| O
sono
Luiz Fernando Verissimo
-27/10/1996
De
todas as tiranias da Natureza sobre o corpo, a
pior é a do sono. Nossas outras "necessidades"
fisiológicas - a alimentação,
a evacuação, o sexo e a vontade
de, vez que outra, dar um peteleco em alguém
- podem ser resolvidas em pouco tempo e estão
sob o nosso relativo controle. O sono não.
O sono nos puxa para a sua masmorra e nos mantém
lá, arbitrariamente, o tempo que quiser,
sem sursis e sem anelação. Passamos
um terço das nossas vidas inconscientes.
Ou seja, um terço das nossas vidas nos
é sonegado - e vá pedir compensação
no fim.
Certas
pessoas conseguem encurtar o tempo de sua condenação.
São as tais que nos dizem, com superioridade,
que não precisam de mais que três
ou quatro horas de sono por dia. Muitas destas
passam o dia tirando cochilos extemporâneos.
Na verdade não abreviam a sentença;
apenas a parcelaram. A insônia é
uma vitória sobre a prepotência do
sono, mas pagamos por ela com as olheiras e a
mente embotada do dia seguinte. O sono é
vingativo.
Nunca
entendi as referências simpáticas
ao sono, os apelidos carinhosos como "uma
boa soneca". Chamar o sono de "soneca"
é como chamar o verdugo de "meu querido".
Existem os apologistas da sesta, que chegam a
classificá-la de acordo com uma escala
de prazeres. Sesta de pijama, sesta de sábado,
sesta com cachorro, sesta com mocotó etc.
Fazem o elogio do inimigo. Chamam qualquer coisa
boa de sono mas esquecem que todo sonho é
monstruoso, mesmo os bons. O sonho é o
pensamento contra a nossa vontade, é uma
ocupação forçada do nosso
cérebro para nos iludir ou anarquizar -
além de normalmente serem confessos, mal
dirigidos e cheios de simbolismo arcaico. E não
temos defesa contra o sono ou sonho. Nosso direito
fundamental a ser consciente é desrespeitado
todos os dias, sistematicamente. A
gente devia poder negociar nossa pena. Trocar
o resto da nossa sentença por boas ações.
Eu me comprometeria a só usar meu tempo
recuperado do sono para fins nobres, como ler
meus livros. Que se amontoam na mesa da cabeceira,
testemunhas mudas do desperdício, que é
pior castigo que o sono. Sem falar, claro, na
humilhação, nas posições
ridículas e nos roncos de suínos.
|