Aprenda Semiologia com Dr. Joubert Barbosa (1942)

"Maneiras de examinar as funções mentais"

SEMIOLOGIA PSIQUIÁTRICA E PSICOPATOLOGIA INFANTIL

        Diante de um caso de reação psíquica anormal em criança, deve-se utilizar vários recursos que possam oferecer a semiologia psiquiátrica. Há, entretanto, certas particularidades do caráter do menor que exigem métodos especiais de pesquisa.

         Entre as provas que podem ser úteis destacamos o questionário de Woodworth-Mathws, o teste de May e Hartshorme bem como as provas de Fernald-Jacobson e de Pressey-Heuyer, todos com modificações introduzidas por nós. São provas que, de um modo geral, servem para o estudo da personalidade infantil, visando algumas, entretanto, de maneira particular, a delinqüência infantil.

         Mas é sobretudo o Inquérito Social que fornece os melhores elementos. Sua realização deve competir ao médico ou à assistente social.

         Discute-se, muitas vezes, sobre o local mais conveniente à realização do inquérito. Uns vêem vantagens quando o inquérito social é realizado na sede dos Serviços de Assistência a Menores. Alegam, então, que o ambiente da clínica dá mais conforto e mais liberdade ao informante. Não pensamos assim. As informações colhidas fora da sede dos Serviços permitem observar mais diretamente o meio em que vive o menor. Além disso, é comum constatar-se que o aspecto da repartição pública leva facilmente o informante a imaginar que as soluções dos casos terão o caráter do castigo, visando o menor ou seu responsável. Daí, deturparem as informações, no sentido de transformá-las em defesa prévia.

         Inúmeras dificuldades podem surgir durante as indagações. Entre outras, devemos lembrar a má vontade do informante que se opõe a dar informações amplas, suficientes e verdadeiras. Outras vezes, seu nível intelectual não permite compreender as perguntas ou pelo menos, o trabalho de assistência social.

         Há também pessoas que sentem constrangimento em dizer se há caso de tuberculose ou alcoolismo na família, etc.

         A técnica para realizar um inquérito depende muito mais da orientação prática que teórica. Pode-se, contudo, lembrar que convém iniciar a visita salientando que o inquérito visa conhecer melhor a criança, a fim de que possamos fornecer ensinamentos mais apropriados à defesa da sua saúde e da sua educação.

         Nunca se devem interrogar pai e mãe ao mesmo tempo, bem como um na presença do outro. A presença de estranhos também não é aconselhável.

         Devemos evitar, tanto quanto possível, escrever imediatamente as informações prestadas, limitando-nos a notar uma ou outra resposta.

TESTE DE MAY E HARTSHORME (SENSO ÉTICO)

        MATERIAL – Apresentamos, em folhas separadas, seis grupos de sete perguntas, precedido de uma frase cada grupo, como passamos a ver.

A – UM MENINO HONESTO PODE MENTIR

1. Para não perder o emprego?
2. Para conseguir trabalho?
3. Para ir ao cinema?
4. Se os pais não percebem que ele está mentindo?
5. Para aborrecer outra pessoa?
6. Se o professor é injusto?
7. Para causar uma boa impressão?

B – UM MENINO HONESTO PODE ROUBAR

1. Para conseguir dinheiro?
2. Se já sente fome há uma semana?
3. Se tiver a certeza de que a polícia nada vem a saber?
4. Se o roubo é de coisas sem valor?
5. Se suas roupas estão muito velhas?
6. Se tiver a certeza de que ninguém será prejudicado?
7. Se foi um menino que merece a confiança dos outros?

C – UM MENINO HONESTO PODE TRAPACEAR O JOGO

1. Para ganhar dinheiro?
2. Se as ordens são injustas?
3. Se o patrão não tem confiança nele?
4. Para ganhar fama?
5. Se tiver certeza de que não prejudicará ninguém?
6. Para se divertir?
7. Se não está sendo vigiado?

D – UM MENINO HONESTO PODE RELAXAR O SERVIÇO

1. Se as obrigações a cumprir são muito difíceis?
2. Se as ordens são ordens injustas?
3. Se o patrão não tem confiança nele?
4. Se foi repreendido injustamente?
5. Se não pagam o que o serviço merece?
6. Se tiver pressa para passear?
7. Se pretender abandonar o emprego?

E – UM MENINO DEVE SOCORRER

1. A outro menino que tem necessidade de auxílio?
2. A seu pai ou sua mãe?
3. A um estranho?
4. A qualquer pessoa que necessita de auxílio?
5. A um inimigo?
6. A alguém que tenha lhe feito mal?
7. A um animal?

F – PARA VOCÊ VENCER NA VIDA PRECISA

1. Ter grandes proteções?
2. Ser rico?
3. Mentir?
4. Arranjar dinheiro de qualquer maneira?
5. Ser amigo da polícia?
6. Ser vaidoso?
7. Estudar?

        APLICAÇÃO – Dizemos ao menor: “Você tem aqui um grupo de perguntas. Risque as perguntas que não estão de acordo com o seu modo de pensar”.

         APURAÇÃO – Apreciando cada resposta, podemos orientar o nosso julgamento sobre o senso ético do menor.

PROVA DE FERNALD-JACOBSON

        MATERIAL – Utilizamos seis frases sob forma de perguntas:

Qual é a mais grave?
1. Roubar porque tem fome?
2. Matar para roubar?
3. Agredir o professor porque foi castigado injustamente?
4. Provocar um incêndio por ter fumado em lugar proibido?
5. Matar um colega quando brincava com arma de fogo?
6. Falsificar uma assinatura para arranjar dinheiro?

        APLICAÇÃO – Interrogamos comparando as frases 1, 2,3, etc., segundo as combinações seguintes:
a) 1-3; 2-4; 3-5; 4-6; 5-4; 6-2.
b) 1-4; 2-5; 3-6; 4-5; 5-2; 6-5.
c) 1-5; 2-6; 3-4; 4-3; 5-3; 6-4.
d) 1-6; 2-3; 3-2; 4-2; 5-4; 6-3.
e) 1-2; 2-1; 3-1; 4-1; 5-6; 6-1.

        Convém não utilizar todas as séries (a, b, c, etc.) de combinações de uma só vez. Deve-se guardar certo intervalo de tempo entre uma e outra, a fim de não fatigar o menor.

         À proporção que o menor vai respondendo, anotamos o número da pergunta que ele deu preferência.

        APURAÇÃO – Terminada a prova contamos quantas vezes os números 1, 2, 3, etc. aparecem. É distribuída a incidência de cada número numa ordem decrescente, obtemos a ordem de gravidade das perguntas fornecidas pelo menor.

         Suponhamos que o número 3 aparece nove vezes, o 5 sete vezes, o 2 seis vezes. A ordem da gravidade seria a das perguntas 3, 5, 2, etc.

PROVA DE PRESSEY-HEUYER

        MATERIAL – Consta de impressos contendo o vocabulário abaixo relacionado:

Interesses culturais
Artes
Sim
Não
Geografia
Sim
Não
História
Sim
Não
Línguas
Sim
Não
Literatura
Sim
Não
Física
Sim
Não
Química
Sim
Não
H. Natural
Sim
Não
Aritmética
Sim
Não
Álgebra
Sim
Não

 

Interesses de Trabalho
Comerciante
Sim
Não
Agricultor
Sim
Não
Advogado
Sim
Não
Engenheiro
Sim
Não
Médico
Sim
Não
Chauffeur
Sim
Não
Datilógrafo
Sim
Não
Aviador
Sim
Não
Soldado
Sim
Não
Operário
Sim
Não

 

Interesses Digestivos
Doces
Sim
Não
Frutas
Sim
Não
Presuntos
Sim
Não
Leite
Sim
Não
Carne
Sim
Não
Pastel
Sim
Não
Chocolate
Sim
Não
Vinho
Sim
Não
Queijo
Sim
Não
Peixe
Sim
Não

 

Interesses Artísticos
Música
Sim
Não
Corcovado
Sim
Não
Desenho
Sim
Não
Estátuas
Sim
Não
Piano
Sim
Não
Nascer do Sol
Sim
Não
Pintura
Sim
Não
Construção
Sim
Não
Paisagem
Sim
Não
Fotografia
Sim
Não

 

Interesses Esportivos
Tênis
Sim
Não
Automobilismo
Sim
Não
Natação
Sim
Não
Ginástica
Sim
Não
Remo
Sim
Não
Ciclismo
Sim
Não
Patinação
Sim
Não
Box
Sim
Não
Corrida
Sim
Não
Futebol
Sim
Não

 

Interesses Sexuais
Casamento
Sim
Não
Abraço
Sim
Não
Moça
Sim
Não
Quarto
Sim
Não
Namoro
Sim
Não
Nudez
Sim
Não
Amor
Sim
Não
Mulher
Sim
Não
Beijo
Sim
Não
Carinho
Sim
Não

 

Interesses de Diversões
Cinema
Sim
Não
Sinuca
Sim
Não
Danças
Sim
Não
Teatro
Sim
Não
Piquenique
Sim
Não
Bicicleta
Sim
Não
Excursão
Sim
Não
Baralho
Sim
Não
Circo
Sim
Não
Banho de mar
Sim
Não

 

Interesses Religiosos
Céu
Sim
Não
Igreja
Sim
Não
Sacrifício
Sim
Não
Deus
Sim
Não
Catecismo
Sim
Não
Rezar
Sim
Não
Religião
Sim
Não
Missa
Sim
Não
Santo
Sim
Não
Comunhão
Sim
Não

 

Interesses Mundanos
Visita
Sim
Não
Amigo
Sim
Não
Aniversário
Sim
Não
Carta
Sim
Não
Presente
Sim
Não
Passeio
Sim
Não
Conversa
Sim
Não
Festa
Sim
Não
Felicitações
Sim
Não
Clube
Sim
Não

        APLICAÇÃO – Entregamos ao paciente as várias séries de palavras, pedindo que responda “sim” ou “não”, conforme a palavra lhe agrade ou não.

         APURAÇÃO – As séries onde houver predominância de respostas afirmativas, representam os grupos de interesses do paciente.

INQUÉRITO SOCIAL

        PACIENTE - registro geral, iniciado em, terminado em, nome, sexo, cor, dia e local onde nasceu.

        INFORMANTE – nome, idade, sexo, cor, profissão, religião, nacionalidade, relação com o menor, endereço;

a) Aparência pessoal – Físico (são ou doentio). Apresentação (sujo ou limpo). Psiquismo (grau de instrução. Inteligência inferior, média ou superior, etc.)

b) Maneira de informar
– Espontânea ou solicitada. Loquaz ou evasiva. Com exagero ou com restrições. Informações suspeitas ou fidedignas. Completas ou incompletas (falta de memória, tempo ou vontade).

        HABITAÇÃO – Localização (rua, número, bairro, calçamento, esgoto, iluminação, abastecimento d’água, escola próxima). Tipo (barracão de lata ou de sapê, barracão de telha, casebre de terra batida, casinha não assoalhada, casa de cômodos, pardieiro em ruínas, casa de vila, casa grande própria, casa pequena própria, pensão, hotel). Instalação (compartimentos ocupados, instalação sanitária – banheiro, W.C. - , comum ou própria). Água corrente (comum ou própria). Iluminação (natural ou artificial). Cozinha (própria ou coletiva, local). Aeração. Conservação. Condições em que dorme o menor.

        FAMÍLIA – Legítima. Ilegítima. Separação legal. Separação de fato. Parentesco dos cônjuges. Harmonia conjugal. Tutores. Parentes. Conduta dos parentes próximos. Desorganização. Número de pessoas da família que residem com o menor.
        Pai: nome, idade, nacionalidade, cor, estado civil, religião, profissão, saúde, instrução, inteligência, conduta (nível moral, álcool, jogo, crime), condições econômicas (receita: salário e auxílios, despesas), família do pai (avós e tios) - doenças hereditárias, infecciosas ou mentais, alcoolismo, criminalidade.
        Mãe: nome, idade, nacionalidade, cor, estado civil, religião, profissão (natureza, local e horas de trabalho), saúde (especialmente: gravidez, partos, abortos, idade crítica), instrução, inteligência, conduta (nível moral, álcool, jogo, crime), condições econômicas (receita: salário e auxílios, despesas), família da mãe (avós e tios), doenças hereditárias, infecciosas ou mentais, alcoolismo, criminalidade.
        Irmãos: segundo a ordem de idade – idade, grau de instrução, saúde (convulsões, vertigens, nervosidade, atraso pedagógico ou mental), conduta, profissão, salário, domicílio atual, número de irmãos falecidos.

        AMBIENTE DOMÉSTICO – Mora com os pais, parentes ou estranhos? Existem outras crianças na casa? Quantas e de que idade? Tem hábitos mundanos? Há jogadores vadios, alcoólatras? Presença de vinho ou cerveja à mesa é comum? Fumo? Licenciosidade de costumes ou de palavras? Tendências artísticas, sociais, políticas? Religião? Adaptação social?

        EDUCAÇÃO DA PROLE – Mimos, satisfação dos caprichos, interesse, vigilância eficaz, abandono, descuido, indulgências, desacordo na educação dos filhos, severidade, brutalidade, terrorismo.

         Indique em detalhes os métodos de disciplina empregados pelos pais. Os pais ouvem confidências? Há confiança dos filhos? Os pais autorizam os filhos a trazerem os companheiros a casa?

MENOR

1) Desenvolvimento:

         Condições pré-natais: - condições físicas e mentais de ambos os cônjuges; especial atenção sobre alcoolismo. Distúrbios maternos durante a gravidez: - persistência de regras, vômitos incoercíveis, albuminúria, glicosúria, infecções, eclâmpsia, enxaquecas, alterações do caráter, crises nervosas, aborrecimentos, traumatismos, trabalhos exagerados, intervenção cirúrgica, tentativa de aborto. Tratamentos.

         Parto: - Local. A termo ou prematuro. Fácil ou difícil. Número de horas de trabalho. Natural, fórceps ou cesariana. Anestesia. A criança nasceu em estado de morte aparente? Cianótica? Respirou ou gritou logo após o nascimento? Apresentava sinais de traumatismo craniano? Condições dos olhos. Peso e altura.

         Condições pós-natais: - aleitamento ao seio, artificial; dificuldades de nutrição. Freqüentou creches ou lactários? Primeiros dentes. Com quantos meses se sentou, engatinhou, andou e falou? Particularidades de linguagem; gagueira. Enurese: freqüência, causa, gravidade, duração. Gritos excessivos, medo, raiva. Convulsões, vertigens, cefaléias; época de início, gravidade, duração e freqüência. Idade em que mudou os dentes. Doença: idade em que contraiu, gravidade, complicações, efeitos consecutivos. Afecções dos olhos e dos ouvidos. Operações. Traumatismos.

         Puberdade: - época do aparecimento. Alterações do aspecto somático. Modificações do caráter.

2) Hábitos:

        Sono: - Número de horas, tranqüilo ou agitado. Sonambulismo. Pavor noturno.

         Alimentação: - Apetite normal, exagerado, diminuído ou pervertido. Horário regular. Regime suficiente (quantidade ou qualidade). Caprichoso para comer. Come muito depressa. Abuso de chá ou café. Álcool sob qualquer forma. Fumo.

        Vida sexual.

        Tiques nervosos.

3) Escolaridade:

         Superdotado, débil. Idade em que entrou para a escola e em que aprendeu a ler e escrever. Tempo perdido por doença e vadiagem. Não estuda desde quando: por que motivo. Falta de gosto e inaptidão para certos estudos. Preferências especiais nos estudos. Conduta na escola. Turbulência. Doença. Falta de atração. Indisciplina. Gazetas.

4) Trabalho:

        Em que idade começou a trabalhar. Natureza do trabalho. Tempo de trabalho. Salário. Motivo de saída. Outros empregos. Trabalho atual: natureza, horário e salário. Destino que dá ao dinheiro. Entrega aos pais espontaneamente?

5) Divertimentos:

        Horas de folga passadas em casa; seu emprego. Brinquedos prediletos. Prefere brincar sozinho ou com outras crianças. Interesse pela leitura, gênero preferido. Clubes. Esportes. Jogos de bola. Bilhar. Cinema; gênero de filmes preferido. Férias: como as costuma passar.

6) Companheiros:

        Nomes, idades, são sempre do mesmo grupo ou indivíduos diferentes? Espontaneamente procurados pelo menor? Traços do caráter dos companheiros. Licenciosamente de costumes ou de palavras. Quais os companheiros do período em que surgiram as modificações de conduta?

7) Traços do caráter:

        Afetuoso, indiferente, egoísta, altruísta, invejoso, tendência à calúnia ou à maldade, diligente, útil, voluntarioso, comodista, preguiçoso, social, anti-social, independente, decidido, enérgico, lento, fraco, influenciável, caprichoso, obstinado, capaz ou incapaz de colaborar, disciplinado, autoritário.

         Debilidade moral: mentiroso habitual, ladrão , vadio, vagabundo, chantagista, alcoviteiro, delinqüente sexual, briga, agressão, ameaça, etc.
(Indagar sobre influência ou participação de estranhos).

8) História atual.