Consenso
sobre a Síndrome de Abstinência do
Álcool (SAA)
e o seu tratamento
Rev.
Bras. Psiquiatr. vol.22 n.2 São Paulo June
2000.
Ronaldo
Laranjeira (SP), Sérgio Nicastri (SP),
Cláudio
Jerônimo (SP), Ana C Marques (SP) e equipe.
Departamento
de Dependência Química da
Associação
Brasileira de Psiquiatria.
Apresentação
O corpo do conhecimento
médico vem crescendo exponencialmente ao
longo das últimas décadas, o que
torna a boa prática da medicina um exercício
cada vez mais difícil devido à constante
necessidade de avaliar o que vale a pena continuar
fazendo para o bem de nossos pacientes. Várias
novas idéias surgiram com o objetivo de
ajudar a organizar o conhecimento médico:
"medicina baseada em evidências",
"revisão sistemática da literatura",
"educação médica continuada".
Além disso, os meios eletrônicos
facilitaram muito o acesso à informação,
criando a sensação de que existe
um mundo de novas informações e
que o médico não tem tempo para
atualizar-se.
No entanto, nenhum
profissional isoladamente consegue fazer uma revisão
consistente da literatura de todos os assuntos
da sua prática clínica devido à
dificuldade de tempo e muitas vezes de conhecimento.
Nesse sentido, as associações médicas
têm um papel fundamental em auxiliar seus
afiliados com revisões sistemáticas
da literatura que auxiliem o clínico a
organizar-se frente a essa avalanche de informações.
Nos últimos anos temos vistos vários
consensos surgirem na literatura internacional.
No nosso meio, recentemente a Associação
Médica Brasileira (AMB) considerou a criação
de consensos como uma das suas mais importantes
metas para a nova gestão.
O Departamento
de Dependência Química da Associação
Brasileira de Psiquiatria optou por começar
pela Síndrome de Abstinência do Álcool,
pois considerou-se que é um assunto no
qual na prática clínica ainda não
existe uma homogeneidade de procedimentos aqui
no Brasil, muito embora a literatura internacional
aponte para uma quase unanimidade sobre o que
fazer e principalmente sobre o que não
fazer.
Devido à
falta de experiência sobre esse tipo de
atividades tentamos ser o mais cuidadosos possível
e para tanto adotamos a seguinte estratégia:
em primeiro lugar foram identificados os profissionais
com maior experiência clínica e científica
em dependência química. Tentou-se
buscar a melhor distribuição possível
entre as diferentes regiões do Brasil.
Foi feita uma revisão da literatura por
meio da Medline e pedido para que alguns dos participantes
fizessem um resumo crítico de algumas partes
do consenso. Durante um final de semana inteiro
esses profissionais reuniram-se e discutiram a
melhor forma de produzir o consenso. Após
extensa discussão foi formada uma comissão
encarregada de fazer o texto final. Esse texto
foi enviado para cada um dos participantes para
a aprovação final.
O objetivo agora,
após a publicação na Revista
Brasileira de Psiquiatria, é divulgar esse
consenso o máximo possível. Temos
a intenção de que esse texto possa
estar a disposição de todos os clínicos
brasileiros que tenham a possibilidade de tratar
alguém com a síndrome de abstinência
do álcool.
Ronaldo Laranjeira
Coordenador do consenso
1.
Introdução
Pessoas que bebem
de forma excessiva, quando diminuem o consumo
ou se abstêm completamente, podem apresentar
um conjunto de sintomas e sinais, denominados
Síndrome de Abstinência do Álcool
(SAA). Alguns sintomas, como tremores, são
típicos da SAA. Entretanto, muitos outros
sintomas e sinais físicos e psicológicos
considerados como parte da SAA são insidiosos,
pouco específicos, o que torna o seu reconhecimento
e a sua avaliação processos complexos,
muito mais do que possa ser pensado num primeiro
momento.
Uma série
de fatores influenciam o aparecimento e a evolução
dessa síndrome, entre eles: a vulnerabilidade
genética, o gênero, o padrão
de consumo de álcool, as características
individuais biológicas e psicológicas
e os fatores socioculturais. Os sintomas e sinais
variam também quanto à intensidade
e à gravidade, podendo aparecer após
uma redução parcial ou total da
dose usualmente utilizada, voluntária ou
não, como, por exemplo, em indivíduos
que são hospitalizados para tratamento
clínico ou cirúrgico. Os sinais
e sintomas mais comuns da SAA são: agitação,
ansiedade, alterações de humor (irritabilidade,
disforia), tremores, náuseas, vômitos,
taquicardia, hipertensão arterial, entre
outros. Ocorrem complicações como:
alucinações, o Delirium Tremens
(DT) e convulsões.
Este consenso visa
orientar o profissional de saúde na avaliação,
diagnóstico e tratamento da SAA e também
das complicações clínicas
e psiquiátricas associadas. O manejo da
SAA é o primeiro passo no tratamento da
dependência do álcool e representa
um momento privilegiado para motivar o paciente
a permanecer em seguimento.
2.
Bases biológicas
As dificuldades
em estabelecer um tratamento farmacológico
mais eficaz para a SAA estão ligadas a
um, ainda incompleto, entendimento do funcionamento
dos neurotransmissores ligados à dependência
e à síndrome de abstinência
do álcool. O aumento da eficácia
e da resposta terapêutica de novas drogas
está diretamente relacionado à compreensão
dos mecanismos de ação do etanol
e dos seus efeitos nos diferentes sistemas de
neurotransmissão que ocorrem no sistema
nervoso central (SNC). O que se conhece dos sintomas
da SAA tem sido explicado pelo fenômeno
de neuroadaptação que ocorre no
SNC, quando há exposição
crônica ao etanol. Tais mecanismos e a associação
com as manifestações neurofisiológicas
serão descritos a seguir.
2.1.
SAA e monoaminas
Os sintomas e sinais
da SAA estão relacionados à alteração
nos níveis de liberação de
noradrenalina e dopamina. A hiperestimulação
adrenérgica, que pode ser intensa na SAA,
deve-se a uma redução da atividade
de adrenoreceptores inibitórios pré-sinápticos
do subtipo a2,1 um fenômeno conhecido como
down–regulation.
A hiperatividade
de receptores NMDA (N–Metil–D–Aspartato)
também está relacionada ao aumento
da liberação noradrenérgica
no locus ceruleus de ratos, observada após
a retirada do álcool.2 Alguns trabalhos
demonstram que a liberação de dopamina,
durante a SAA, apresenta queda a níveis
inferiores aos observados no período anterior
à exposição crônica
ao álcool, por cessação do
disparo dopaminérgico na área tegmental
ventral.3,4 Esses efeitos são responsáveis
por um grande número de reações
fisiológicas, tais como:5,6
- taquicardia
por ativação de receptores beta-adrenérgicos;
- hipertensão
por ativação de vias alfa-adrenérgicas;
- aumento da força
de contração do músculo
cardíaco por ação adrenérgica
inotrópica positiva;
- náuseas
e vômitos devido à redução
do esvaziamento gástrico;
- piloereção;
- midríase;
- tremores pela
facilitação da neurotransmissão
muscular;
- aumento do consumo
de oxigênio;
- aumento da temperatura
corporal em até 2oC.
2.
2. SAA e aminoácidos neurotransmissores
O etanol atua como
um antagonista dos receptores NMDA (N-Metil–D-Aspartato),
um receptor do tipo excitatório do SNC.7,8
O consumo crônico de bebidas alcoólicas
provoca um aumento da densidade desses receptores.9
Estudos em animais têm demonstrado que esse
aumento persiste por cerca de 36 horas após
a retirada do etanol, período que coincide
com o aparecimento das crises convulsivas, fenômeno
neurotóxico relacionado à hiperatividade
glutamatérgica.
Na SAA há
uma hipoatividade GABAérgica. Os receptores
GABAA têm uma atividade inibitória
e, a medida que deixam de exercer sua atividade
durante a SAA, há uma estimulação
do SNC. Essa hipoatividade é funcional,
uma vez que, diferentemente do que ocorre com
os receptores NMDA, não há evidências
de alteração no número de
receptores GABAA durante a exposição
crônica ao álcool.10,11 Há
uma redução da densidade de mRNA
relacionada ao local de ação dos
benzodiazepínicos e do etanol.
2.
3. SAA e canais de cálcio
Com a exposição
crônica ao etanol, há uma alteração
nos canais de cálcio do tipo L, um dos
vários canais de cálcio mais conhecidos.
A ação do cálcio nos terminais
nervosos é fundamental para a liberação
dos neurotransmissores na fenda sináptica.
Diversos estudos têm demonstrado que a administração
crônica de etanol leva a uma redução
na atividade dos canais de cálcio do tipo
L, reduzindo a atividade elétrica dentro
do neurônio e, assim, reduzindo a ação
de neurotransmissores.12
As alterações
na neurotransmissão e os sintomas correspondentes
a cada neurotransmissor envolvido na SAA estão
representados na Figura 1. |