esse último
pode ser subdividido em tratamento farmacológico
clínico (como a reposição
de vitaminas) e psiquiátrico (uso
de substâncias psicoativas).
Dentre
as medidas do tratamento não-farmacológico,
destacamos o monitoramento freqüente
do paciente; tentativas de propiciar um
ambiente tranqüilo, não estimulante,
com luminosidade reduzida; fornecimento
de orientação ao paciente
(com relação a tempo, local,
pessoal e procedimentos); limitação
de contatos pessoais; atenção
à nutrição e à
reposição de fluidos; e reasseguramento
dos cuidados e encorajamento positivo.
Embora
haja consenso sobre a necessidade da reposição
de vitaminas (sobretudo a tiamina) durante
o tratamento da SAA, ainda existe controvérsia
a respeito de doses preconizadas e mesmo
quais as vitaminas a serem repostas. A absorção
oral de medicamentos pode estar prejudicada
nos primeiros dias da SAA, devendo, portanto,
proceder a administração parenteral
nesse período.
Dentre
os psicofármacos utilizados, os benzodiazepínicos
(BZD) são a medicação
de primeira escolha para o controle dos
sintomas da SAA. De modo geral, os compostos
de ação longa são preferíveis,
sendo os de ação curta mais
indicados nos casos de hapatopatia grave.
Esquemas de administração
são planejados de acordo com a intensidade
dos sintomas, pois permitem uma utilização
de doses menores de medicação,
quando comparados aos esquemas posológicos
fixos. Ou seja, devemos buscar a dose adequada
para a intensidade de sintomas de cada paciente.
11.1.1.
Tratamento ambulatorial
Ao
receber o paciente, a atitude do profissional
de saúde deve ser acolhedora, empática
e sem preconceitos. O tratamento da SAA
(quadro agudo) é um momento privilegiado
para motivar o paciente para o tratamento
da dependência (quadro crônico).
Deve-se esclarecer a família e, sempre
que possível, o próprio paciente
sobre os sintomas apresentados, sobre os
procedimentos a serem adotados e sobre as
possíveis evoluções
do quadro. Deve ser propiciado ao paciente
e à família o acesso facilitado
a níveis mais intensivos de cuidados
(serviço de emergência, internação)
em casos de evolução desfavorável
do quadro. É importante ainda reforçar
a necessidade de comparecimento nas consultas
remarcadas, que serão tão
freqüentes quanto possível,
nos primeiros 15 dias do tratamento.
Abordagem
não-farmacológica:
- Orientação
da família e do paciente quanto
à natureza do problema, tratamento
e possível evolução
do quadro;
- Propiciar
ambiente calmo, confortável e
com pouca estimulação
audiovisual;
- A dieta
é livre, com atenção
especial à hidratação;
- O paciente
e a família devem ser orientados
sobre a proibição do ato
de dirigir veículos;
- As consultas
devem ser marcadas o mais brevemente
possível para reavaliação.
Abordagem
farmacológica:
- Reposição
vitamínica: tiamina intramuscular,
nos primeiros 7-15 dias; após
esse período a via é oral.
Doses de 300mg/dia de tiamina são
recomendadas com o objetivo de evitar
a Síndrome de Wernicke, que cursa
com ataxia, confusão mental e
anormalidades de movimentação
ocular extrínseca (essa última,
nem sempre presente);
- Benzodizepínicos
(BDZs): a prescrição deve
ser baseada em sintomas. Dessa forma,
as doses recomendadas são as
que, em média, o paciente pode
receber num determinado dia. O paciente
e os familiares devem ser informados
a respeito dos sintomas a serem monitorados
e orientados sobre a conveniência
de utilizar a maior dosagem da medicação
à noite. Se houver qualquer sintoma
de dosagem excessiva de BZD, como sedação,
deve-se proceder a interrupção
da medicação. Diazepam:
20mg via oral (VO) por dia, com retirada
gradual ao longo de uma semana OU Clordiazepóxido:
até 100mg VO por dia, com retirada
gradual ao longo de uma semana. Nos
casos de hepatopatias graves: Lorazepam:
4mg VO por dia, com retirada gradual
em uma semana.
- Ocorrendo
falha (recaída ou evolução
desfavorável) dessas abordagens,
a indicação de ambulatório
deve ser revista, com encaminhamento
para modalidades de tratamento mais
intensivas e estruturadas.
11.1.2.
Internação domiciliar
O
paciente deve permanecer restrito em sua
moradia, com a assistência dos familiares.
Idealmente, o paciente deverá receber
visitas freqüentes de profissionais
de saúde da equipe de tratamento.
Deve ser propiciado ao paciente e à
família o acesso facilitado a níveis
mais intensivos de cuidados (serviço
de emergência, internação)
em casos de evolução desfavorável
do quadro.
Abordagem
não-farmacológica:
- A orientação
da família deve ter ênfase
especial em questões relacionadas
à orientação têmporo-espacial
e pessoal, níveis de consciência,
tremores e sudorese;
- Propiciar
ambiente calmo, confortável e
com pouca estimulação
audiovisual;
- A dieta
é leve, desde que tolerada, com
atenção especial à
hidratação;
- Visitas
devem ser restritas, assim como a circulação
do paciente.
Abordagem
farmacológica:
- Reposição
vitamínica: a mesma recomendada
para o tratamento ambulatorial;
- Benzodiazepínicos
(BDZs): a prescrição deve
ser baseada em sintomas. Dessa forma,
as doses recomendadas são as
médias que o paciente pode atingir
num determinado dia; o paciente e os
familiares devem ser informados a respeito
dos sintomas a serem monitorados e orientados
sobre a conveniência de utilizar
a maior dosagem da medicação
à noite. Deve-se ressaltar que
a dose adequada é aquela que
diminui os sintomas da abstinência,
e que, portanto, em algumas situações,
doses muito maiores do que esta recomendada
podem ser indicadas. Diazepam: 40 mg
via oral (VO) por dia, com retirada
gradual ao longo de uma semana; ou Clordiazepóxido:
200mg VO por dia, com retirada gradual
ao longo de uma semana. Nos casos de
hepatopatias graves: Lorazepam: 8mg
VO por dia, com retirada gradual em
uma semana.
Na
recaída ou ou evolução
desfavorável, está indicado
o tratamento hospitalar.
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