| O
poder de cura do "alto-astral"
Michael
D. Lemonick
Revista
Time
.
| Estar
bem disposto e animado pode ser uma medicina
poderosa. Veja como isso pode se aplicar
ao seu dia-a-dia
|
Bill
Valvo sentia que havia algo muito errado com sua
saúde. Ele trabalhou para uma companhia de desenvolvimento
de softwares em Fairfax (Virgínia) durante 10
anos, isso após servir na Força Aérea por mais
de 22 anos, mas a pressão era tão forte que acabou
desistindo. "Pedi demissão e resolvi iniciar
o meu próprio negócio", conta Valvo, hoje
com 55 anos, "mas eu podia sentir que todo
aquele estresse estava tendo efeitos fisiológicos
sobre a minha pessoa". Tinha toda razão,
uma vez que os médicos que o atenderam diagnosticaram
uma doença da artéria coronária e que teve que
ser operado por conta disso em 1999.
Mas,
depois da operação, mergulhou numa grave
depressão. Esta diminuiu após um certo tempo mas
recrudesceu em seguida, voltando com força redobrada.
Finalmente, o médico de Valvo lhe receitou um
antidepressivo - o qual não só aliviou a sua depressão
como também o converteu a novas formas de pensar
sobre a doença e a saúde e de lidar com elas.
"Será que a minha operação do coração provocou
a depressão da qual andei sofrendo?", escreveu
ele, recentemente, num artigo para um grupo de
discussão formado por integrantes do Mended Hearts
(Corações Consertados), um grupo de apoio aos
que sofrem de alguma doença do coração e às suas
famílias. "Será que a depressão provoca doenças
do coração? A resposta a essas duas questões é:
provavelmente sim".
Alguns
anos atrás, os médicos teriam desautorizado Bill
Valvo, considerando-o como mais um excêntrico
da nova era. Mas, atualmente, a sua tese está
solidamente ancorada na corrente dominante da
medicina.
Com
efeito, cada vez mais os médicos - e os seus pacientes
- reconhecem que os estados mentais e o bem-estar
físico estão intimamente ligados. Segundo eles,
um corpo atingido por enfermidades pode causar
doenças da mente, enquanto uma doença mental pode
provocar ou piorar enfermidades no corpo. Além
disso, sanar um problema num dos dois lados ajuda
com freqüência a resolver problemas no outro.
Afinal,
o cérebro é um órgão como todos os outros. Opera
em função dos mesmos princípios bioquímicos que
a tiróide ou o baço. Os impulsos que vivenciamos
como sensações, boas ou ruins, não passam, no
nível celular, do resultado de uma interação complexa
de atividades químicas e elétricas. A depressão
representa um desequilíbrio nessa interação, o
qual pode matar de uma maneira tão direta que
as mais evidentes moléstias físicas.
Estima-se
que, nos Estados Unidos, anualmente, cerca de
30 mil pessoas cometem suicídio, enquanto a imensa
maioria desses casos é atribuída à depressão.
Mas o custo físico da depressão vai muito além
do número de pessoas que acabam com a sua própria
vida e muito além também do impacto que ela exerce
sobre os relacionamentos e a produtividade das
pessoas (calcula-se que custa à economia americana
cerca de US$ 50 bilhões por ano).
A
patologia da depressão evidencia, com uma clareza
toda especial, que mente e corpo não estão de
forma alguma separados; ao contrário, eles fazem
parte de um mesmo sistema. No caso da depressão,
esta interconectividade toma formas insidiosas,
inclusive a de tornar outras doenças graves ainda
piores, conferindo-lhes uma intensidade dramática.
Uma vez que você foi vítima de um ataque do coração,
por exemplo, o risco que você passa a ter de morrer
de uma doença cardiovascular é de quatro a seis
vezes maior se você também sofre de depressão.
Isso
não se deve apenas ao fato de que as pessoas tendem
a estar mais deprimidas por estarem acometidas
de uma doença mortalmente grave, ou ainda ao fato
de que pessoas depressivas fumam, estão por demais
letárgicas para se lembrarem de tomar os seus
medicamentos ou ainda perderam a motivação para
se alimentar corretamente ou praticar exercícios.
"Mesmo quando levamos esses fatores em consideração",
explica o médico Dwight Evans, um professor de
psiquiatria, medicina e neurociência na Universidade
da Pensilvânia, "a depressão surge como um
fator de risco independente para as doenças do
coração. Ela pode ser tão ruim como o colesterol".
As
doenças do coração são apenas algumas das moléstias,
em meio a uma longa lista, que pioram com a depressão.
Ao que tudo indica, pessoas acometidas de doenças
tão terríveis como o câncer, diabetes, epilepsia
e osteoporose correm um risco muito maior de sofrer
de alguma incapacidade ou de morrer de maneira
prematura quando estão clinicamente depressivas.
O efeito é potencialmente tão significativo que
a classe médica como um todo começou a concentrar
suas atenções de maneira muito séria sobre o problema,
dedicando importantes recursos para tentar entender
o que está acontecendo e resolver os problemas.
Numa
conferência nacional em Washington, em novembro,
o doutor Evans atuou como um dos coordenadores
de um encontro, patrocinado pela organização sem
fins lucrativos Depression and Bipolar Support
Alliance (DBSA - Aliança de apoio às vítimas de
doenças depressivas e bipolares), com objetivo
de ter um conhecimento melhor da gravidade e da
extensão do problema. Durante dois dias, especialistas
em câncer, aids, doenças do coração, diabetes
e outras doenças, acompanhados por advogados pacientes,
ouviram explicações e demonstrações provando que
a depressão está profundamente ligada a cada uma
das doenças mencionadas.
Felizmente,
os cientistas já fizeram grandes progressos na
tarefa de detectar e selecionar as causas subjacentes
da depressão: eles têm quase toda certeza de que
se trata de uma disfunção que ocorre em alguma
combinação de genes chaves, e que é desencadeada
por um meio-ambiente favorável. Além disso, os
pesquisadores já vêm trabalhando, há tempo, no
desenvolvimento de algumas terapias promissoras,
sejam elas farmacológicas ou pertencentes a outros
campos da medicina, para complementar os remédios
que já estão disponíveis.
No
entanto, enquanto as conexões entre as doenças
e a depressão estão se tornando cada vez mais
claras, a questão de saber como separá-las uma
das outras continua sendo um terreno totalmente
inexplorado. "A tendência seria de achar
que um tratamento poderia alterar a relação negativa
existente entre a depressão e a outra doença",
comenta o médico Dennis Charney, diretor de pesquisas
sobre as desordens do temperamento e a ansiedade
no National Institute of Mental Health (NIMH -
Instituto nacional de saúde mental). Mas, ele
acrescenta, com uma ressalva tipicamente científica:
"ainda não encontramos uma prova irrefutável
disso".
Contudo,
a premissa básica segundo a qual o fato de se
tratar a depressão poderia diminuir a severidade
de outras doenças já se tornou consenso no campo
da bioquímica. A experiência cotidiana deixa claro
que a química cerebral, longe de se limitar às
emoções, tem um comando e um alcance muito maiores
sobre o organismo. Quando a sua mente experimenta
uma sensação de terror, a subida de adrenalina
que dela resulta deixa o seu estômago atordoado.
Quando a sua mente é sexualmente estimulada, o
corpo responde de uma forma que não deixa dúvidas.
O
efeito é ainda mais evidente e direto quando os
cerca de 60 elementos químicos conhecidos como
neurotransmissores, que têm como função, entre
outras, informar a uma célula de que a sua vizinha
acaba de faiscar e que ela deve passar a mensagem
para frente. Certos elementos químicos do cérebro
tais como a serotonina circulam por todo o organismo,
e não só no cérebro. "A depressão é realmente
uma desordem sistêmica", explica Dwight Evans,
"e muitos dos neurotransmissores que, conforme
pudemos detectar, têm um envolvimento direto com
a patologia e a fisiologia da depressão, exercem
efeitos em todo o corpo".
Os
cientistas ainda não descobriram como, precisamente,
esses poderosos agentes químicos afetam a evolução
das doenças do coração, do câncer e de outras
doenças, mas pesquisas preliminares desvendaram
alguns indícios assustadores. Quando a serotonina
circula no sistema sanguíneo, por exemplo, tudo
indica que ela torna as plaquetas sanguíneas menos
grudentas e portanto menos propensas a se aglutinarem
entre elas para formar coágulos sanguíneos que
bloqueiam as artérias. Durante anos, os sobreviventes
de ataques do coração foram aconselhados a tomar
diariamente aspirina para crianças, para a prevenção
dos coágulos; hoje, certos remédios, como o Prozac,
que mantém a serotonina circulando no organismo,
parecem ter um efeito similar.
Nesse
processo, um outro mecanismo também pode estar
atuando. Ocorre que os batimentos do coração de
uma pessoa que sofre de depressão são excepcionalmente
estáveis. "Isso não é necessariamente uma
coisa boa", diz Dennis Charney, que também
foi um dos coordenadores da conferência da DBSA.
"Em condições ideais, os batimentos cardíacos
de uma pessoa precisam ser variáveis - o que significa
que o seu coração pode reagir de modo apropriado
às diversas tarefas e situações às quais ele é
chamado a responder".
Além
desta, existe uma outra ligação possível entre
as doenças do coração e a depressão, que pode
se dar por meio de um agente químico chamado proteína
C-reativa (CRP). O fígado produz normalmente a
CRP em resposta a um alerta dado pelo sistema
imunológico, quando o corpo está infectado ou
ferido, e a CRP está associada à inflamação que
resulta de toda ferida. Contudo, por razões ainda
desconhecidas, uma pesquisa recente sobre indivíduos
depressivos encontrou níveis elevados de CRP no
organismo em condições normais.
Além
disso, em pacientes cujas artérias foram danificadas
pela formação de placas de colesterol, uma inflamação
mais intensa pode aumentar as chances de ver pedaços
de placa se quebrarem e entupirem uma artéria.
A
diabetes é outra doença que não se dá bem com
a depressão. Não é segredo que 10% dos homens
diabéticos e 20% das mulheres diabéticas sofrem
também de depressão - isto é, o dobro da taxa
verificada na população em geral. É natural sentir-se
deprimido por sofrer de uma doença crônica e potencialmente
fatal, mas isso não explica completamente essa
discrepância. Além disso, os diabéticos depressivos
são muito mais propensos do que aqueles que não
são acometidos de depressão a sofrer complicações
que incluem doenças do coração, danos do sistema
nervoso e cegueira.
Outros
exemplos: de uma maneira ou de outra, a depressão
torna o organismo menos sensível à insulina, o
hormônio que processa a glicemia - possivelmente
por causa da ação do cortisol, um hormônio que
pode interferir com a sensibilidade da insulina
e que se encontra com freqüência em taxas elevadas
em pacientes depressivos. O cortisol também pode
tornar pacientes depressivos mais propensos a
sofrer de osteoporose. Estudos desenvolvidos pelos
médicos Philip Gold e Giovanni Cizza no the NIMH
(Instituto nacional de saúde mental) mostraram
que mulheres na pré-menopausa e que estão depressivas
apresentam uma taxa muito mais elevada de perda
de substâncias ósseas que as mulheres que se encontram
na mesma condição mas sem ser depressivas - e,
além disso, essa disparidade aumenta na medida
que as mulheres entram na menopausa.
Com
efeito, Giovanni Cizza estima que cerca de 350
mil mulheres, anualmente, passam a sofrer de osteoporose
por causa da depressão. Tudo indica que o cortisol
interfere com a habilidade dos ossos a absorverem
cálcio e compensar assim a perda natural de cálcio
que resulta da menopausa e do envelhecimento.
A citocinina pró-inflamatória, pertencente a uma
outra classe de agentes químicos, também estaria
envolvida nos processos de formação da osteoporose
e da diabetes, mas o seu papel ainda não foi explicado
claramente.
Outros
estudos estabeleceram vinculações entre a incidência
da depressão e muitas outras doenças, tais como
o câncer, a doença de Parkinson, a epilepsia,
o derrame cerebral e a doença de Alzheimer. Em
pelo menos alguns desses casos, os pesquisadores
encontraram indícios, e até mesmo a evidência
definitiva, de um papel importante desempenhado
por determinadas moléculas no processo. No caso
da doença de Parkinson, o problema ocorre com
a morte de células no cérebro que produzem um
certo tipo de neurotransmissor, chamado dopamina.
Enquanto a dopamina é crucial para o controle
dos movimentos, ele é provavelmente um fator igualmente
decisivo sobre o humor. "Estamos praticamente
certos de que a depressão tem causas múltiplas
que produzem sintomas similares", observa
o médico Bruce Cohen, presidente do hospital McLean
em Belmont (Massachussets).
Isso
poderia explicar por que certos remédios destinados
a incrementar a química da serotonina nem sempre
agem sobre a depressão - e por que a doença de
Parkinson e a depressão podem se alimentar mutuamente.
A epilepsia, o derrame cerebral e a doença de
Alzheimer, a qual, da mesma forma que a doença
de Parkinson, provoca alterações físicas do cérebro,
são todas moléstias que provavelmente afetam também
a capacidade deste órgão de fabricar ou processar
neurotransmissores - e não só a serotonina e a
dopamina como também o glutamato e a norepinefrina,
todas as quais podem estar ligadas a formas diversas
de depressão.
A
maioria dos tratamentos para a depressão visa
a compensar o desequilíbrio eletroquímico que
leva o cérebro depressivo a ter pensamentos deformados.
Os remédios antidepressivos ditos "tricíclicos",
bastante populares nos anos 60, por exemplo, aumentavam
a atividade de dois neurotransmissores, a serotonina
e a norepinefrina, e de dois outros neurotransmissores
que atuam em todo o organismo. Isso diminuía com
freqüência a depressão mas causava efeitos colaterais,
inclusive uma sonolência irresistível, distúrbios
da visão e vertigem. Esses remédios também se
revelaram potencialmente letais quando ingeridos
em doses excessivas.
Então,
nos anos 70, os farmacologistas especializados
em neurociência descobriram que eles poderiam
minimizar os efeitos colaterais ao concentrar
a ação do remédio apenas sobre a serotonina. Remédios
antidepressivos como Prozac, Paxil e Zoloft, conhecidos
por serem inibidores seletivos de reassimilação
da serotonina (cuja sigla em inglês é Ssris),
foram desenvolvidos para impedir que a serotonina
seja reabsorvida de forma muito rápida dentro
das células nervosas quando ela é produzida, o
que a impede de exercer a sua função a contento.
Enquanto
isso, a terapia de convulsão por eletrochoque
(ECT), melhor conhecida como tratamento de choque,
reinstaura a corrente elétrica dentro do encéfalo
ao induzir uma perda de consciência e, em seguida,
convulsões. Apesar da lúgubre reputação da ECT,
ela envolve doses reduzidas de corrente elétrica
e pode ser extremamente bem-sucedida, a tal ponto
que parece ser milagrosa em pacientes cuja
depressão resiste aos tratamentos por meio de
remédios. Até mesmo a boa e velha terapia da conversação,
que parece hoje tão antiquada e rudimentar, pode
ajudar a reequilibrar a química do encéfalo do
paciente e a reduzir a severidade da depressão,
especialmente quando associada a outros tratamentos.
Infelizmente,
as pesquisas que poderiam ajudar a desvendar as
inter-relações existentes da depressão com outras
doenças apenas começaram. Embora exista um forte
vínculo estatístico entre a depressão e a epilepsia,
por exemplo, sabe-se muito pouco a respeito de
como tratar a depressão em pacientes epiléticos.
Alm disso, assim como notou o doutor Dennis Charney,
ainda não foi comprovado, no sentido puramente
científico, que implica numa abordagem rigorosa,
que o fato de se tratar a depressão reduzirá os
riscos excessivos de complicações ou de morte
em função de uma doença co-existente no organismo.
Mas,
se os tratamentos da depressão buscam reequilibrar
a bioquímica do organismo, a qual pode agravar
doenças existentes quando desajustada, há excelentes
razões de se pensar que eles reduzirão conseqüentemente
o seu impacto mortífero. É por isso que Charney,
Evans e outros especialistas querem tornar os
médicos mais conscientes da estreita conexão que
existe entre a depressão e outras doenças.
"Quando
você dispõe de oito minutos apenas para expor
os seus problemas ao seu médico habitual",
diz Lydia Lewis, presidenta da Aliança de Apoio
às Vítimas de Doenças Depressivas e Bipolares
(DBSA)," fica bastante difícil abordar os
diversos aspectos da depressão e ir ao cerne da
questão. Além disso, quando você vai consultar
um especialista, como um cardiologista, por exemplo,
este se limitará apenas às questões que dizem
respeito ao seu coração".
Então,
enquanto os pesquisadores participam de conferências,
desenvolvem estudos e escrevem artigos eruditos,
Lydia Lewis tem uma sugestão mais prática e imediata
para os pacientes. "Precisamos incentivar
as pessoas a fazerem perguntas sobre essas questões
quando elas se consultam os seus médicos",
afirma.
Bill
Valvo, por sua vez, não poderia estar mais de
acordo com esta afirmação. "Acho que as pessoas
estão totalmente desinformadas do que está acontecendo",
diz, "e estou convencido de que a educação
é um elemento chave do que precisa ser feito".
A essência desta educação se resume ao conceito
seguinte: cure primeiro a sua mente, e você poderá
ajudar com isso a salvar o seu corpo.
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