Aprenda Semiologia com Dr. Joubert Barbosa (1942)

"Maneiras de examinar as funções mentais"

TESTE DE BINET-SIMON-BURT


ONZE ANOS

DESCOBRIR O ABSURDO.

        Processo: O examinador dirá: “Atenda cuidadosamente ao que eu vou dizer. Há nisso alguma coisa de tolice. Diga-me depois que é que não está direito:

1º - Outro dia um homem caiu da bicicleta de cabeça para baixo e morreu IMEDIATAMENTE. Levaram-no para o hospital e receia-se que ele não fique bom. Que há de tolice nesta frase?

2º - Tenho três irmãos. Eu, João e Tomaz. Qual é a tolice?

3º - Ontem houve um desastre de estrada de ferro, mas não foi muito sério. Morreram somente quarenta e oito pessoas. Qual é a tolice?

4º - Encontraram no mato o corpo de uma moça cortado em 18 pedaços. Dizem que ela se suicidou. Qual é a tolice?

5º - Se eu algum dia ficasse desesperado e me suicidasse, não escolheria um dia de sexta-feira, porque sexta-feira é um dia aziago e me traria infelicidade. Qual é a tolice?”

        Avaliação: Exige-se a descoberta de três absurdos dentre os cinco. Burt enumera respostas satisfatórias e não aceitáveis. Isso não nos importa agora, pois ainda é mister estandardizar esta fórmula portuguesa. O examinador escreverá por extenso a resposta do examinando. A resposta deve encerrar a compreensão clara do disparate que existe na pergunta. Burt julga, por exemplo, inaceitável a resposta: “Deviam tê-lo levado para o necrotério”, dada à primeira pergunta. Parece, todavia, que o paciente compreendeu claramente que era impossível ficar bom se já tinha morrido. Na 2ª pergunta, se o examinando disser “eu”, o examinador dirá: “que é que tem?”...

         Esta mesma pergunta só fará, se o examinando disser: morreu (na 1ª); foi sério (na 3ª); ele não podia se matar (na 4ª); infelicidade (na 5ª) ou outras semelhantes. Não se permite, porém, outro qualquer auxílio, nem repetição da pergunta.

         Deve-se tomar nota da reação emocional do paciente, ao ouvir cada pergunta.

RESPONDER QUESTÕES DIFÍCEIS

        Processo: "Você me diga o seguinte":

1º - Que é que você faz quando está quase passando da hora de chegar à escola?

2º - Se alguém lhe perguntar o que é que você pensa de um menino que você não conhece bem, que é que você responde?
(Se o examinado for menina, dir-se-á: pensa de uma menina).

3º - Suponha que um menino nos faz uma indelicadeza: porque é que nós perdoamos mais facilmente se ele está zangado do que se o não está (diga menina se for o caso)?

4º - Porque devemos julgar uma pessoa pelo que ela faz e não pelo que ela diz?

5º - Suponha que você tem de empreender alguma coisa muito importante: que é que você deve fazer antes de tudo?

        As questões podem ser repetidas uma vez, mas com as mesmas palavras.

         Avaliação: Devem ser respondidas satisfatoriamente três questões, gastando o paciente 20 segundos em refletir em cada uma das cinco.

         O professor, como no teste anterior, lançará, por extenso, a resposta do examinando.

         Deve-se ter muito em vista as seguintes bases relativas a cada resposta do paciente, que será satisfatória se encerrar: na 1ª - idéia de se apressar; na 2ª - idéia de necessidade de procurar saber ou de não dar opinião; na 3ª - idéia de que a cólera deve constituir uma desculpa; na 4ª - idéia de que as palavras enganam mais que a ação; na 5ª - idéia de preparação preliminar, reflexão, prática, etc.

         Deve-se anotar na fórmula a reação emocional do examinando, o que ajudará a traduzir suas respostas, naturalmente mal expressas.

DAR SESSENTA PALAVRAS EM TRÊS MINUTOS.

        Processo: “Você agora vai dizer-me o maior número possível de palavras em três minutos. Algumas pessoas dizem até mais de duzentas palavras.
         Diga palavras como estas até que eu o mande parar: calça, planta, livro, fonte, etc. como você quiser. Está pronto? Agora vamos, comece!”


         Se o paciente parar, deve-se animá-lo, dizendo: “Muito bem, continue!”

         Esta fórmula deve ser cuidadosamente pronunciada a todos os examinandos, tendo muito em conta a referência às 200 palavras e a enumeração dos quatro substantivos.

         Se o examinando diz uma frase, observe-se: “Você tem de dizer palavras separadas”.

         Avaliação: Exigem-se 60 palavras, exclusive as repetições.

         Tomar-se-á nota do número de palavras dadas em cada meio minuto, nos espaços da fórmula.

         Note-se na fórmula se o examinando diz palavras que não são substantivos comuns. Registrem-se as palavras de saliente expressão da mentalidade do paciente. Seria de grande utilidade escrevê-las todas a fim de orientar o estudo dos tipos associativos.

         Será de grande utilidade fazerem os examinadores um trabalho suplementar, mandando os pacientes já examinados pelo teste, escrever o maior número possível de palavras, em minutos, em papel que será anexado à fórmula. Isso se fará em turmas, simplificando o serviço.

REPETIR NÚMEROS.

        Processo: “Preste atenção e diga estes números depois de mim: 9-6-8-4-7-5-1;-4-8-2-0-3-6-5;-5-9-2-8-1-3-6”.

        Avaliação: Exige-se uma repetição, dentre os três grupos de algarismos. O examinador registrará a ordem em que o paciente repete os números.

CONSTRUIR UMA SENTENÇA COM TRÊS PALAVRAS.

        Processo: Mostrando a parte em branco da fórmula e dando papel, caneta e um cartão com as palavras – Rio de Janeiro, dinheiro, porto, dir-se-á ao paciente: “Desejo que você escreva uma sentença em que entrem estas três palavras: Rio de Janeiro, dinheiro e porto.” Entregando o cartão ao examinando se repetirá: “Rio de Janeiro, dinheiro, porto. Escreva uma sentença contendo estas três palavras”.

        A
valiação: O teste durará um minuto e 15 segundos. Nesta idade, como ficou dito, o examinando fará uma só frase, como: “No porto do Rio de Janeiro ganha-se, ou ganhou-se muito dinheiro na construção do porto do Rio de Janeiro” ou outras muitas, contanto que haja uma só frase.


DOZE ANOS

DAR RIMAS.

        Processo: O examinador dirá: “Você sabe que é uma rima? Quando duas palavras acabam no mesmo som, nós as chamamos rimas. Bom, rima com som porque termina em on. Entendeu? Agora você diga três palavras que rimem com amor.”

         Avaliação: O paciente deve dar três palavras de rima perfeita, em 1 minuto. Deve-se registrar na fórmula as palavras. Se o paciente não responder ou se não completar as rimas, diga-se: “Que mais, rimando com amor?” Aceitar-se-á desamor como rima.

REORGANIZAR SENTENÇAS DESORDENADAS.

        Processo: Apresenta-se ao paciente as seguintes frases desordenadas, uma de cada vez: - um defende dono cão bom seu corajosamente; - meu pedi exercício para professor a corrigir meu; - partiram o para madrugada hoje eles sertão de.

         Em seguida o examinador dirá:

        “Ponha estas palavras em ordem e diga a sentença que elas formam”.

         Caso o paciente não consiga pôr em ordem as palavras, dir-se-á: “Isso aqui é uma adivinhação: veja se você lê o que este papel diz”. (Neste caso o examinador anotará a circunstância da 2ª instrução).

         Avaliação: Cada frase deve ser organizada em 1 minuto. Exigem-se duas soluções corretas. As respostas devem ser escritas por extenso pelo examinador.

         A primeira sentença perfeita será: “Um bom cão defende seu dono corajosamente” ou as demais formas portuguesas deste pensamento. É aceitável a sentença: “Um cão defende seu bom dono corajosamente.” É inaceitável: “Um dono defende seu bom cão corajosamente.”

         A segunda sentença será: “Pedi a meu professor para corrigir meu exercício.” Também se admite: “A meu professor pedi para corrigir meu exercício.” Ainda: “Pedi meu exercício a meu professor para corrigir.”

         A terceira sentença será: “Eles partiram hoje de madrugada para o sertão”. Também se admite: “Partiram eles, etc.”. “Para o sertão partiram eles, etc”. “Hoje de madrugada,etc.”

DESCREVER QUADROS (INTERPRETAÇÃO).

        Material:Três quadros simples.

        Processo: “Olhe este quadro e diga o que você puder a respeito dele”. Repete-se a pergunta uma vez só, em cada quadro, animando-se o paciente, se se percebe que ele não responde, por acanhamento. Neste caso, se dirá: “Não é uma bela figura? Você não gostou dela? Vamos, muito bem!...

        Avaliação: Neste teste o examinando deve dar mais que a descrição material dos objetos. Exprimirá a situação e os atos, além das emoções dos elementos componentes das figuras. Para estandardizar o teste é indispensável que a resposta completa seja registrada pelo examinador.

         Nesta idade o examinador dirá:
I) Estão se mudando. Têm uma carga pesada. Não podem pagar o aluguel.
II) Não têm casa. Miseráveis. Pobres. Estão rezando. A filha está junto dele. Um homem aflito.
III) Um preso. Ele quer sair. Ele quer ver o que está no pátio. Ele está sozinho. Está pensando. Um homem num navio. (Exige-se a interpretação de dois quadros).


TREZE ANOS

RESISTIR À SUGESTÃO.

        Processo: Com os pares de linhas da figura ao lado, o examinador dirá, apresentando os três primeiros, um a um:

         “Qual destas duas linhas é mais longa?” Apresentando cada um dos três pares finais, dirá: “E destas?”

         O operador terá cuidado de não mudar o tom da voz.

         Avaliação: Considera-se o paciente aprovado neste teste se afirma que são iguais dois dos três últimos pares. Deve-se registrar a resposta desde o primeiro par, podendo fazê-lo com os sinais mais (+) e menos (-). Anotar-se-á se o paciente errou por pressa, precipitação, desatenção, ou se obedeceu à sugestão, imediatamente, ou ainda, se respondeu após um exame detido das linhas.

         Anote-se a atitude do examinado, cuidadosamente.

TIRAR CONCLUSÕES DE CIRCUNSTÂNCIAS APRESENTADAS.

        Processo: “Veja se você decifra o seguinte enigma:

1º Certo dia uma mulher que passeava no Alto da Boa Vista, parou muda e terrivelmente amedrontada. Depois correu até o posto policial mais próximo e disse ao sargento que acabava de ver dependurado no galho de uma árvore, um... que pensa você que ela viu?

2º Meu vizinho de parede e meia recebeu três visitas. Primeiramente veio um médico, depois, um advogado e depois, um padre. Que pensa você que aconteceu lá?”

        Avaliação: Ambas as questões devem ser respondidas corretamente. A resposta à 1ª questão deve encerrar a idéia de enforcamento. Não basta dizer um homem, uma pessoa morta. Neste caso se perguntará: “Como foi que ele ficou assim na árvore?”

         A resposta à segunda questão deve encerrar idéia de morte ou de moléstia muito grave. Não basta a resposta: ele está doente.

         Para o processo de estandardização, é absolutamente necessário que se registre, por extenso, a resposta do sujeito, com as explicações.

         Alguns examinandos têm respondido à primeira questão: “Um ladrão; um macaco; um espírito; um furto; um menino a amedrontá-la”.

         Neste caso, se diga: “Ela não era uma mulher tola... Que foi então que ela viu?”

         Registre-se na fórmula esta segunda tentativa.

         À segunda questão, têm respondido alguns: barulho; assassinato; uma conversa discutindo com outro; um casamento. A grande maioria responde: morreram lá; doença mental, etc. Quando responderem incorretamente, diga-se “Que é que têm com isso as pessoas?”


QUATORZE ANOS

REPETIR SÍLABAS.

        Processo: O experimentador dirá: “Preste atenção e diga isto depois de mim:”

        
OUTRO DIA EU VI NA RUA UM CÃOZINHO PRETO.

         JOÃO JÁ MANCHOU O AVENTAL NOVO.

         Se o paciente não repetir, diga: “Nunca devemos ser cruéis com os pássaros. É de noite e nós todos vamos para a cama.” Se não repetir, diga: “Marina rompeu agora o vestido; eu dei dois tostões àquele pobre.” Se repetir, volte à primeira frase.

        Avaliação: Não é admitido erro algum, salvo decorrente de defeito físico ou psíquico de pronúncia.

DEFINIR TERMOS ABSTRATOS.

        Processo: Perguntar-se-á: “Que significa I) Bondade; - II) Justiça; - III) Caridade”.

         Avaliação: Exigem-se duas definições corretas. O professor registrará cuidadosamente as definições, para efeito de estandardização.

        Tipos de respostas corretas:

I) ser delicado; ser afetuoso; ser generoso para com os outros; ter coração generoso. É preciso que o examinando indique a atitude de ternura, afeição, etc. – para com outrem. Se disser: “ser bom”; “fazer alguma coisa boa”, não é apurado.
II) Deve ser a idéia de tratar de acordo com o merecimento; assim: “punir as pessoas más”... “tratar sério”.
III) Deve dar a idéia de bondade para com os pobres: “dar algum dinheiro a algum pobre”, etc.

        Se o paciente responde: "bondade é ser bom", diga: “Sim, que significa isso?”


QUINZE ANOS

DESENHAR DE MEMÓRIA CORTES EM PAPEL DOBRADO.

        Processo: O operador terá duas folhas de papel de 10 centímetros em quadro. Uma das folhas ficará intacta sobre a mesa do examinando com um lápis. A outra terá sido dobrada em quatro e se terá feito um ângulo na dobra exterior, como se acha na ao lado. O examinador dirá depois de abri-la, dobrando-a de novo “Eis aqui uma folha de papel que vou dobrar em quatro. Suponha que eu agora dou este corte aqui neste lugar. Se desdobrarmos o papel, novamente, que veremos aí? Mostre-me nesta folha de papel como e onde seria o corte.”


         O examinador colocará o papel de modo que os cantos dobrados fiquem virados para o examinando, deixando em posição tal que o ângulo representativo do suposto corte fique bem visível. O examinando não pode tocar no papel dobrado, nem dobrar a folha que recebeu. O operador deve ter cuidado de não falar, em furos ou buracos no papel.

         Avaliação: O paciente deverá traçar dois losangos no centro das duas metades do papel (superior e inferior ou laterais), ficando eles em linha horizontal ou vertical.

DAR DIFERENÇAS ENTRE TERMOS ABSTRATOS.

        Processo: Qual é a diferença entre: I) prazer e felicidade. II) pobreza e miséria. III) evolução e revolução...

         Avaliação: O paciente deve dar a diferença em dois dos três pares. O experimentador deve registrar cuidadosamente as respostas.

         Como elemento de avaliação: I) Felicidade é superior ou mais geral que prazer; mais duradoura, etc. II) Pobreza é ter pouco dinheiro; miséria é passar necessidade; mendigar, etc. III) Revolução, transformação violenta; evolução, transformação lenta. Binet admite: evolução, movimento de tropa; revolução, insurreição.Terman só aceita as diferenças reais.

DESENHAR TRIÂNGULOS INVERTIDOS.

Figura 1

Figura 2
        Processo: O professor usará cartão (figura 1) e dirá ao aluno: “Olhe atentamente para a metade inferior deste cartão. Suponha que eu vire e ponha este lado ao longo deste outro (mostram-se as linhas AC e AB, como se vê na figura 2 sem mover o cartão). Agora suponha que este canto (C) é colocado exatamente neste ponto (B). (O professor não dirá as letras, apenas mostrará os pontos). Que figura daria isto?”

         Agora vamos esconder esta parte: Imagine-a colocada como eu lhe disse e desenhe sua forma nessa posição. Comece desenhando a forma do triângulo superior.

         Avaliação: O examinando traçará o representado na segunda figura da figura 2.

DEZESSEIS ANOS

RESUMIR AS REFLEXÕES DE HERVIEU SOBRE A VIDA.

        Processo: Atenda cuidadosamente ao que eu vou ler. Quando eu acabar quero que você diga em suas palavras o SENTIDO do que eu tiver lido. Preste atenção:

         “Muitas opiniões têm sido dadas acerca do valor da vida. Alguns dizem que ela é boa; outros, que é má. É mais verdadeiro dizer que ela é mediana, porque, de um lado, a FELICIDADE que ela nos proporciona nunca é tão grande como NÓS desejaríamos e, de outro lado, as DESGRAÇAS que ela nos traz nunca são tão grandes como NOSSOS INIMIGOS queriam que nós as sofrêssemos. É esta mediania que a torna razoável ou, pelo menos, evita que ela seja totalmente má”.

         Agora veja se você pode dizer-me em suas palavras o sentido do que acabo de ler.


         O examinador dará ênfase especial às palavras em versalete no trecho lido.

         Avaliação: Devem ser reproduzidas as três idéias centrais:

I) A vida não boa nem má: é mediana;
II) Ela não é tão boa como nós desejamos;
III) É melhor do que os outros nos desejam.

        Não se deve levar em conta a forma da resposta. O examinador registrará literalmente a resposta, com os aumentos que o examinando fizer. Verá se ele falhou por falta de compreensão das idéias abstratas, ou de falta de memória.

DAR a DIFERENÇA entre PRESIDENTE e REI.

        Processo: "Há três principais diferenças entre um Presidente de República e um Rei. Diga-me quais são elas".

         Avaliação: Exigem-se duas diferenças, das seguintes:

I) O Rei herda coroa ou tem sangue real; o Presidente é eleito.
II) O Rei é vitalício; o Presidente é por um prazo.
III) O Rei não é diretamente responsável perante o povo; o Presidente o é.

        O examinador registrará, rigorosamente, as respostas.

         Terminado o exame, verifica-se o número de testes resolvidos satisfatoriamente. Vê-se, em seguida, na tabela abaixo esse número e o da coluna dos anos cronológicos. Corre-se depois a vista até o alto e vê-se a fração que se acha verticalmente sobre o número de testes alcançado. Esta fração junta ao número de anos, indica a idade mental do examinando.