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.1. Avaliação
da síndrome de abstinência do álcool
(SAA)
5.1.1.
Anamnese
Uma
história completa sobre o paciente, levando
em conta suas várias dimensões,
deve ser recolhida, com o objetivo de avaliar
o paciente como um todo. Não existem sinais
ou sintomas patognomônicos da SAA. Ela é
uma síndrome e, portanto, todas as condições
clínicas associadas e os diagnósticos
diferenciais deverão ser buscados nessa
etapa inicial. A maior parte das complicações
associadas à SAA ocorrem devido a uma avaliação
inadequada. Um paciente com SAA quase sempre tem
alguma outra intercorrência clínica
associada.
5.1.2.
História do uso de álcool
Deve-se
buscar informações básicas
sobre o padrão de consumo dos últimos
anos, avaliando a quantidade e a freqüência
do beber. Além disso, o padrão de
consumo mais recente deve ser cuidadosamente investigado,
em especial o último consumo ou diminuição
dele (ver sinais e sintomas da SAA). O diagnóstico
pelo CID-10 de uso nocivo ou dependência
do álcool deve ser buscado.
A
partir do diagnóstico da SAA, dois tipos
de avaliações mais pormenorizadas
deverão ser as próximas etapas:
o diagnóstico da gravidade da SAA e o diagnóstico
de eventuais comorbidades clínicas e/ou
psiquiátricas. Levando em consideração
sua complexidade, classificou-se o comprometimento
do usuário em dois níveis: leve/moderado
e grave. Essa categorização referendará
o paciente para o melhor tratamento, de acordo
com a disponibilidade da rede de serviços
de saúde de cada local e de seu sistema
familiar/social.
Considerou-se
nesse consenso, para a determinação
dos níveis de comprometimento do indivíduo
pelo álcool, aspectos biológicos,
psicológicos e sociais decorrentes do uso
da substância. Os aspectos comórbidos
também foram considerados, pois influenciam
diretamente a SAA. Essa visão biopsicossocial
da síndrome de abstinência decorre
do próprio conceito de síndrome
de dependência e permite um diagnóstico
mais amplo e adequado.16 O encaminhamento para
o tratamento subseqüente será realizado,
ajustando-se o tipo de intervenção
às necessidades de cada paciente, aplicando-se,
assim, o pareamento.17
Levando
em consideração a complexidade do
diagnóstico, é possível classificar
o comprometimento do usuário crônico
de álcool em dois níveis: leve/moderado
e grave. A partir dessa classificação,
o paciente será encaminhado para o melhor
tratamento, de acordo, também, com a disponibilidade
da rede de serviços de saúde de
cada local. O paciente poderá apresentar
um comprometimento em:
Nível
I – Quando o comprometimento é
leve/moderado e, portanto, apresenta uma síndrome
de abstinência leve/moderada, compreendendo
os seguintes aspectos:
- Biológicos:
leve agitação psicomotora; tremores
finos de extremidades; sudorese facial discreta;
episódios de cefaléia; náuseas
sem vômitos; sensibilidade visual, sem
alteração da percepção
auditiva e tátil.
- Psicológicos:
o contato com o profissional de saúde
está íntegro; o paciente encontra-se
orientado temporoespacialmente; o juízo
crítico da realidade está mantido;
apresenta uma ansiedade leve; sem relato de
episódio de violência auto ou
heterodirigida.
- Sociais: mora
com familiares ou amigos e essa convivência
está regular ou boa; sua atividade
produtiva vem sendo desenvolvida, mesmo que
atualmente esteja desempregado/afastado, a
rede social está mantida.
- Comórbidos:
sem complicações e/ou comorbidades
clínicas e/ou psiquiátricas
graves detectadas ao exame clínico-psiquiátrico
geral.
Para
os pacientes classificados como nível I
a intervenção deverá ser
psicoeducacional e clínica, isso é,
o paciente deve ser informado com clareza sobre
o diagnóstico, recebendo orientações
sobre a dependência do álcool e sobre
a síndrome de abstinência, além
de tratamento específico para a fase de
privação aguda de acordo com a necessidade.
O encaminhamento será direcionado para
o tratamento ambulatorial especializado, com ou
sem desintoxicação domiciliar.18
Nível
II
– Quando o comprometimento é grave
e, portanto, apresenta uma síndrome de
abstinência grave com os seguintes aspectos:
- Biológicos:
agitação psicomotora intensa;
tremores generalizados; sudorese profusa;
cefaléia; náuseas com vômitos;
sensibilidade visual intensa; quadros epiletiformes
agudos ou relatados na história pregressa.
- Psicológicos:
o contato com o profissional de saúde
está prejudicado; o paciente encontra-se
desorientado temporoespacialmente; o juízo
crítico da realidade está comprometido;
apresenta-se com uma ansiedade intensa; refere
história de violência auto ou
heterodirigida; o pensamento está descontínuo,
rápido e de conteúdo desagradável
e delirante; observam-se alucinações
auditivas, táteis ou visuais.
- Sociais: o
relacionamento com familiares ou amigos está
ruim; tem estado desempregado, sem desenvolver
qualquer atividade produtiva; a rede social
de apoio é inexistente ou restrita
ao ritual de uso do álcool; não
possui familiares auxiliando no tratamento.
- Comórbidos:
com complicações e/ou comorbidades
clínicas e/ou psiquiátricas
graves detectadas ao exame geral.
Para
os pacientes nível II, a emergência
clínica-psiquiátrica será
a melhor intervenção, solicitando-se
a presença imediata de familiares ou amigos
para orientação quanto à
gravidade do quadro. O paciente será encaminhado
para tratamento hospitalar especializado, sendo
que a família deverá receber uma
intervenção psicoeducacional sobre
o transtorno, concomitantemente.
A
Figura 4 sintetiza os níveis de gravidade
da SAA. |