FARMACOLOGIA
DO SONO I
Dalva Poyares (médica da UNIFESP),
Walter André dos Santos, Luciana Palombini
Este
capítulo tem por objetivo oferecer ao leitor
uma visão geral das interações
entre as diversas substâncias químicas
envolvidas de algum modo no sono e na vigília,
mas também de introduzir as classes de
medicamentos mais comumente utilizados no tratamento
dos distúrbios do sono e seus efeitos.
Na segunda parte desse capítulo, alguma
atenção também é dada
à questão das interações
medicamentosas e efeitos colaterais de tais medicamentos.
Conceitos
gerais
As
drogas psicoativas podem influenciar os estados
de sono e vigília. Muitas delas têm
sido usadas em estudos em animais e seres humanos
com o objetivo de entender melhor os mecanismos
do sono e da vigília. O melhor conhecimento
desses mecanismos é necessário a
fim de se obter progressos no tratamento dos distúrbios
do sono. Psicofármacos são, portanto,
drogas que atuam no SNC (sistema nervoso central)
e são usadas terapeuticamente para modular
as ações dos neurotransmissores
e de alguns peponídeos. Uma complexa combinação
de efeitos (desejados e não desejados,
ou colaterais) pode decorrer da ingestão
de uma determinada droga. Isto ocorre porque os
sistemas de neurotransmissão não
são independentes entre si, eles podem
influenciar uns aos outros através de conexões
interneuronais. Eventuais ações
periféricas de neurotransmissores ou de
determinados medicamentos não serão
detalhadamente descritas nesse capítulo.
Os
receptores de membrana dos neurônios são
glicoproteínas que contém sítios
específicos de reconhecimento e ligação
para diferentes neurotransmissores. Esses receptores
são geralmente caracterizados por sua afinidade
na ligação com diferentes agonistas
e antagonistas ou por seus efeitos eletrofisiológicos
ou bioquímicos decorrentes da ativação
de seus neurônios alvos [Hardman & Limbird,
1996]. Abordagens experimentais em farmacologia
acessam os efeitos da ligação de
determinadas drogas ou da produção
do segundo mensageiro para um determinado grupo
de células. Os auto-receptores regulam
a liberação e "turnover"
dos neurotransmissores. Os receptores podem sofrer
alteração na sua regulação
("up" ou "down") de acordo
com a presença ou ausência do seu
ligante específico, que no caso pode se
tratar de um medicamento.
Os neurotransmissores são substâncias
químicas liberadas pelos terminais pré-sinápticos
que transmitem informações de um
neurônio a outro alterando a atividade da
célula pós-sináptica. Esse
processo é chamado neurotransmissão
e pode envolver sistemas excitatórios e
inibitórios, um exemplo clássico
é o GABA (ácido gama amino-butírico)
e o glutamato. O primeiro é inibitório
e participa nos mecanismos de ação
da maioria dos depressores do SNC. Já os
neuromoduladores podem influenciar a atividade
neuronal diferentemente dos neurotransmissores.
E, por fim, os neuromediadores que podem participar
na produção da resposta pós-sináptica
a um determinado transmissor como o AMPc, GMPc
e o inositol fosfato, usualmente chamados de segundo
mensageiros. Um terceiro mecanismo proposto é
aquele que envolve o C-Fos. C-Fos é um
gene imediato no núcleo da célula.
Principais neurotransmissores e substâncias
envolvidas nos mecanismos do sono e da vigília.
Vigília
A
vigília é mantida através
da ativação tônica de neurônios
da formação reticular no tronco
cerebral com projeções para o tálamo,
hipotálamo, prosencéfalo basal (PB)
e córtex cerebral [Jones & Yang, 1985;
Jones, 2000; Berrodge & Foote, 1996; Dahlstrom
& Fuxe, 1964]. Interessantemente, observa-se
uma sobreposição entre os centros
envolvidos no ciclo sono/vigília e aqueles
envolvidos na regulação autonômica
[Jones, 2000].
Os principais sistemas de neurotransmissão
envolvidos na vigília são: dopaminérgico,
noradrenérgico, histaminérgico,
colinérgico e glutamatérgico (Tabela
1).
Tabela
1: Principais substâncias possivelmente
envolvidas no alerta
| Neurotransmissores
e
principais receptores |
Aminoácidos |
Outros |
| Dopamina:
D1 - D2 (?) |
Glutamato |
Substância
P |
| Noradrenalina:
alfa e beta |
Aspartato |
Peptídeo
vasointestinal |
| Acetilcolina:
M2, não M1 (?) |
|
Neurotensina |
| Histamina:
H1 |
|
|
Dopamina
Neurônios
ricos em dopamina são encontrados na substância
negra, área ventro-tegmental e córtex
frontal, vias dopaminérgicas no cérebro
têm sido descritas na literatura. Por participar
da promoção da vigília, a
DA está intimamente relacionada ao efeito
farmacológico dos principais estimulantes.
(ver adiante em estimulantes). Os principais subtipos
de receptores dopaminérgicos são:
D1, principalmente excitatório, e D2 principalmente
inibitório. Entretanto, pelo menos três
outros subtipos já foram identificados.
D1 está relacionado a aumento de vigília
e redução de sono REM, enquanto
que os efeitos atribuídos à estimulação
de D2 são menos claros. Por exemplo, a
apomorfina, um agonista DA, é capaz de
promover vigília, dose dependente [Warnbebe,
1986; Wauquier, 1983]. Já o pimozida, antagonista
DA, induz sedação [Nicholson &
Pacoe, 1990]. Também foi demonstrado que
a privação do sono REM é
capaz de induzir supersensibilidade ("upregulation")
dopaminérgica [Tufik et al, 1978]. Um possível
papel da DA no sono REM também deve ser
considerado.
Noradrenalina
Noradrenalina
(NA) também está relacionada a promoção
do estado de vigília. Neurônios ricos
em NA estão localizados principalmente
no Locus Coeruleus e no núcleo tegmental
lateral. O principal mecanismo básico através
do qual a NA promove vigília é através
da inibição dos neurônios
ativos no sono e excitação de neurônios
ativos na vigília [Aston-Jones & Bloom,
1981; Berridge & Foote, 1996; Dahlsrom &
Fuxe, 1964; Jones, 2000] . Portanto, os neurônios
NA são mais ativos durante a vigília
e diminuem sua atividade durante o NREM e estão
praticamente silentes durante o sono REM. Três
principais subtipos de receptores NA podem ser
encontrados: alfa-1, alfa-2 e beta. Da interação
entre os receptores alfa e beta decorrem os efeitos
de manutenção do ciclo vigília/sono.
Por exemplo, a fenoxibenzamina, um antagonista
alfa-1, aumenta vigília e diminui o sono
REM. Já o agonista alfa-2, a clonidina,
pode produzir sonolência, entretanto, os
efeitos da clonidina podem variar de acordo com
a região do SNC onde a droga foi injetada,
desde sonolência até redução
de sono. Um beta-bloqueador pode aumentar vigília
e diminuir sono REM podendo também levar
a insônia e pesadelos, como será
mencionado na segunda parte desse capítulo.
Por fim, o antagonista alfa-2, a yoimbina, é
capaz de diminuir o sono[Ramesh & Kumar, 1998].
A ação decorrente da ligação
a esses receptores, especialmente alfa-1 é
portanto complexa, desse modo, estes efeitos citados
acima, de maneira isolada, são apenas para
fins didáticos.
Histamina
O
conhecimento do envolvimento da histamina na vigília
é um pouco mais recente. Neurônios
histaminérgicos estão predominantemente
localizados no hipotálamo caudal e vias
ascendentes do hipotálamo posterior [Monnier
et al, 1970]. Já os neurônios localizados
na área pré-óptica ventrolateral
e hipotálamo anterior, podem inibir as
vias histaminérgicas levando a geração
do sono NREM. A histamina tem efeitos claros durante
a vigília, entretanto seus efeitos no sono
são limitados.
Acetilcolina
Os
neurônios colinérgicos estão
predominantemente localizados na formação
reticular e prosencéfalo basal. A acetilcolina
(AC) também pode ser liberada do córtex
cerebral e hipocampo quando ativados, principalmente
na vigília e no sono REM. Os receptores
colinérgicos muscarínicos M2 parecem
ser os mais envolvidos na regulação
do sono e da vigília [Jouvet, 1972; Jones,
2000]. Entretanto, a estimulação
dos receptores colinérgicos nicotínicos
induzidos pelo tabaco, por exemplo, pode levar
ao prolongamento da latência para o sono.
Adicionalmente, a suspensão do estimulo
nicotínico pode levar a fragmentação
do sono.
A redução da atividade colinérgica
cortical ou a administração do antagonista
colinérgico são capazes de sincronizar
o eletroencefalograma (EEG), alteração
notada relacionada a transição para
o sono NREM. Os neurônios colinérgicos
no PB podem interagir com neurônios GABAérgicos
na regulação da vigília/sono
[Berridge & Foote, 1996].
Aminoácidos excitatórios
Evidências também sugerem que alguns
aminoácidos excitatórios estão
envolvidos na geração da vigília,
entre eles o glutamato (neurônios da formação
reticular ascendente) e aspartato. Por fim, algumas
substâncias encontradas no sistema nervoso
também podem promover a vigília,
como a substância P, o peptídeo vasointestinal
e a neurotensina, que até aumenta freqüências
muito rápidas no eletroencefalograma como
a gama. O peptídeo vasointestinal também
parece estar envolvido nos mecanismos do sono
REM [Kruisbrink et al., 1987]. O papel dessas
substâncias na promoção da
vigília ainda não é muito
claro. Desse modo, como resumido na tabela 1,
estes são os neurotransmissores que participam
ativamente dos mecanismos geradores da vigília
em determinadas regiões do cérebro.
Foram brevemente citados alguns dos mecanismos
envolvidos na promoção e manutenção
do estado de vigília, entretanto, os mecanismos
envolvidos nos despertares e despertares breves
durante o sono são mais específicos,
envolvem diversos outros fatores e portanto não
fazem parte do objetivo desse capítulo.
Sono
NREM
As
áreas anatômicas mais envolvidas
na geração do sono NREM são:
tronco cerebral caudal, hipotálamo anterior,
área pré-optica e PB [Jones, 2000].
Os mecanismos de geração de sono
e regulação de temperatura são
relacionados anatomicamente e quimicamente no
hipotálamo anterior, área pré-óptica
[McGinty, 1990]. A tabela 2 resume os principais
sistemas de envolvidos no sono NREM.
Tabela
2 - Principais sistemas possivelmente envolvidos
no sono NREM
| Neurotransmissores |
Fatores
circulantes |
Substâncias
promotoras do sono |
| GABA |
Peptídeo
indutor do sono delta |
Muramil
peptídeos |
| Adenosina |
|
Interleucinas |
| Serotonina
|
|
Argina
vasocitocina
Prostaglandinas
Uridina
Substância
promotora do sono B
Melatonina |
O
GABA e os receptores GABA-a
O
ácido gama amino-butírico (GABA)
foi descoberto em 1950 e representa o mais importante
sistema inibitório de neurotransmissão
no SNC. O GABA e seus receptores não estão
somente envolvidos em inúmeros outros processos,
mas também na geração do
sono NREM e no mecanismo de ação
dos hipnóticos. Desse modo um pouco mais
de detalhes será dispensado neste capítulo
a esse sistema de neurotransmissão.
O principal agonista destes receptores que recebe
o seu nome e, portanto, o GABA que media a maior
parte dos processos inibitórios no SNC.
Existem três tipos de receptores GABA até
então descritos: GABA a, b, c. O GABA-a
está envolvido nas ações
dos benzodiazepínicos (BZDs) [Mendelson
& Canin, 1983] e barbitúricos. Entretanto,
questões permanecem a respeito do papel
dos receptores periféricos BZDs, a respeito
dos possíveis efeitos periféricos
dos BZDs, mencionados adiante na seção
de BZDs. A maioria dos neurônios no SNC
está sob influência do GABA e pode
apresentar sítios de ligação
GABAérgicos [para revisão, Kales,
1995].
Em 1975 houve a primeira descrição
relacionando o mecanismo de ação
dos BZDs ao GABA [Costa et al, 1975]. Dois anos
mais tarde foram identificados os sítios
de ligação dos BZDs no cérebro
de mamíferos. Nesta época, uma correlação
forte entre distribuição regional
de GABA e receptores BZDs foi demonstrada [Placheta
& Karobath, 1979]. Esse receptor foi também
chamado de GABA-a BZD. Desse modo, estudaremos
melhor as ações relacionadas ao
receptor GABA-a, uma vez que está envolvido
nas ações dos principais sedativo-hipnóticos.
Esse é um receptor iônico. A distribuição
espacial de suas sub-unidades constitui o canal
de Cloro. Canais de cálcio e potássio
também são encontrados neste receptor.
O efeito inibitório pode ocorrer pré
ou pós-sinapticamente. O receptor GABA-a
tem estrutura pentamérica que inclui 5
sub-unidades, melhor descritas são as
alfa, beta, gama. Entretanto estão
atualmente identificadas pelo menos 6 sub-unidades
alfa, 3-beta, 3-gama, entre outras,
cujas combinações podem constituir
potencialmente milhares de diferentes sub-tipos
de receptores GABA-a. A sub-unidade alfa
determina a ligação do BZD. Alfa-1
tem distribuição difusa no cérebro;
alfa-6 é somente encontrado no cerebelo
(provavelmente mais envolvido em coordenação);
alfa-2 e alfa-4 no hipocampo (provavelmente mais
envolvidos nos processos de memória); e
alfa-5 é freqüentemente visto no córtex
e hipocampo e ausente no resto das áreas
cerebrais. Este último deve ter papel em
epilepsia e algumas outras desordens neurológicas.
Alfa-4 e 6 não ligam BZDs.
Os principais ligantes dos receptores GABA-a BZD
são: GABA, BZDs, barbituratos, corticosteróides,
e picrotoxina [Hardman & Limbird, 1996]. A
tabela 3 mostra os principais agonistas e antagonistas
do receptor GABA-a BZD.
Tabela
3: Principais ligantes dos receptores GABA-a BZD
| Agonistas |
GABA,
BZDs (total ou parcial), barbitúricos |
| Agonistas
inversos |
Betacarbolinas |
| Antagonistas |
Flumazenil |
Algumas
características gerais dos receptores GABA-a
são as seguintes:
1) dois subtipos de receptores GABA-a BZD estão
claramente envolvidos nas ações
dos BZDs, BZD1 ou ômega-1
e BZD2 ou ômega-2;
2) os agonistas aumentam a condutância do
cloro;
3) a ligação do BZD aumenta a freqüência
de abertura dos canais de cloro e potencializa
o GABA;
4) diferentemente dos BZDs, os barbitúricos
podem ativar diretamente os canais de Cloro e
5) barbitúricos e GABA aumentam a afinidade
dos BZDs e vice-versa sugerindo interação
alostérica entre eles.
Serotonina
A
serotonina (5-HT) também tem sido motivo
de muitos estudos e seu papel no sono NREM ainda
não está claro o suficiente [Imeri
et al., 2000]. Um exemplo mais conhecido é
o de que o L-triptófano, um precursor da
5-HT, aumenta sono NREM e reduz a latência
para o sono [Hartmann, 1977]. Os receptores 5-HT
são principalmente os tipos 1, 2 e 3. Vários
subtipos estão também descritos.
Como a 5-HT participa da geração
do sono NREM, era de se esperar que seu antagonista
o PCPA, produza insônia, ainda que temporária.
Uma concepção moderna assume que
a 5-HT liberada como neurotransmissor durante
a vigília pode atuar como neuro-hormônio
e induzir síntese ou liberação
de fatores hipnogênicos, exercendo um papel
em ambos, sono NREM e sono REM [Jouvet et al.,
1986; Inoue, 1986].
Adenosina
Muita
atenção tem sido dada a Adenosina
(AD), que é formada por uma base purina
e ribose. A AD tem propriedades sedativas e hipnóticas,
e pode também, ter um efeito inibitório
na liberação de outros neurotransmissores
como um neuromodulador. Um dado muito interessante
é que o acúmulo de AD no PB está
relacionado ao início de sono após
vigília prolongada [Basher et al, 1999].
A principal hipótese é que durante
o sono ocorre a refosforilação da
AD que restauraria o nível dos componentes
"energéticos" no cérebro.
A AD pode portanto, ser a responsável pela
demanda de sono após uma vigília
prolongada. A AD também inibe os neurônios
colinérgicos no PB que promovem o despertar
cortical. Os receptores tipo A1 estão difusamente
distribuídos no cérebro e sua estimulação
diminui a adenilato ciclase, já os A2 aumentam
a adenilato ciclase [Porkka-Heiskanen, 1999].
O principal antagonista é
a cafeína que aumenta, alerta e diminui
o sono, principalmente NREM reduzindo a
latência para o REM.
Fatores circulantes
Como resultado de mais estudos experimentais,
notou-se que alguns Fatores Circulantes também
participam da gênese do sono. Esses fatores
indutores do sono, as "hipnotoxinas"
se acumulam durante a vigília, promovendo
desse modo o sono, em animais experimentais [Inoue,
1986; Jouvet et al., 1986; Legendre & Pieron,
1910]. A substância indutora do sono delta
(SISD) aumenta o tempo total de sono (TST) em
seres humanos. A SISD aumenta a temperatura corporal,
diminui a pressão arterial, e diminui a
atividade locomotora em animais. Ela pode diminuir
a capacidade de induzir propensão ao sono
(início de sono) de acordo com o horário
circadiano, sugerindo que a iniciação
do sono influencia os níveis de SISD. Evidências
apontam para o fato de que SISD pode ser útil
para o tratamento da insônia.
Outras
substâncias promotoras de sono são
a Uridina e a substância promotora do sono
B (SPS-B). A SPS-B tem efeito sedativo. Já
a infusão noturna em camundongos de uridina
aumenta a ocorrência de sono NREM e sono
REM [Nagasaki et al., 1980] Interessantemente,
a infusão diurna de uridina não
é capaz de afetar os padrões de
sono, porém diminui a atividade locomotora.
Os peptídeos Muramil (MPs) são componentes
das paredes das células de determinadas
bactérias. Eles são pirogênicos
e têm efeito imuno-estimulante, além
de induzirem o sono e aumentarem a imuno-reatividade,
sugerindo que eles tenham uma provável
função recuperativa. O Fator S que
é obtido do líquido cefalorraquidiano
(LCR) em animais privados de sono é identificado
como um tetrapeptídeo muramil e possui
efeito promotor do sono.
Do mesmo modo, a Interleucina 1 que está
envolvida em processos de defesa do hospedeiro
e também tem atividade pirogênica,
aumenta sono. Esse aumento do sono é dose-dependente
e não está relacionado ao aumento
da temperatura corporal.
Em
resumo, existem varias evidências sugerindo
uma interação forte entre o sistema
imunológico e o controle do sono [Krueger
et al., 1987; Lin et al, 1999]:
1) várias substâncias têm função
em comum entre o sistema imune e o SNC, influenciando
ambos, o sono e o sistema imunológico;
2) em cães narcolépticos, o gene
recentemente isolado é análogo ao
gene da imunoglobulina no homem;
3) privação de sono reduz atividade
das células "natural killer"
em controles normais.
Por fim, citaremos a Arginina vasotocina (AVT)
e as Prostaglandinas (PGs). A AVT inibe a liberação
de gonadotrofina, e possivelmente aumenta sono
NREM [Pavel et al, 1977]. Com relação
as PGs, dois tipos diferentes, a PGD2 e PGE2 interagem
reciprocamente para influenciar o sono. A primeira
aumenta o TTS e a segunda diminui. O diclofenaco
de sódio que inibe PG e inibe sono, sendo
consistente com o conceito de que PGD2 pode estar
envolvida na indução fisiológica
do sono [Sri Kantha et al, 1994]. Interessantemente,
esta mesma substância também é
capaz de reverter o aumento de temperatura em
ratos, ocasionado pela privação
de sono REM [Seabra & Tufik, 1993].
A melatonina tem sido foco de muitos debates e
sua exploração na prática
clínica tem ocorrido nos últimos
anos, entretanto, regras para seu uso terapêutico
ainda são assunto de muitos estudos. A
melatonina é o principal hormônio
da glândula pineal dos mamíferos.
Sua síntese e liberação ocorrem
no período de escuro. O pico da melatonina
segue um padrão circadiano ocorrendo antes
dos períodos de maior propensão
ao sono. Também é conhecido o fato
de que essa substância pode estar alterada
nos distúrbio sazonais do humor, depressão
maior e distúrbio pré-menstrual.
A melatonina é capaz de promover o sono.
Sono
REM
O
sono REM parece ser muito importante para o metabolismo
cerebral [Benington & Heller, 1995], uma vez
que durante este estágio do sono o cérebro
aumenta sua "atividade" independentemente
dos estímulos externos e também
não manifesta resposta motora a ativação
do SNC.
A ponte e o mesencéfalo basal são
as regiões mais envolvidas na geração
do sono REM [Jouvet, 1986]. Na ponte estão
localizadas as células colinérgicas,
no grupo de células do tegmento dorso lateral
e núcleo pedúnculo pontino, que
são mais ativas antes e durante o sono
REM. Neurônios NA e 5-HT localizados no
Locus Coeruleus e na rafe dorsal podem inibir
os neurônios colinérgicos [Jones,
1991]. Desse modo, estão praticamente inativos
durante o sono REM, caracterizando seu papel facilitador
desse estado do sono. A interação
entre a Ach, NA e 5-HT é muito importante
na geração e manutenção
do sono REM [Sakai, 1990; Sakai & Koyama,
1996; Shiromani et al, 1987; Siegel, 2000]. Além
disso, é possível também,
que muitas dessas células geradoras do
sono REM utilizem aminoácidos como neurotransmissores
tais como a glicina, GABA e até mesmo alguns
peptídeos [Siegel, 2000] . Um resumo dos
principais químicos envolvidos nos mecanismos
do sono REM pode ser visto na Tabela 4.
Tabela
4: Principais substâncias envolvidas na
gênese do sono REM
| Neurotransmissores/Ação |
Aminoácidos |
Neuropeptídeos |
| Acetilcolina/promotor |
Glicina |
Hipocretina/orexina |
| Noradrenalina/Facilitador |
GABA |
|
| Seroronina/
Facilitador |
|
|
| Dopamina/? |
|
|
Os agonistas colinérgicos e antagonistas
aminérgicos são capazes de aumentar
o sono REM. De maneira inversa, agentes anticolinérgicos
podem reduzir ou bloquear o sono REM. Um dos experimentos
clássicos diz respeito à injeção
de carbacol (agonista colinérgico) na ponte
e PB, regiões anatômicas reconhecidamente
envolvidas no sono REM, obtendo como resultado
a indução do sono REM. Já
a pilocarpina, outro agonista colinérgico,
pode também facilitar o sono REM. Interessantemente,
essa parece ser uma resposta dose dependente,
na medida em que injeção dessas
mesmas substâncias nesses mesmos sítios,
podem também induzir estado de vigília.
Além disso, o estado prévio a injeção
também parece importar, isto é,
o agonista colinérgico quando injetado
durante o sono reduz latência para o REM
[para revisão ver referência Kales,
1995]. Como mencionado anteriormente na seção
sobre vigília, não somente os receptores
M2, mas também os M3 e outros "não-M1"
podem estar envolvidos nesses mecanismos. Desse
modo, os neurônios colinérgicos localizados
nas áreas acima citadas, são importantes
na indução do sono REM. Na narcolepsia-cataplexia,
um distúrbio caracterizado principalmente
por inícios súbitos de sono REM
ou de seus componentes, alteração
no sistema colinérgico constituída
por aumento da densidade de receptores muscarínicos
já foi relatada. [Nishino, 1994].
Em resumo, é importante lembrar que não
é somente o estímulo colinérgico
o único responsável pelo desencadeamento
e manutenção do sono REM. A Noradrenalina,
cujos neurônios estão contidos principalmente
no LC, e possivelmente também a serotonina
têm um papel permissivo na indução
do sono REM, uma vez que durante a transição
NREM-REM estes neurônios estão silentes.
A injeção de GABA no locus coeruleus
(LC) pode induzir sono REM. Desse modo, drogas
que diminuem a NA, são capazes de provocar
aumento do sono REM e, inversamente, drogas que
aumentam a NA, reduzem o sono REM. Evidências
em animais apontam para o fato de que a NA pode
hiperpolarizar diretamente células colinérgicas
na ponte, o que é consistente com o conceito
da interação recíproca entre
o LC e os neurônios colinérgicos
pontinos. Em cães narcolépticos,
as drogas que alteram o sistema adrenérgico,
são as mais potentes em inibir cataplexia,
a manifestação de perda de tônus
muscular súbita, um componente tônico
do sono REM.
A reserpina causa depleção de NA,
DA e 5-HT por inibir a "reentrada" desses
neurotransmissores nas vesículas das quais
eles são liberados, aumentando a quantidade
de sono REM e reduzindo a latência de aparecimento
do mesmo [Stern & Morgane, 1973; Brooks &
Gershon, 1977]. Como já mencionado anteriormente
na seção sobre vigília, os
subtipos de receptores NA mais encontrados são:
o alfa-1, cuja ativação leva a aumento
da vigília e redução do sono
REM e NREM.; o alfa-2, cujo agonista reduz pouco
o sono REM e o antagonista diminui REM em ratos,
supostamente por aumentar a liberação
de NA. Já o papel dos receptores beta são
menos claros, uma vez que os beta-bloqueadores
(propranolol) tem efeitos inconsistentes ou nenhum
no sono REM [Kryeger & Dement, 2000].
Do mesmo modo que para o sistema colinérgico,
também já se encontraram alterações
do sistema noradrenérgico (NA) em cães
narcolépticos [Aldrich et al, 1993; Kish
et al, 1992]. Essas alterações são
caracterizadas por aumento do "turnover"
de NA, bem como por aumento na densidade de receptores
alfa-2.
Os efeitos da 5-HT no sono REM são ainda
pouco claros, entretanto, os neurônios serotoninérgicos
estão silentes durante o sono REM [McGinty
et al, 1976]. Apesar de zimelidina, um inibidor
da recaptação da 5-HT , diminuir
o sono REM, esse mesmo efeito não foi encontrado
em outros inibidores da recaptação
da 5-HT, como é o caso de alguns dos novos
antidepressivos.
Entretanto, o sono REM é um estado complexo
que apresenta diferentes eventos fásicos
e tônicos, por exemplo, a AC pode estar
envolvida na dessincronização do
EEG bem como na geração das ondas
ponto-geniculo-occipital, que por sua vez podem
ser inibidas pela 5-HT. A injeção
de glutamato na ponte pode ocasionar atonia muscular
do sono REM [Siegel, 2000] Adicionalmente, o óxido
nítrico na ponte também pode aumentar
sono REM. Isso mostra que um complexo sistema
de modulação, excitação
e inibição que envolve inúmeras
substâncias químicas no cérebro
e provavelmente medula espinhal é responsável
pelo aparecimento e manutenção do
sono REM e de seus componentes tônicos e
fásicos. A ingestão de determinadas
drogas que alterem de alguma maneira esse complexo
sistema podem portanto apresentar algum efeito
na manifestação do sono REM durante
o sono, como no caso da maioria dos antidepressivos,
benzodiazepínicos, propranolol e muitos
outros fármacos mencionados adiante neste
capítulo.
Com relação aos neuropeptídeos,
é provável que a arginina vasotocina
seja capaz de bloquear o sono REM e aumentar o
NREM, já o peptídeo vasointestinal
e a somatostatina aumentam REM em animais. Dados
ainda são limitados para se chegar à
conclusão de algum papel definido desses
peptídeos no sono REM.
Por fim, citaremos a hipocretina/orexina cujas
importantes ações no sono foram
mais recentemente descobertas. Hipocretina/orexina
são neuropeptídeos hipotalâmicos.
Eles podem ser encontrados no hipotálamo
lateral e dorsal e apresentam projeções
difusas no cérebro. Estes neuropeptídeos
foram previamente conhecidos por apresentarem
um papel importante no comportamento alimentar,
provavelmente por constituir um mecanismo de defesa
contra depleção de energia. Entretanto,
evidências adicionais sugerem que eles podem
ter outras funções envolvendo o
sistema neuro-endócrino, temperatura corporal
e ciclo vigília/sono. Recentemente tem
sido demonstrado que a transmissão anormal
da hipocretina está associada a Narcolepsia.
Mutação no gene receptor 2 da hipocretina
(orexina) causa Narcolepsia [Chemelli et al, 1999;
Lin et al, 1999]. Além do mais, existem
evidências da presença de uma via
do hipotálamo lateral ao Locus Coeruleus
através da qual a hipocretina poderia influenciar
a atividade da NA. O modafinil, um estimulante
utilizado no tratamento da Narcolepsia, ativa
neurônios contendo orexina (ver seção
sobre estimulantes). Conjuntamente essas evidências
mostram que o papel da hipocretina/orexina no
sono é inquestionável.
Psicofármacos
e sono
Sedativos e hipnóticos
BZDs e outros sedativo-hipnóticos
BZDs
podem apresentar efeitos sedativos, hipnóticos,
amnésicos, anticonvulsivantes e miorelaxante.
Esses efeitos ocorrem em maior ou menor grau dependendo
do tipo de composto BZD ou devido a diferenças
em afinidade e ligação aos diferentes
receptores GABA-a BZD (referidos anteriormente
no item sobre GABA). Provavelmente por serem sedativos
e em maior ou menor grau ansiolíticos,
os BZDs que não eram primariamente classificados
como hipnóticos foram apontados como os
medicamentos mais consumidos para promover o sono
em pesquisa no estado de São Paulo [Poyares
& Tufik, 1996]. Desse modo, a tabela 5 incluirá
também BZDs que não são primariamente
hipnóticos. A Tabela 5 mostra a meia vida
de eliminação de alguns BZDs e outros
hipnóticos.
Tabela
5: Principais BZDs e não BZDs e meia vida
de eliminação em horas.
| BZDs |
½
vida aproximada (h) |
outros |
½
vida aproximada (h) |
| Midazolam* |
1.9 |
zolpidem |
1.5 |
| Triazolam
*# |
2.9 |
zolpiclone |
5.3 |
| Temazepam# |
11 |
zaleplom |
0.9 |
| Oxazepam |
8 |
|
|
| Quazepam# |
39 |
|
|
| Flurazepam |
74 |
|
|
| Diazepam |
43 |
|
|
| Lorazepam* |
14 |
|
|
| Alprazolam* |
12 |
|
|
| Clonazepam |
2.3 |
|
|
*
podem apresentar mais sintomas na retirada
# não disponíveis no Brasil até
o momento
OBS: A ½ vida de eliminação
não está necessariamente associada
a duração do efeito farmacológico
do composto!
O
primeiro BZD sintetizado foi o clordiazepóxido,
seguido pelo diazepam, poucos anos após,
mas também pelo oxazepam e nitrazepam.
Nos anos 70 apareceram o flurazepam e flunitrazepam.
Os anos 80 foram marcados pela síntese
dos compostos de meia-vida curta, entre eles o
triazolam. O temazepam foi também comercializado
neste mesmo período em outros países.
Durante os anos 90 outros compostos também
chamados "não-BZDs" foram sintetizados,
como as ciclopirrolonas (zopiclone e suriclone),
imidazopiridines (zolpidem e alpidem), zaleplom
e os imidazo-benzodiazepínicos. Alguns
exemplos de diferentes tipos e meias-vidas dos
BZDs podem ser encontrados na tabela 5. Dentre
os vários tipos de receptores GABA-a, o
BZD1 ou ômega-1 parece estar mais relacionado
ao efeito hipnótico. As características
de afinidade para o receptor BZD desses novos
compostos em relação aos BZDs são
mostrados na Tabela 6.
Tabela
6: Afinidade e seletividade dos hipnóticos
ao receptor GABAa-BZD
|
BZD
zolpidem zaleplom zopiclone |
| BZD
afinidade para o receptor |
+ |
+ |
+ |
+ |
| BZD1
ou ômega-1 seletividade |
- |
+ |
+ |
- |
Mecanismo
de ação
A
ligação dos BZDs aos receptores
GABA-a BZD aumenta o transporte do cloro nos neurônios
devido ao aumento da taxa de abertura dos canais
de cloro resultando na hiperpolarização
e aumento geral da transmissão GABA-érgica.
Entretanto, o quanto o efeito hipnótico
é conseqüência do aumento da
condutância do cloro não é
muito claro . Existem evidências de que
o efeito hipnótico dos BZDs permanece mesmo
na presença de bloqueio do ionóforo
clorídrico [Mendelson et al, 1993]. Estudos
adicionais apontam para a relevância de
um mecanismo cálcio-dependente para o efeito
hipnótico [Mendelson, 1994]. Zolpidem e
zaleplom são mais seletivos na ligação
ao receptor BZD1 ou ômega-1 que parece estar
mais correlacionado ao efeito hipnótico.
Zolpidem e Zaleplom sendo drogas hipnóticas
que alteram menos a estrutura do sono, são
bem toleradas e estão muito pouco associadas
à ocorrência de tolerância
e dependência ao uso prolongado, tem sido
as drogas de preferência no tratamento da
insônia em muitos países, mais dados
são encontrados com o zolpidem pois tem
estado no mercado há mais tempo [Dooley
& Plosker, 2000; Mitler, 2000]. Uma das diferenças
básicas entre esses dois fármacos
é principalmente a meia vida de eliminação,
ultracurta para o zaleplom e curta para o zolpidem,
como se observa na tabela 5. Ambos reduzem a latência
para o início do sono e o zolpidem pode
causar aumento adicional do TTS, induzindo a consolidação
do sono. Ambos não apresentam efeitos residuais
durante o dia.
Efeitos
dos BZDs na estrutura do sono
BZDs
são conhecidos por alterar a estrutura
do sono [Borbély et al, 1985, Gaillard
& Blois, 1988; Gaillard & Blois 1989;
Poyares, 1998], seus efeitos no sono são
principalmente os seguintes:
a) sedativo-hipnóticos são redução
da latência para o sono; aumento do TTS
e redução dos despertares durante
o sono;
b) na estrutura do sono são aumento de
estágio 2 do sono NREM, redução
do sono de ondas lentas (SOL), aumento da latência
para o sono REM, redução da densidade
de movimentos oculares rápidos no sono
REM e pouca ou nenhuma alteração
na percentagem de sono REM.
Além disso, os BZDs também alteram
o EEG durante o sono, através da redução
da atividade de delta, aumento de freqüências
rápidas, acima de 12 Hz e aumento da atividade
de sigma ou fusos BZDs (Tabela 7)
Tabela
7. BZDs , efeitos na arquitetura do sono e no
EEG
| Efeitos
na arquitetura do sono |
Efeitos
no EEG durante o sono |
| Latência
do sono |
delta
power (atividade de delta) |
| TTS |
Freqüências
rápidas no EEG, acima de 12 Hz. |
| Tempo
acordado após início do sono |
sigma
power ("fusos" BZD) |
| Latência
para o REM |
|
| Estágio
2 do sono NREM |
|
| Sono
de ondas lentas (SOL) |
|
| Pode
não alterar a percentagem total de
sono REM |
|
| Densidade
de REM |
|
O
Zolpidem e Zopiclone podem aumentar o SOL sem
entretanto alterar o sono REM ou estágio
2 do sono NREM. O Flumazenil, antagonista BZD,
pode não antagonizar todos os efeitos acima
listados o que pode sugerir que alguns desses
efeitos sejam indiretos [Gaillard & Blois,
1989].
Problemas
associados com uso crônico de BZDs
Dependência
a uma determinada substância é caracterizada
por um padrão de consumo inadequado que
pode levar a prejuízos e desconforto por
um período de tempo de um ano [American
Psychiatry Association, 1994]. A primeira descrição
de reação à retirada de um
BZD foi em 1961, mas a associação
entre uso prolongado e dependência e mais
recente, em 1991 [Murphy & Tyrer, 1991]. É
sabido que os BZDs diferem em sua capacidade de
induzir dependência, consequentemente maior
ou menor abstinência. Isto pode ocorrer
por dois mecanismos principais: o primeiro, por
liberação alterada ou metabolismo
alterado do ligante endógeno do receptor
BZD; e/ou o segundo, mudança na afinidade
ou densidade desses receptores. Existem também
evidências adicionais de que o glutamato
possa exercer algum papel no mecanismo de tolerância
bem como na síndrome de abstinência.
O uso prolongado de BZDs está também
associado à produção de tolerância,
que é caracterizada pelo aumento gradual
da dose ingerida para a obtenção
do mesmo efeito farmacológico. Ela pode
também estar relacionada a "down regulation"
dos receptores BZDs e pode não ocorrer
para todos os efeitos dos BZDs. Por exemplo, é
possível observar-se a manutenção
do efeito ansiolítico de determinados BZDs
com uma dada dose, entretanto, com uma redução
do efeito hipnótico ou anticonvulsivante.
A retirada abrupta dos BZDs pode causar síndrome
de abstinência, principalmente com determinados
compostos incluindo também aqueles que
exibem meia-vida curta/intermediária, como
lorazepam e alprazolam. A severidade dos sintomas
pode variar de acordo com o tempo de uso, dose,
meia-vida do composto e de variações
interindividuais. De um modo geral é limitada
de 1 a 6 dias. Os sintomas podem ser: aumento
da freqüência cardíaca, aumento
da pressão arterial, sudorese, náusea
e/ou vômitos, tremor, agitação,
diarréia, insônia, crises convulsivas
e sintomas psiquiátricos e/ou neurológicos.
A insônia rebote é um dos sintomas
mais freqüentemente associado à retirada
dos BZDs na prática clínica dos
distúrbios do sono. Ela se caracteriza
por aumento no tempo total acordado durante a
noite em níveis maiores do que os basais.
Ocorrência de insônia rebote é
mais provável com BZDs de meia-vida curta,
podendo inclusive ocorrer na mesma noite, após
redução dos níveis plasmáticos
do BZD (insônia do amanhecer ou despertar
precoce). Alguns BZDs podem também causar
ansiedade rebote, caracterizada por aumento de
tensão e ansiedade durante o dia que se
segue a administração noturna do
composto. Todos os sintomas de retirada dos BZDs
podem ser evitados através da redução
muito gradual da dose até a retirada total
e, por vezes, utilizando-se a técnica da
retirada tamponada, através da administração
gradual de outro composto. Muitos estudos têm
mostrado algum grau de ajuda no processo de retirada
dos BZDs, com o uso de determinadas substâncias,
entretanto, ainda não existe consenso a
esse respeito [Poyares, 1998]. Estes problemas
ocorrem em menor grau com zolpidem, talvez pela
sua seletividade de ligação ao sítio
do receptor BZD1, do mesmo modo que para alguns
agonistas parciais BZDs. Zaleplom como é
uma substância mais atual, ainda está
sob investigação, entretanto parece
apresentar características similares [Dooley
& Plosker, 2000].
Em resumo, um hipnótico ideal deve apresentar
entre outras as seguintes características:
1-ausência de efeitos na memória
e cognição;
2-rápida absorção;
3-ligação específica ao receptor;
4- manutenção de um sono fisiológico;
5- ausência de efeitos residuais;
6- meia-vida ótima;
7- ausência de potencial de abuso e de fenômenos
de tolerância e dependência;
8- ausência de metabólitos ativos;
9- ausência de efeito de depressão
respiratória;
10- ausência de interação
com álcool ou outras substâncias
depressoras do SNC.
Antidepressivos
Antidepressivos
podem, em geral, reduzir discretamente ou acentuadamente
o sono REM. Quanto mais potente o antidepressivo
em aumentar a NA, mais o REM pode ser suprimido.
Alguns deles podem também causar sonolência.
A tabela 8 ilustra alguns dos antidepressivos
de acordo com a intensidade de seu efeito sedativo.
Graças a esse potencial em induzir sedação
e a melhora da ansiedade (no caso de alguns compostos),
os antidepressivos têm ficado mais popular
no tratamento da insônia como mostram alguns
dados epidemiológicos [Ohayon & Caulet,
1998; Ohayon et al, 1998]. Isso também
pode resultar em parte da alta incidência
de sintomas depressivos entre os insones.
Tabela
8: Efeito sedativo de alguns antidepressivos
| Sedação
mais acentuada |
Sedação
leve |
Pouca
ou nenhuma sedação |
| Amitriptilina |
Amoxapina |
Bupropiona
(não) |
| Clomipramina |
Imipramina |
Desipramina |
| Doxepina |
Maprotriptilina |
Fluxetina
(não) |
| Trazodone |
Nefazodona |
Fluvoxamina |
| Trimipramina |
Nortriptilina |
Protriptilina |
| |
Paroxetina |
Sertralina |
| |
Venlafaxina |
|
Alguns
mecanismos têm sido propostos para explicar
o efeito sedativo desses compostos tais como:
antagonismo dos receptores histaminérgicos
tipo 1 (H1), atividade anticolinérgica
ou possível influência nos alfa-adrenoceptores.
O efeito sedativo pode sofrer tolerância
com a continuação do uso para alguns
antidepressivos [Sakulsripong et al, 1991]. Este
efeito, portanto, tem sido muito explorado no
tratamento da insônia, particularmente naqueles
pacientes que apresentam sintomas de depressão
associados. É importante notar-se que por
vezes o efeito sedativo pode ocorrer em doses
muito menores do que as doses necessárias
para o efeito antidepressivo ótimo. Desse
modo, tem sido pratica comum entre alguns especialistas,
a prescrição de doses subterapêuticas,
com relação à depressão,
para tratar o distúrbio do sono. A tabela
9 ilustra os intervalos de doses terapêuticas
para tratamento da depressão e as principais
classes dos principais antidepressivos.
Tabela
9: Principais classes, doses antidepressivas terapêuticas
habituais e efeitos colaterais de alguns antidepressivos.
| Classe
e nome |
Dose
terapêutica
(mg/dia) |
Neurotransmissor
alvo |
Efeitos
anticolinérgicos |
Hipotensão |
Efeitos
cardiovasculares |
Aumento
de peso |
|
|
|
|
|
|
|
| Inibidores
da recaptação da NA - aminas
tricíclicas terciárias |
| Amitriptilina |
75
- 150 |
NA
- 5 - HT |
presente |
presente |
presentes |
moderado |
| Clomipramina |
75
- 150 |
NA
- 5 - HT |
presente |
moderado |
presentes |
discreto |
| Doxepin |
100
- 200 |
NA
- 5 - HT |
moderado |
presente |
moderado |
moderado |
| Imipramina |
75
- 150 |
NA
- 5 - HT |
moderado |
moderado |
presentes |
moderado |
| Trimipramina |
75
- 150 |
NA
- 5 - HT |
presente |
moderado |
presentes |
moderado |
|
|
|
|
|
|
|
| Inibidores
da recaptação da NA - aminas
tricíclicas secundárias |
| Amoxapina |
200-300 |
NA-DA |
discreto |
moderado |
moderado |
discreto |
| Desipramina |
100-200 |
NA |
discreto |
discreto |
moderado |
discreto |
| Maprotriptilina |
100-150 |
NA |
moderado |
moderado |
moderado |
discreto |
| Nortriptilina |
75-150 |
NA |
discreto |
discreto |
moderado |
discreto |
| Protriptilina |
15-40 |
NA |
moderado |
discreto |
presentes |
discreto |
|
|
|
|
|
|
|
| Inibidores
da recaptação da 5-HT |
| Fluoxetina |
20-40 |
5-HT |
- |
- |
- |
- |
| Fluvoxamina |
100-200 |
5-HT |
- |
- |
- |
- |
| Sertralina |
75-150 |
5-HT |
- |
- |
- |
- |
| Paroxetina |
20-40 |
5-HT |
- |
- |
- |
- |
| Venlafaxina |
75-225 |
5-HT |
- |
- |
- |
- |
| Citalopram |
20-60 |
5-HT |
- |
- |
- |
- |
|
|
|
|
|
|
|
| Inibidores
da MAO (monoamino-oxidase) |
| Selegilina |
10 |
DA-NA-5-HT |
- |
discreta |
- |
- |
|
|
|
|
|
|
|
| Antidepressivos
atípicos |
| Bupropiona |
200-300 |
DA-NA |
- |
- |
- |
- |
| Nefazodona |
200-400 |
5-HT |
- |
discreto |
- |
- |
| Trazodone |
150-200 |
5-HT |
- |
moderado |
- |
discreto |
(
- ) praticamente ausente
Neurolépticos
Diversas
drogas antipsicóticas têm sido utilizadas
para produzir sedação. Este efeito
sedativo é encontrado em alguns neurolépticos
e tem particular interesse para tratar pacientes
esquizofrênicos que podem apresentar insônia
aguda ou para tratar comportamento de agitação,
principalmente noturna. Os neurolépticos
mais sedativos são as alquilamino-fenotiazinas
e dibenzodiazepina clozapina. Butirofenonas, benzamidas
e fenotiazinas piperazina tem menor efeito sedativo.
Estes compostos podem alterar o sono, aumentando
o SOL e reduzindo vigília. No caso da olanzapina,
o aumento do SOL parece ser devido a um possível
bloqueio central dos receptores 5HT(2C) [Sharpley
et al, 2000]. O sono REM pode eventualmente ser
alterado. Essa redução do sono REM
pode ocorrer através de dois principais
mecanismos, influencia nos alfa-2 adrenoceptores
e/ou devido a efeito anticolinérgico.
Os efeitos colaterais de sedação
e hipotensão ortostática estão,
provavelmente, relacionadas ao bloqueio de receptores
adrenérgicos alfa-1 centrais e periféricos,
mas também podem ter relação
com o bloqueio de receptores H1, no caso das fenotiazinas.
Estimulantes
Esta
classe de drogas promove o estado de alerta. De
um modo geral agem através do aumento de
atividade catecolaminérgica, com exceção
das xantinas que são antagonistas dos receptores
adenosina, como a cafeína e a teofilina.
Como mencionado anteriormente neste capítulo,
a adenosina tem importante efeito promotor do
sono e, portanto, seu antagonismo levaria a aumento
da vigília.
O aumento da atividade catecolaminérgica
leva a um aumento do alerta. Desse modo, a anfetamina
apresenta esse efeito principalmente através
do aumento da atividade dopaminérgica central,
mas também por potencializar a transmissão
noradrenérgica [para revisão Hardman
& Limbird, 1996; Kales, 1995].
Também são comercializados em alguns
países derivados da anfetamina, heterocíclicos,
como o metilfenidato e pemolina. O primeiro tem
forte efeito estimulante e o último tem
a característica de apresentar menos efeitos
simpaticomiméticos, conseqüentemente,
menos efeitos cardiovasculares e anorético.
A dextro-anfetamina diminui sono REM e TTS. A
descontinuação do tratamento a longo
prazo pode levar a rebote do sono REM.
Modafinil
Mais
recentemente, modafinil tem sido introduzido como
estimulante no tratamento da sonolência
excessiva em narcolépticos. Alguns mecanismos
têm sido propostos para explicar seu efeito
estimulante, tais como: aumento da liberação
de dopamina através da inibição
de neurônios GABAérgicos em algumas
áreas centrais [Ferraro et al, 1996]; alteração
do balanço GABA-glutamato em algumas áreas
envolvendo ciclo sono-vigília; possível
ação em neurônios histaminérgicos
no hipotálamo posterior; efeito agonista
em receptor adrenérgico alfa-1 [Ferraro
et al, 1996; Ferraro et al, 1999; Ferraro et al,
2000]. O efeito no sistema dopaminérgico
parece não ser suficiente para explicar
o efeito estimulante do modafinil, uma vez que
diferentemente dos outros estimulantes que conhecidamente
atuam no sistema dopaminérgico, ele não
causa alterações motoras nem outros
efeitos relacionados ao sistema dopaminérgico
[Bugnet et al, 1995; Engber, 1998]. Entretanto,
dados recentes mostram que os transportadores
da dopamina exercem um papel importante na regulação
do sono e são necessários para o
efeito promotor de alerta das anfetaminas e do
modafinil [Wisor et al, 2001].
Os
possíveis efeitos indiretos no sistema
catecolaminérgico podem explicar a ausência
de efeitos indesejáveis periféricos
decorrentes do uso de alguns outros estimulantes.
Em estudos recentes, modafinil parece não
apresentar tolerância significativa após
semanas de tratamento [Moldofsky et al, 2000].
Achados experimentais sugerem que modafinil pode
auxiliar a terapia de doença de Parkinson,
por meio de uma ação no sistema
GABA-érgico no globo pálido [Jenner
et al, 2000].
Anti-histaminérgicos
Os
antagonistas do receptor H1 apresentam efeito
sedativo. Medicações anti-histaminérgicas
podem induzir sonolência não apenas
através do bloqueio H1, mas também
através de ação anticolinérgica
e do antagonismo de receptores alfa-adrenérgicos
. Exemplos destes agentes incluem a prometazina
(freqüentemente usada para sedação),
bromofeniramina e triprolidina. Os agentes que
não atravessam a barreira hemato-encefálica
produzem menos sedação. Os anti-histaminérgicos
podem diminuir o sono REM. Os agentes que produzem
bloqueio seletivo de receptores H2 não
apresentam o efeito sedativo como por exemplo
a cimetidina e a ranitidina.
Anticonvulsivantes
Os
anticonvulsivantes possuem diferentes mecanismos
de ação, mas agem de um modo geral
no sistema GABA-érgico. Por este motivo
podem exibir mais ou menos efeito sedativo. Os
anticonvulsivantes com maior ação
sedativa são os barbitúricos e derivados
e os benzodiazepínicos (clonazepam, diazepam
e clobazam). Os de menor ação sedativa
são a fenitoína, carbamazepina,
valproato de sódio, vigabatrina e lamotrigina.
Os
barbitúricos aumentam o TTS, diminuem latência
do sono e tempo total acordado durante o sono,
diminuem sono REM e reduzem a densidade de movimentos
oculares rápidos no sono REM, de maneira
similar aos benzodiazepínicos. A Carbamazepina
pode reduzir o sono REM e vigília. O valproato
de sódio, em crianças, pode aumentar
sono profundo e pode causar sonolência em
adultos [Declerck & Wauquier, 1991]. Em indivíduos
normais, entretanto, ele pode diminuir sono de
ondas lentas bem como reduzir o número
de mudanças de estágios do sono,
além de aumentar o TTS.
Drogas
colinérgicas de ação central
Ainda
não foram estudados adequadamente os efeitos
das drogas inibidoras da acetilcolinesterase de
ação central no sono dos pacientes
com doença de Alzheimer. Estas drogas são
o único tratamento primário da doença
de Alzheimer aprovado pela FDA desde 1997, sendo
as mais usadas a tacrina (Tacrinal®), o donepezil
(Aricept®) e a rivastigmina (ENA-713, Exelon®).
A tacrina é a mais antiga destas três
e tem sido abandonada devido à sua hepatotoxicidade
[Enz. et al, 1993; Knopman & Morris, 1997]
. O donepezil e a rivastigmina mostraram muito
pouca toxicidade em estudos multicêntricos
e seus poucos efeitos colaterais, geralmente gastrintestinais,
são leves e transitórios [Corey-Bloom
et al, 1998; Ross & Shua-Haim, 1998; Rogers
& Friedhoff, 1996]. Pouquíssimos estudos
de polissonografia foram feitos para observar
o efeito dos anticolinesterásicos centrais
na estrutura do sono. A tacrina mostrou-se eficaz
em melhorar a qualidade do sono e em evitar alucinações
do entardecer na doença de Alzheimer [Gillman,
1997]. Os resultados sobre o efeito da tacrina
no sono REM são controversos. Um estudo
de análise espectral do EEG durante o sono
sob o efeito da tacrina em doses de até
100 mg/dia mostrou uma leve tendência à
aceleração do ritmo basal do EEG
durante o sono REM. Possivelmente com doses maiores
esta tendência se tornaria mais acentuada,
no entanto isto não foi possível
devido ahepatotoxicidade da tacrina [Petit et
al, 1993]. Outro estudo sem análise espectral
do EEG mostrou uma diminuição da
latência do sono REM, o que é um
efeito esperado da estimulação colinérgica
[Riemann et al, 1996]. Nenhum estudo semelhante
foi realizado até o presente com o donepezil
e a rivastigmina. Os raros estudos feitos com
ambas drogas mostram apenas efeitos da melhora
clínica do sono com a rivastigmina e um
único caso de pesadelos como efeito colateral
reversível do donepezil [Corey-Bloom et
al, 1998; Ross & Shua-Haim, 1998]. O estudo
destas drogas poderia ter interesse devido à
importância do sistema colinérgico
na gênese do sono.
Melatonina
A
melatonina é um neuro-hormônio encontrado
no SNC e apresenta níveis aumentados antes
do início de sono. O aumento e queda desses
níveis de secreção têm
relação com o ritmo endógeno
de temperatura. O efeito da melatonina exógena
é controverso. Ainda não são
claros os benefícios da melatonina para
o tratamento da insônia. Em idosos houve
uma redução da latência de
sono, mas nesta população, a manutenção
do sono pode ser o ponto mais crítico.
Também não existem evidências
de que idosos com baixa secreção
de melatonina exibem resposta a administração
de melatonina exógena [Kunz et al, 1999;
Haimov et al, 1995] [para revisão ver capítulo
Farmacologia do Sono II].
Efeitos
colaterais de medicações
Os
efeitos dos medicamentos podem ser desejados e
indesejáveis. Os primeiros se originam
da ação farmacológica da
droga, como por exemplo, o efeito sedativo e/ou
hipnótico das drogas que são classificadas
primariamente como sedativas e/ou hipnóticas
e são usadas para tratar insônia.
Outro exemplo simples é o das drogas primariamente
estimulantes que são usadas para tratar
a narcolepsia. Por vezes, o efeito sedativo pode
ser considerado como uma extensão da ação
terapêutica de qualquer droga depressora
do SNC, como ocorre com alguns antidepressivos
e neurolépticos [Obermeyer & Benca,
1996]. Os efeitos não desejados estão
associados a manifestações paradoxais
ou opostas ao efeito terapêutico da droga.
Um exemplo disto é a hiperexcitabilidade,
principalmente vista em crianças, com uso
de medicação sedativo-hipnótica.
Entretanto, a ação sedativa de um
anti-histamínico pode ser indesejável
quando este medicamento é usado como antialérgico,
por exemplo.
Alguns fatores importantes na ocorrência
de efeitos colaterais no SNC incluem propriedades
particulares das drogas, via de administração
e características farmacocinéticas
e farmacodinâmicas. Esses fatores estão
associados principalmente a:
1- capacidade lipofílica do composto;
2- meia vida de eliminação ( um
dos mais importantes efeitos farmacocinéticos
relacionados a produção de efeitos
colaterais);
3-afinidade de ligação ao receptor
( benzodiazepínicos com alta afinidade
tem maior probabilidade de causar insônia
rebote, ver seção benzodiazepínicos);
4- interação droga-neurotransmissor.
Até o presente momento, pouco se sabe,
no entanto, a respeito dos efeitos no sono da
combinação de drogas [Schweitzer,
2000].
Efeitos
colaterais no sono
Nos
parágrafos seguintes serão mencionados
os efeitos colaterais de algumas drogas no sono,
enfatizando insônia e sonolência excessiva
diurna. Algumas drogas também são
capazes de alterar a respiração
durante o sono, estimulando-a ou deprimindo-a,
entretanto, estas não serão mencionadas
neste capítulo e podem ser encontradas
em outras referências [Schweitzer, 2000].
No caso de insônia como efeito colateral
de drogas terapêuticas ou de sua retirada,
são também determinantes alguns
fatores relacionados ao paciente como idade, sexo
e estado de saúde geral. Os exemplos mais
comuns desses medicamentos são: os estimulantes,
antidepressivos com efeitos estimulantes, hipnóticos/ansiolíticos,
corticosteróides e em menor grau broncodilatadores.
Os beta-bloqueadores lipofílicos têm
mais efeitos colaterais no SNC, como por exemplo
o propranolol podendo fragmentar o sono [Schweitzer,
2000].
Sonolência excessiva diurna como efeito
colateral é pouco menos freqüente,
entretanto é manifestação
comum entre os depressores do SNC, sendo mais
prevalente com benzodiazepínicos de meia-vida
de eliminação longa e com barbitúricos,
mas podem ocorrer também com anti-convulsivantes,
neurolépticos ou antidepressivos.
A tabela 10 ilustra as drogas mais comumente usadas
no tratamento de distúrbios de sono e suas
posologias e a tabela 11, os distúrbios
do sono mais comumente ocasionados por medicamentos
em geral e os efeitos colaterais de drogas utilizadas
para o tratamento dos distúrbios do sono
[Obermeyer & Benca, 1996; Rickels & Schweizer,
1990; Sakulsripong et al, 1991; Schweitzer, 2000;
Ware et al 1984; Hardman & Limbird, 1996].
Tabela 10: Efeitos colaterais dos principais
medicamentos usados nos distúrbios do sono
| Tratamento |
|
Efeitos
Colaterais |
Efeitos
no sono |
Apresentação |
Dose
Diária |
|
1-RLS/PLM
TERAPIA PRIMÁRIA
SISTEMA DOPAMINÉRGICO |
|
|
|
|
|
| Precursores
dopaminérgicos |
Levo/Carbidopa |
discinesia
náusea
alucinações
cefaléia
rebote
descoforto gastrinstestinal
rebote com uso crônico
"augmentation" |
pode
aumentar sono REM
TTS e sono delta: sem alterações
|
25/100
ou 25/250 |
25/100 |
| Agonistas
dopa |
Pergolida |
discinesia
náusea
alucinações
rinite alérgica
constipação
hipotensão postural
|
|
0.05;
0.25; 1mg |
0.10
- 0.60mg |
| Novos
agonistas
dopa
|
Pramipexo |
sonolência
náusea
insônia
constipação
|
|
várias |
0.125
- 1.0/noite |
| Antidepressivos |
Selegilina |
|
|
5mg |
10mg/dia |
| Opióides |
Codeína |
Constipação
Náusea |
|
15
- 30 - 60mg |
30
- 120mg |
| Benzodiazepínicos |
Clonazepam |
sonolência
diurna
depressão
incoordenação
insônia na retirada
|
ver
seção BZDs |
0.5
- 1 - 2mg |
0.5
- 4.0mg |
| |
| NARCÓTICOS |
| |
Codeína |
depressão
respiratória
sonolência
constipação
náusea
prurido
retenção urinária
|
agudo:
aumento vigília durante o sono
diminuição sono delta e REM
|
15
- 30 - 60mg |
30
- 120mg |
| |
| TERAPIA
SECUNDÁRIA
|
| Anticonvulsivantes |
Carbamazepina |
malformação
fetal
nefrotoxicidade
|
|
200
- 400 mg |
200
- 400 mg |
| |
Gabapentina |
"rash"
cutâneo
hiponatremia
hepatotoxicidade
distúrbios hematológicos
sonolência diurna
|
|
|
100
- 400mg |
| Agente
adrenérgico |
Clonidina |
hipotensão
insônia
sedação diurna
|
aumento
de vigília durante o sono
mudanças de estágios
diminuição do REM
|
|
|
|
| 2)
NARCOLEPSIA |
|
|
|
|
|
| Estimulantes |
Metilfenidato |
aumento
da PA |
aumento
de latência do sono |
5
- 10 mg |
10
- 30 mg/dia |
| |
Dextro-anfetamina |
ansiedade,
palpitações
psicose, insônia
alucinações, cefaléia
movimentos musculares
|
diminuição
do TTS e do sono REM |
|
15
- 30 mg/dia |
| |
Metanfetamina |
|
|
|
20
- 25 mg/dia |
| |
Pemoline |
alterações
hepáticas |
aumento
de latência do sono
diminuição do SOL |
|
|
| |
Modafinil |
cefaléia,
náusea |
aumento
de sono delta e estágio 2
diminuição do tempo de vigília
durante o sono e sono REM
|
|
200-400 mg/dia
|
| |
Mazindol |
|
|
|
4
- 8 mg/dia |
|
| Medicações
para sintomas associados ao sono REM
|
| Antidepressivos
tricíclicos, |
Clomipramina |
efeitos
anticolinérgicos:
prejuízo memóriahipotensão
ortostática
boca seca, visão borrada
taquicardia, constipação
retenção urinária
|
aumento
do sono delta e do estágio 2
diminuição da vigília
durante sono
e sono REM
|
|
75
- 125 mg/dia |
| Imipramina |
|
75
- 125 mg/dia |
| Heterocíclicos |
Protriptilina |
|
|
|
2.5
- 20 mg/dia |
|
| Inibidores
seletivos
da recaptação
de serotonina
|
Fluoxetina |
Insônia |
pode
aumentar vigília durante sono |
20mg |
10
- 40 mg/dia |
| |
|
Hipersonia
pode exacerbar PLM/RLS
|
diminuição
do sono REM |
|
|
| Novos |
Gama-hidroxibutirato
(GHB)
|
Desorientação
Náusea
|
|
|
|
|
| 3)
DISTÚRBIO COMPORTAMENTADO SONO REM |
| sedativo,
anticonvulsivante
relaxante muscular
|
clonazepam
|
|
|
|
|
| Outros |
tricíclicos
alprazolam
clonidina
carbamazepina
|
|
|
|
|
|
| 4)
SONAMBULISMO, TERROR NOTURNO |
| |
clonazepam
outros BZDs
|
|
|
|
|
|
| 5)
INSÔNIA |
| sedativos
hipnóticos |
BZDs
|
ver
seção BZDs |
ver
seção BZDs |
|
|
| outros
hipnóticos
|
zolpidem |
|
diminui
TTS, aumenta SOL |
5
- 10 mg |
|
| zaleplom |
|
diminui
latência do sono, aumenta TTS |
10
mg |
|
| zopiclone |
|
diminui
TTS, pode aumentar SOL |
7.5
mg |
|
|
|
|
|
|
|
Tabela 11: Distúrbios do sono secundário
a uso de medicações
| DISTÚRBIO |
INDICAÇÃO
TERAPÊUTICA |
MEDICAMENTO |
DROGA |
|
| INSÔNIA
|
Estimulante |
|
Anfetaminas
Metilfenidato
Efedrina
Teofilina |
| Antidepressivo
|
IMAO |
|
| Tricíclicos
Energizantes |
Imipramina
Protriptilina |
| Segunda
Geração |
Nomifensina |
| ISRS |
Fluoxetina
Flovoxamina |
| Hipnótico/Ansiolítico
|
Barbitúricos
(Eliminação Rápida)
|
Secobarbital |
| Benzodiazepínicos |
Triazolam
Midazolam
Brotizolam
Estazolam |
| Ansiolítico
Não-benzodiazepínico |
Buspirona |
| Anti-Inflamatório |
Corticosteróide |
|
| Anti-Hipertensivo |
Beta
Bloqueador |
propranolol |
|
|
|
|
| HIPERSONIA
|
Hipnótico/Ansiolítico
|
Barbitúricos
(Eliminação Lenta) |
Secobarbital |
| Benzodiazepínicos |
Flurazepam
Quazepam
Diazepam |
| Neuroléptico |
Fenotiazina |
Clorpromazina
Tiorazida |
| Antidepressivos |
Heterocíclico |
Doxepina
Amitriptilina
Trazodone |
| Anticonvulsivante
|
Barbitúricos |
Fenobarbital |
| Benzodiazepínicos |
Clonazepam |
| Desoxibarbitúrico |
Primidona |
| Hidantoína |
Fenitoína |
| Anti-Histamínico |
|
Difenidramina
Clofeniramina |
|
|
|
|
| APNÉIA
DO SONO
|
Narcóticos |
Opióide |
Morfina
Hidromorfina |
| Anestésicos
Anti-hipertensivos
Depressores do SNC
Hormônios |
Benzodiazepínicos,
Barbitúricos |
Testosterona |
|
|
|
|
| MIOCLONIA
NOTURNA
(NA RETIRADA) |
Antidepressivos
Antimaníaco
Anticonvulsivante
Hipnótico |
Tricíclicos |
Lítio |
|
|
|
|
| CATAPLEXIA |
Anti-Hipertensivo |
Adrenérgicos
Sedativos |
Prazosin |
|
|
|
|
| ALUCINAÇÃO
HIPNAGÓGICA |
Antidepressivos |
Tricíclicos
Tetracíclicos |
Imipramina
Maprotriptilina |
| |
| SONAMBULISMO |
Antimaníacos
Hipnótico |
Eliminação
Rápida |
Lítio
Trizolam
Midazolam |
|
|
|
|
| DIST.
COMPORT. DO SONO REM
|
Antidepressivos |
Tricíclicos
SSRI
IMAO |
Clomipramina
Fluoxetina |
| Ansiolíticos |
|
Meprobamato |
|
|
|
|
| PESADELOS |
Anti-hipertensivos |
Beta-Bloqueador
Lipofílico |
Propranolol |
Conclusão:
O
sono é um processo quimicamente muito complexo,
que envolve diversas substâncias endógenas
que participam direta ou indiretamente na sua
gênese. Estudos anatômicos e de registros
elétricos, não apresentados neste
capítulo, também ilustram a complexidade
anatômica das estruturas ate então
identificadas como geradoras ou inibidoras de
determinados estados do sono ou da vigília.
O conhecimento desses processos bem como da interação
entre os diferentes sistemas de neurotransmissão
são fundamentais para o entendimento do
mau funcionamento que pode ocorrer nos distúrbios
do sono. A partir daí é possível
a identificação e o teste de novas
drogas capazes de induzir mudanças químicas
desejadas nesses sistemas. Para os clínicos
do sono, entretanto, os conceitos básicos
em farmacologia do sono podem ser importantes,
na medida em que podem influenciar na escolha
do psicofármaco mais eficaz e com menos
efeitos colaterais para o tratamento medicamentoso
dos distúrbios do sono em crianças,
adultos e idosos.
Agradecimentos
A
Sharon Keenan, diretora da Escola de Sono de Stanford
pois parte desse manuscrito foi previamente divulgado
como material didático na School of Sleep
Medicine - Stanford, CA- USA.
Referências
Aldrich
MS, Hollingsworth Z, Penney JB. Autoradiogrph
studies of post-mortem human narcoleptic brain.
Neurophysiol Clin 23(1): 35-45, 1993.
American Psychiatry Association. DSM-IV. (1994)
Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders.
4th ed. Washington: American Psychiatry Press.
Aston-Jones G, Bloom FE. Norepinephrine-containing
locus coeruleus neurons in behaving rats pronounced
responses to non-noxious environmental stimuli.
J Neurosci. 1:887, 1981.
Basheer R, Porkka-Heiskanen T, Stenberg D, Maccarley
RW. Adenosine and behavioral state control: adenosine
increases c-Fos protein and AP1 binding in basal
forebrain of rats. Brain Res Mol Brain Res. 73:
1-10, 1999.
Benington JH, Heller HC. Restoration of brain
energy metabolism as the function of sleep. Prog
Neurobiol. 45:347,1995.
Berridge CW, Foote SL. Enhancement of behavioral
and eletroencephalographic indices of waking following
stimulation of noradrenergic B-receptors within
the medial septal region of the basal forebrain.
J Neurosci;16:6999-7009, 1996.
Borbély AA, Mattmann P, Loepfe M, Strauch
I, Lehmann D. Effect of benzodiazepine hypnotics
on all-night sleep EEG spectra. Hum Neurobiol
; 4:189-194, 1985.
Brooks & Geherson M.D. Amine repletion in
the reserpinized cat: effect upon PGO waves and
REM sleep. Electroencephalogr Clin Neurophysiol.
42: 35-47, 1977.
Bugnet A, Montmayer A, Pigeau R, et al. Modafinil,
d-amphetamine and placebo during 64 hours of continuous
mental work. II. Effects on two nights of recovery
sleep. J Sleep Res. 494):229-241, 1995.
Chemelli RM, Willie JT, Stinton CM, et al. Narcolepsy
in orexin knockout mice; molecular genetics of
sleep regulation. Cell. 98: 437-451, 1999.
Corey-Bloom J., Anand R., Veach J. - "A randomized
trial evaluating the efficacy and safety of ENA
713 (rivastigmine tartrate), a new acetylcholinesterase
inhibitor in patients with mild to moderately
severe Alzheimer's disease" International
J. Ger. Psychopharmacology 1:55-65, 1998.
Costa E, Guidotti A, Mao C.C. Evidence of involvement
of GABA in the action of benzodiazepines. Em:
Costa E, Greengard P. eds. Mechanisms of action
of benzodiazepines.New York, Raven Press, 1975,
113-130.
Dahlstrom A, Fuxe K. Evidence for the existance
of monoamine containing neurons in the central
nervous system, I: demonstration of monoamines
in the cell bodies of brain stem neurons. Acta
Physiol Scand. 62:1, 1964.
Declerck AC, Wauquier A. Influence of antiepileptic
drugs on sleep patterns. Epilepsy Res Suppl. 2:
153-163, 1991.
Dooley M, Plosker GL. Zaleplon: a review of its
use in the treatment of insomnia. Drugs. 60(2):413-445,
2000.
Engber TM, Dennis SA, Jones BE, et al. Brain regional
substrates for the actions of the novel wake-promoting
agent modafinil in the rat: comparison with amphetamine.
Neuroscience. 87 (4): 905-911, 1998.
Enz. A., Amstutz R., Boddeke H., Gmelin G., Malanowski
J. - "Brain selective inhibition of acetylcholinesterase:
a novel approach to therapy for Alzheimer's disease".
Progress in Brain Research, 98:431-438, 1993.
Ferraro L, Tanganelli S, O’Connor WT, et
al. The vigilance promoting drug modafinil increases
dopamine release in the rat n. accumbens, via
the involvement of a local GABAergic mechanism.
Eur J. Pharmacol. 306(1-3): 33-39, 1996.
Ferraro L, Antonelli T, Tanganelli S, et al. The
vigilance promoting drug modafinil increases extracellular
glutamate levels in the medial preoptic area and
the posterior hypothalamus of the concious rat
; prevention by local GABA a receptor blockade.
Neuropsychopharmacology. 20(4): 346-356, 1999.
Ferraro L, Fuxe K, Tanganelli S, et al. Amplification
of cortical serotonin release: a further neurochemical
action of vigilance-promoting drug, modafinil.
Neuropsychopharmacology. 39(11): 1974-1983, 2000.
Gaillard JM, Blois R. Sleep pharmacology of typical
and atypical ligands of benzodiazepine receptors.
Pharmacology Biochemistry & Behavior 29: 799-801,1988.
Gaillard JM, Blois RDifferential effects of flunitrazepam
on human sleep in combination with flumazenil.
Sleep 12:120-132, 1989.
Gillin JC, van Kammen DP, Graves J, et al. Differential
effects of D- and L-amphetamine on the sleep of
depressed patients. Life Sci;17:1223-1240,1975.
Gillman P.K. - "Tacrine for treatment of
sleep disturbance in dementia" J. Am Ger.
Society 45(10):1286, 1997.
Hardman J.G., Limbird L.E., eds. Goodman &
Gilman´s The Pharmacological basis of therapeutics.
9.ed. New York, McGraw-Hill, 1996, 1905p.
Hartmann E. L-Tryptophan as an hypnotic agent:
a review. Waking Sleeping;1:155,1977.
Haimov I, Lavie P, Landon M, etal. Melatonin replacement
therapy of elderly insomniacs Sleep. 18:7, 598-603,
1995.
Imeri L, Mancia M, Bianchi S et al. 5-hydroxitryptophan,
but not L-tryptophan. Neuroscience. 95(2): 445-452,
2000.
Inoue S. Sleep and sleep substances. Brain Dev.
8:4, 469-473, 1986.
Jenner P, Zeng BY, Smith LA, et al. Antiparkinsonian
and neuroprotective effects of
modafinil in the mptp-treated common marmoset.
Exp Brain Res. 133(2): 178-188, 2000.
Jones BE, Yang T-Z. The efferent projections from
the reticular formation and the locus coeruleus
studied by anterograde and retrograde axonal transport
in the rat. J. Comp Neurol. 242:56, 1985.
Jones BE. Basic Mechanisms of Sleep-Wake States.
In: Kryger M H, Roth T, Dement W, eds. Principles
and Practice of Sleep Medicine. 3rd edition. Philadlephia,
Pennsylvania: WB Saunders, 134-54, 2000.
Jones BE. Paradoxical sleep and its chemical/structural
substrates in the brain. Neuroscience;40-637,
1991.
Jouvet M, Buda C, Cespuglio R, et al. Hypnogenic
Effects of Some Hypothalamo-Pituitary Peptides.
In WE Bunney Jr, E Costa, SG Potkin (eds), Clinical
Neuropharmacology (Vol 9, Suppl 4). New York:
Raven,;465, 1986.
Jouvet M. The role of monoamines and acetylcholine-containing
neurons in the regulation of sleep-waking cycle.
Ergeb Physiol;64:166, 1972.
Kales A, ed. Pharmacology of Sleep. Berlin, Springer,
1995, 581 p.
Kish SJ, Mamelak M, Slimovitch C, et al. Brain
neurotransmitter changes in human narcolepsy.
Neurology. 42:229, 1992.
Knopman D.S., Morris J.C. - "An update on
primary drug therapies for Alzheimer's disease".
Arch. Neurol. 54:1406-1409, 1997.
Krueger JM, Walter J, Levin C. Factor S and Related
Somnogens: An Immune Theory for Slow Wave Sleep.
In DJ McGinty, R Drucker-Colin, A Morrison, et
al. (eds), Brain Mechanisms of Sleep. New York:
Raven.253:1987.
Kruisbrink J, Mirmiran M, Van der Woude TP, et
al. Effects of enhanced cerebrospinal fluid levels
of vasopressin, vasopressin antagonist or vasointestinal
polypeptide on circadian sleep-wake rhythm in
the rat. Brain Res. 419 (1-2): 76-86, 1987.
Kunz D, Schmitz S, Mchlberg R, et al. A new concept
for melatonin deficit: on pineal calcification
and meletonin excretion. Neuropsychopharmacology.
21:6, 765-772, 1999.
Legendre R, Pieron H. Le probleme des facteurs
du sommeil. Resultats d'injections vasculaires
et intracerebrales de liquides insomniques. C
R Seances Soc Biol Fil;62:1077,1910.
Lin L, Faraco J, Li R, et al. The sleep disorder
canine narcolepsy is caused by a mutation in the
Hypocretin (Orexin) receptor 2 gene. Cell. 98:
365-376, 1999.
McGinty D J, Harper RM. Dorsal Raphe neurons:
depression of firing during sleep in cats. Brain
Res. 101: 569-575, 1976.
McGinty D. Hypothalamic Thermoregulatory Control
of Slow Wave Sleep. In M Mancia, G Marinari (eds),
The Diencephalon and Sleep. New York: Raven, 1990;97.
Mendelson WB, Canin M, Cook JM, et al. A benzodiazepine
receptor antagonist decreases sleep and reverses
the hypnotic actions of flurazepam. Science. 219:414,
1983.
Mendelson WB, Monti D. Do BDZs induce sleep by
a Gabaergic mechanism? Life Sci. 53:5, 1993.
Mendelson WB. Nifedipine blocks the effects of
triazolam injected into dorsal raphe nucleus on
sleep. Neuropharmacology. 10:3, 151-155, 1994.
Mitler MM. Non selective and selective benzodiazepine
receptor agonists: where are we today? Sleep.
1(23): 39-47, 2000.
Moldofsky H, Broughton R.J., Hill J.D. A randomized
trial of long-term, continued efficacy and safety
of modafinil in narcolepsy. Sleep Med. 1: 109-116,
2000.
Monnier M, Sauer R, Hatt AM. The activating effect
of histamine on the central nervous system. Int
Rev Neurobiol. 12: 265, 1970.
Murphy, Tyrer. A double blind comparison of the
effects of gradual withdrawal of lorazepam, diazepam,
and bromazepam in benzodiazepine dependence. Br
J Psychiatry, 158: 511-516, 1991.
Ngasaki H, Kitahama K, Vlatx J-L, et al. Sleep
promoting effect of the sleep promoting substance
(SPS) and delta sleep-inducing peptide (DSIP)
in the mouse. Brain Res. 192:276, 1980.
Nicholson AN, Pascoe PA. Dopaminergic transmission
and the sleep-wakefulness continuum in man. Neuropharmacol
29(4): 411-417, 1990.
Nishino S, Reid MS, Dement WC, et al. Neuropharmacology
and neurochemistry of canine narcolepsy. Sleep
17(8): 84-92, 1994.
Obermeyer W H, Benca R M. Effect of drugs on sleep.
Neurol Clin. 14: 827-840, 1996.
Ohayon MM, and Caulet, M. Insomnia and psychotropic
drug consumption. Prog Neuropsychopharmacol &
Biol. Psychiat. 19: 421-431, 1995.
Ohayon MM, Caulet M, Priest RG, and Guilleminault
C. Psychotropic Medication consumption patterns
in the UK general population. J Clin Epidemiol.
51(3):273-283, 1998.
Pavel S, Psatta D, Goldstein R. Slow wave sleep
induced in cats by extremely small amounts of
synthetic and pineal vasotocin injected into the
third ventricle of the brain. Brain Res Bull;2:251,
1977.
Petit D., Montplaisir J., Lorrain D., Gauthier
S. - "THA does not affect sleep or EEG spectral
power in Alzheimer's disease" Biol. Psychiatry
33:753-754, 1993.
56- Placheta P. & Karobath M. Regional distribution
of Na+ independent GABA and benzodiazepine binding
sites in rat CNS. Brain Res. 178: 580-583, 1979.
Porkka- Heiskanen T. Adenosine in sleep and wakefulness.
Ann. Med. 31(2): 125-129, 1999.
Poyares DLR. Efeitos do uso crônico de benzodiazepínicos,
de sua retirada gradual e do tratamento com valeriana
no sono de pacientes com insônia. Tese de
doutoramento apresentada a Universidade Federal
de São Paulo, janeiro de 1998.
Poyares DLR & Tufik S.The consumption of hypnotic
and alertness drugs in a population that complains
of sleep disorders in São Paulo.. J. of
Sleep Res., 5 (sup 1 ): 183, 1996.
Principles and Practice of Sleep Medicine. 3rd
edition In: Kryger M H, Roth T, Dement W, eds.
Philadlephia, Pennsylvania: WB Saunders, 2000.
Ramesh V, Kumar VM. The role of alpha-2 receptors
in the medial preoptic area in the regulation
of sleep-wakefulness and body temperature. Neuroscience.
85(3): 807-817, 1998.
Rickels
K, Schweizer E. Clinical overview of serotonin
reuptake inhibitors. J Clin Psychiatry. 51: 9-12,
1990.
Riemann D., Lis S., Fritsch-Montero R., Meier
T, Krieger S., Hohagen F., Berger M. - "Effect
of tetrahydroaminoacridine on sleep in healthy
subjects" Biol. Psychiatry 39:796-802, 1996.
Rogers S.L., Friedhoff L.T. - "The efficacy
and safety of donepezil in patients with Alzheimer's
disease: results of a US multicentre, randomized,
double-blind, placebo-controlled trial".
Dementia 7:293-303, 1996.
Ross, J.S., Shua-Haim J.R. - "Aricept-induced
nightmares in Alzheimer's disease: 2 case reports"
J. Am.Geriatrics Society 46(1):119-120, 1998.
Sakai K, Koyama Y. Are there cholinergic and non-cholinergic
paradoxical sleep-on neurons in the pons? Neuroreport.
7: 2449-2453, 1996.
Sakai K. Some anatomical and physiological properties
of ponto-mesencephalic tegmental neurons with
special reference to the PGO waves and postural
atonia during paradoxical sleep in the cat. In:
Hobson JA, Brazier MA, eds. The Reticular Formation
Revisited. New York, NY: Raven Press; 427-447,
1980.
Sakulsripong M, Curran H V, Lader M. Does tolerance
develop to the sedative and amnestic effects of
antidepressants? A comparison of amitryptiline,
trazodone and placebo. Eur J Clin Pharmacol. 40:
43-48, 1991.
Schweitzer PK. Drugs that disturb sleep and wakefulness.
In: Kryger M H, Roth T, Dement W, eds. Principles
and Practice of Sleep Medicine. 3rd edition. Philadlephia,
Pennsylvania: WB Saunders, 441-461, 2000.
Seabra MLV, Tufik S. Sodium diclofenac inhibits
hyperthermia induced by paradoxical sleep deprivation:
the possible participation of prostaglandins.
Physiol Behav 54: 923-926, 1993.
Sharpley AC, Vassallo CM, Cowen PJ. Olanzapine
increases slow wave sleep: evidence for blockade
of central 5-HT (2C) receptors. Biol Psychiatry.
47(5): 468-470, 2000.
Shiromani PJ, Armstrong DM, Bruce G, et al. Relation
of pontine choline acetyl transferase immunoreactive
neurons with cells which increase discharge during
REM sleep. Brain Res Bull. 18: 447-455, 1987.
Siegel JM. Brainstem mechanisms generating Rem
sleep. In: Kryger M H, Roth T, Dement W, eds.
Principles and Practice of Sleep Medicine. 3rd
edition. Philadlephia, Pennsylvania: WB Saunders,
112-133, 2000.
Sri Kantha S, Matsumura H, Kubo E, Kawase K, Takahata
C, Serhan N, Hayaishi O Effects of prostraglandins
D2 lipoxins and leuko trienes on sleep and brain
temperature of rats. Prostraglandins Leukotrienes
and Essential Fatty Acids. 51:87-93, 1994.
Stern W.C. & Morgane P.J. Effects of reserpine
on sleep and brain biogenic amine levels in the
cat. Psychopharmacologia, 28: 275-286, 1973.
Tufik S, Lindsey CJ, Carlini EA. Does Rem sleep
induce supersensitivity of dopaminergic receptors
in brain? Pharmacology 16: 98-105, 1978.
Vogel G, Cohen J, Mullis D, et al. Nefazodone
and Rem sleep: how do antidepressant drugs decrease
Rem sleep? Sleep. 21: 70-77, 1998.
Ware J C, Brown F U, Moorard P J Jr, et al. Nocturnal
myoclonus and tricyclic antidepressants. Sleep
Res. 13: 72, 1984.
Wambebe C. Influence of some dopaminoreceptor
agents on nitrazepam-induced sleep in the domestic
fowl and rats. Jpn J Pharmacol. 40(3): 357-365,
1986.
Wauquier A. Drugs effects on sleep-wakefulness
patterns in dogs. Neuropsychobiology. 10(1): 60-64,
1983.
Wisor J.P., Nishino S., Sora I., Uhl G.H., Mignot
E., Edgar D.M. Dopaminergic role in stimulant-induced
wakefulness. J Neursci 21: 1787-1784, 2001.
|