Aprenda Semiologia com Dr. Joubert Barbosa (1942)

"Maneiras de examinar as funções mentais"

O EU E A PERSONALIDADE


        O EU é a pessoa enquanto tem consciência de si próprio.

        A idéia do eu é a representação mental que fazemos desse eu.

         Como se constitui tal idéia?

         A idéia do eu abrange essencialmente nosso corpo e nosso espírito substancialmente unidos para formarem o todo natural que é a pessoa humana.

         Nasce a idéia do eu da simples reflexão sobre os estados psicológicos. Daí surge a idéia de um ser uno, idêntico a si mesmo, causa de seus atos. Eu sinto, eu penso, eu atuo.

         Pessoa é um indivíduo dotado de razão e de liberdade. A planta e o animal são também indivíduos.

         Tão somente a pessoa tem o poder de tomar conhecimento e posse de si mesmo, dizendo: EU.

         Personalidade é o atributo de um ser que é pessoa. É atributo exclusivo do homem.
Sob o ponto de vista psicológico, personalidade é um sistema de representação habitual que forma como o campo de visão interior do eu —, numa palavra, o conteúdo da idéia do eu (Dehove). É este último aspecto que nos interessa no momento.

         A confusão e incompreensão que, muitas vezes, surgem decorrem dos dois sentidos de personalidade. Transfere-se, não raramente, para a personalidade metafísica o que convém somente à psicológica.

         Em casos de doenças o sistema de representações que nos referimos acima (personalidade psicológica) pode se alterar, mas a personalidade em si, metafisicamente, continua a mesma.

         A personalidade psicológica, em cada indivíduo, se manifesta pelo caráter.

PATOLOGIA DA PERSONALIDADE

         Despersonalização – O paciente sente, pensa e quer como se fosse outra pessoa. As impressões sensoriais, a voz, as atitudes, etc., tudo parece estranho ao paciente. É fenômeno que se pode observar nas crises graves de depressão maníaco-depressiva.

         Transformação da personalidade – Fenômeno que pode ser normal na época da puberdade, é, entretanto, de caráter mórbido como manifestação inicial da esquizofrenia.

         O paciente mostra-se atormentado por sensações estranhas, alguma coisa de novo invade a sua construção somatopsíquica. Há uma mudança progressiva de sua maneira de ser habitual.

         Nas manifestações gerais delirantes e no início das psicoses agudas se pode observar transformações de personalidade. O paciente se julga, de fato, Pedro I, Alexandre o Grande, etc.

         Desdobramento da personalidade – É próprio da esquizofrenia. O paciente se tem em conta de um indivíduo diferente: teria morrido para ser substituído por outrem. Também sente que existe em seu próprio corpo duas almas. Outras vezes supõe que sua alma está fora do corpo, vagando no espaço.

         Personificação – O paciente se identifica com outras pessoas, objetos ou animais.

         Ecmnésia – O paciente julga viver épocas anteriores da vida, e revela uma conduta semelhante àquela de outros tempos. Torna-se infantil na maneira de sentir, pensar e agir. É o que se observa em alguns casos de histeria e também na esquizofrenia.

PERSONALIDADES PSICOPÁTICAS

Personalidade Psicopática
        A pessoa portadora da “personalidade psicopática” é indivíduo que, sem apresentar abaixamento do nível intelectual e sem sofrer uma verdadeira doença mental revela uma atividade psíquica em equilíbrio instável, facilmente influenciada pelas condições mesológicas desfavoráveis.

         Desde que se rompe este equilíbrio, se vê o indivíduo privado da capacidade de raciocinar normalmente, a ponto de torná-lo irresponsável. A conseqüente alteração da conduta, entretanto, não é tão grave nem tão persistente que exija uma internação prolongada do paciente.

         Pode-se constatar que esta situação:
a) depende de alterações cenestésicas e afetivas, desagradáveis ao paciente;
b) surge quase exclusivamente solicitada por condições que normalmente estimulam a emotividade;
c) não perturba completamente o juízo e o raciocínio;
d) dura apenas alguns dias ou semanas;
e) permite a intervenção eficiente da psicoterapia;
f) aparece precocemente e se manifesta episodicamente no curso da vida.

        É próprio da personalidade a desproporção ou falta de harmonia entre os elementos que a constituem. As reações afetivas são demasiadamente instáveis e, por outro lado, os dados subjetivos influem exageradamente sobre os juízos. Observa-se, nestas condições, uma grande discordância entre o conceito que esses indivíduos fazem de si e dos demais, discordância que também existe entre o ideal que tais indivíduos aspiram e o conceito que os demais formulam a respeito deles.

         Podemos encontrar os seguintes tipos de personalidades psicóticas:

         Personalidade ciclóide – Distinguem-se duas variedades: a hipomaníaca e a pessimista-angustiosa. No primeiro grupo vemos os indivíduos eufóricos, expansivos, comunicativos, simpáticos, sintonizando facilmente com qualquer ambiente. Fazem, facilmente amigos e são tolerantes e conciliantes no que diz respeito à moral. Há tanta facilidade para rir como para chorar, correspondendo a alternativas de excitação e de depressão.

         O pessimista-angustioso também revela inquietação. Tristes presságios povoam seu pensamento. São indivíduos fatalistas, céticos e de exagerada crítica, tendentes ao rancor.

         Trabalham pouco e raramente se mostram otimistas. O que é comum é a inatividade, o parasitismo, terminando, algumas vezes, com o suicídio.

         Personalidade esquizóide – Caracterizam o interesse pelo que é raro e original, a tendência a fugir do meio habitual para melhor viver no mundo interior de suas próprias idéias, sonhos e desejos.

        Kretschmer caracteriza o esquizóide por qualidades que divide em três grupos:

1º, sociabilidade, calma, reserva, carência de humor, extravagância;
2º, timidez, generosidade, firmeza de tato, delicadeza, nervosidade, excitabilidade;
3º,flexibilidade, certa bondade de coração, carência de humor, apatia, embotamento espiritual.

         Estes tipos de personalidade podem desenvolver atividades que levariam a considerá-los como fanáticos, reformadores, idealistas, delinqüentes, etc.

         Personalidade sensitivo-paranóide – O paciente revela um exagerado amor próprio, grande suscetibilidade, certa falta de domínio de seus atos, atribuindo a outrem aqueles que resultam de suas tendências afetivas (desaparecendo assim o conflito entre o desejo e o dever) não hesitando em considerar como razão aquilo que é apenas um pretexto.

         Ao lado disso tudo, há uma falta de confiança em si próprio, o que pode tomar tamanho vulto que se instala no paciente um retraimento e uma introversão capazes de confundi-lo com o esquizotímico.

         Estes pacientes tendem a desenvolver juízos delirantes de grandeza, perseguição ou de reivindicação (querelantes).

         Personalidade perversa – Caracteriza-se por uma acentuada debilidade dos sentimentos sociais que pode resultar da ignorância das normas éticas habituais, das exageradas tendências instintivas anti-sociais, da incapacidade de compreensão das obrigações morais.

         Nos casos de personalidade perversa, a inteligência quanto mais desenvolvida, mais grave torna o caso, porquanto ela é, então, utilizada para mascarar melhor os atos amorais. Estes são realizados, menos pelos resultados materiais que possam trazer, que pelo prazer ou satisfação que despertam.

         Personalidade astênica – Caracteriza-se por um rápido esgotamento de suas atividades psíquicas que não chegam a apresentar as reações motoras correspondentes aos estímulos responsáveis pelas atividades referidas. O paciente segue a lei de menor esforço. É comum surgir, conseqüentemente, certa irritabilidade ou nervosidade, rapidamente substituída pela depressão.

         Falta a estes pacientes, como diz Mira, energia psíquica para levar a termo de maneira completa e eficaz, as ações solicitadas em cada situação.

         Personalidade hipocondríaca – Caracteriza-se pela dominância, em sua vida intelectual e afetiva, dos fatos relativos à integridade física e psíquica. São pacientes que facilmente descobrem perigos mórbidos os ameaçando: infecções, traumatismos, alienações, etc.

         Personalidade compulsiva – Segundo Jones a personalidade compulsiva possui ou pode possuir, como qualidades positivas, o individualismo, a perseverança, o espírito de ordem e a faculdade de organização e sistematização, a minúcia e precisão na realização de seus trabalhos, o bom gosto e uma especial habilidade prática ou manual. Em contraposição a estes traços, porém, tem, mais ou menos desenvolvido, um caráter difícil, mal-humorado, suscetível, teimoso, avaro, com tendência a molestar os demais e a martirizar-se a si mesmo, predisposto à tirania, à hipocondria e irregular em seu rendimento exterior.

         Personalidade explosiva – Caracteriza-se por exagerada excitabilidade emocional, tendendo à irritabilidade e predisposição a reações motoras correspondentes a essa excitabilidade.

        Motivos mínimos são capazes de desencadear crises de cólera, durante os quais o indivíduo perde o domínio de si próprio. Segue-se um estado de mau humor.

         Também se denominam estes casos de “tipos epileptóides”.

         Personalidade instável – Vivem em constante agitação e a cada momento modificam seus planos e propósitos, o que pode chegar a perturbar a vida familiar, profissional ou social.

         É mais comum no sexo feminino. O povo diz que são “pessoas que se metem em tudo e não sabem o que querem”.

         Personalidade histérica ou oniróide – É mais freqüente no sexo feminino. Observa-se que os estados de consciência são intensamente influenciados pela afetividade e o paciente procura traduzi-los mediante manifestações orgânicas. Assim, pseudo-paralisias, falsas disartrias, etc., são apenas a “expressão orgânica” de desejos ou propósitos não realizados.

         Também com facilidade os pacientes substituem a ausência de percepções desejadas por atividades da imaginação. Disso resulta tendência à fabulação.

         Os indivíduos desta classe são facilmente sugestionáveis e anseiam por viver em situações emocionantes.

         É comum a possibilidade de dissociação da personalidade, fato aproveitado com habilidade nas reuniões espíritas e macumbas.

         Acumulação de defeitos da personalidade – Não é fácil encontrar, na vida prática, os tipos puros de personalidades psicopáticas como foram descritas. O que se verifica habitualmente é a acumulação de defeitos de personalidade no mesmo indivíduo.

SEMIOLOGIA DA PERSONALIDADE

        O estudo da personalidade é feito no curso da exploração das várias funções psíquicas, comparando-se também os valores atuais com os anteriores à doença.

         O psicodiagnóstico de Rorschach é elemento valioso para o estudo da personalidade.