|
A
seguir são apresentadas as Normas Técnicas e
Operacionais do Programa de Controle da Epilepsia
da Secretaria da Saúde e do Meio Ambiente do
Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. O texto
é cópia fiel do original, com exceção do Anexo
1 que aqui não foi reproduzido.
ESTADO
DO RIO GRANDE DO SUL
SECRETARIA
DA SAÚDE E DO MEIO AMBIENTE
DEPARTAMENTO
DE AÇÕES EM SAÚDE
SEÇÃO
DE SAÚDE MENTAL E NEUROLÓGICA
PROGRAMA
DE CONTROLE DA EPILEPSIA
NORMAS
TÉCNICAS E OPERACIONAIS
1997
SECRETARIA
DA SAÚDE E DO MEIO AMBIENTE
DEPARTAMENTO
DE AÇÕES EM SAÚDE
SEÇÃO
DE SAÚDE MENTAL E NEUROLÓGICA
PROGRAMA
DE CONTROLE DA EPILEPSIA
NORMAS
TÉCNICAS E OPERACIONAIS
I.
INTRODUÇÃO
A
Epilepsia constitui um agravo importante no
contexto de saúde pública, sendo causa de sérios
danos ao indivíduo e à sociedade. A sua ocorrência
varia consideravelmente com a idade, comprometendo
por volta de 1% da população geral, com índices
maiores na infância. Na maioria dos estudos
epidemiológicos a incidência é aproximadamente
de 40/100.000 habitantes. Assim, num Estado
como o Rio Grande do Sul, com aproximadamente
10 milhões de habitantes, existem aproximadamente
100.000 epilépticos. A cada ano, 4.000 novas
pessoas começam a apresentar epilepsia.
Segundo
dados da literatura, cerca de 20-40% dos epilépticos
apresentam menos de uma crise por ano, 10 a
20% entre 1 a 12 crises e entre 40 e 70% mais
de uma crise por mês. Do total desses pacientes,
aproximadamente 40% são portadores apenas de
epilepsia, enquanto os demais têm distúrbios
comportamentais, neurológicos e intelectuais
concomitantes.
As
crises epilépticas podem ser facilmente controladas,
na maioria dos pacientes, com medicamentos simples,
receitados por médicos generalistas em unidades
de saúde da rede pública. Para isso é necessário,
porém, um sistema organizado, de complexidade
crescente, e com as condutas diagnósticas e
terapêuticas padronizadas por Normas Técnicas
e Operacionais.
II.
OBJETIVOS
1
. Geral
Prevenir
a ocorrência ou reduzir a freqüência de crises
convulsivas e de suas conseqüências clínicas
e sociais.
2.
Específicos
a)
Diagnosticar e tratar os pacientes portadores
de epilepsia.
b)
Aumentar o conhecimento dos pacientes, dos familiares
e da comunidade a respeito da doença.
III.
DEFINIÇÃO DE CASO
Portador
de epilepsia é o indivíduo que apresenta crises
epilépticas parciais ou generalizadas, de repetição,
decorrentes de um distúrbio cerebral. As crises
acontecem porque alguma área do cérebro tem
algum tipo de problema. Este problema, ou doença
que causa a epilepsia pode ser de diversos tipos,
como uma área atrofiada, uma área que não recebeu
oxigênio, um cisto, uma cicatriz, uma malformação
cerebral, etc. Qualquer uma destas causas pode
alterar a eletricidade de alguma área do cérebro,
ou do cérebro como um todo. Uma crise epiléptica
vai ocorrer sempre que as células de alguma
área do cérebro (foco) ou do cérebro todo tiverem
uma atividade elétrica excessiva e descontrolada.
IV
. POPULAÇÃO ALVO
Todos
os indivíduos da população, independentemente
de idade ou sexo, com episódios sugestivos de
crises epilépticas.
V.
PREVENÇÃO
A
prevenção da epilepsia como agravo em determinada
população está diretamente ligada às condições
de vida e a assistência médico-sanitária prestada
a ela. Assim, cuidados pré-natais e parto seguro
às gestantes, cumprimento do calendário de imunizações
nas crianças, controle das doenças infecciosas
e parasitárias e de seus sintomas, especialmente
febre em crianças, são medidas que podem evitar
o surgimento desta doença na infância. O controle
da hipertensão arterial sistêmica e do alcoolismo,
entre outros, contribuem para a prevenção na
idade adulta.
Por
outro lado, uma vez instalada a patologia, o
diagnóstico precoce e o tratamento farmacológico
oportuno significam a prevenção de crises convulsivas,
do estigma e das seqüelas profissional e social.
VI.
DIAGNÓSTICO
Para
facilitar a leitura deste texto e a utilização
prática de alguns de seus aspectos, optou-se
por incluir o item Diagnóstico em conjunto com
o Tratamento, a seguir.
VII.
TRATAMENTO: GUIA PRÁTICO PARA O DIAGNÓSTICO
DAS CRISES EPILÉPTICAS E PARA A SELEÇÃO INICIAL
DE FÁRMACOS ANTIEPILÉPTICOS
1.
Considerações Gerais
O
diagnóstico da epilepsia é essencialmente clínico
e baseia-se na ocorrência de, no mínimo, 2 crises
epilépticas de qualquer tipo, em qualquer momento
da vida. O eletrencefalograma (EEG) é útil para
o diagnóstico, porém um EEG normal não exclui
o diagnóstico de epilepsia.
Assim,
pode-se (e deve-se) diagnosticar epilepsia numa
pessoa que tem crises epilépticas, mesmo sem
ter um EEG, ou então mesmo que o EEG esteja
normal.
2.
Diagnóstico de uma Crise Epiléptica
As
crises epilépticas podem ser de diversos tipos.
Para se fazer o diagnóstico é importante que
se conheça os tipos principais:
a)
Crises que começam com uma "virada"
da cabeça, da boca ou dos olhos para um lado,
como se estivessem "puxando" a cabeça,
a boca ou os olhos para um lado - crises
parciais motoras
b)
Crises que começam com um "tremor"
rápido de um braço, uma perna, ou do canto da
boca - crises parciais motoras
c)
Crises que começam com o paciente subitamente
levantando um ou os dois braços e depois ficando
todo enrijecido (todo duro) - crises
parciais complexas
d)
Crises que começam com o paciente "saindo
do ar" e olhando fixamente para a frente,
sem responder quando chamado, e que se seguem
por movimentos tipo mastigar, lamber os lábios
e esfregar as mãos - crises parciais
complexas
Estas
crises, descritas de 1 a 4, são os tipos principais
do que se chama crises parciais. Pode acontecer
da crise começar de uma das maneiras descritas
e ir progredindo até o paciente ter uma convulsão
forte, em que cai, se bate todo, morde a língua
e se urina. Mesmo que a crise evolua para uma
convulsão forte, generalizada, é muito importante
ter identificado como é que ela iniciou. Se
ela iniciou de uma das maneiras descritas de
1 a 4, o tratamento para evitar que o paciente
tenha mais crises é diferente do que se as crises
começam diretamente com a convulsão (ver abaixo).
e)
Crises em que o paciente começa direto com uma
convulsão forte, em que cai e "se bate
todo" - crises tônico-clônicas
generalizadas
f)
Crises em que o paciente tem movimentos como
se tivesse levado uns "choques" nos
braços, nos ombros, ou nas pernas - crises
mioclônicas
g)
Crises em que o paciente, geralmente criança,
sai do ar por poucos segundos, olhando fixo
para a frente, e depois volta imediatamente,
como se nada tivesse acontecido - crises
de ausência
Estas
crises de 5 a 7 são as chamadas crises diretamente
ou primariamente generalizadas. O tratamento
para que estes pacientes não voltem a ter crises
é, na maioria das vezes, diferente daquele que
se utiliza para os pacientes cujas crises são
parciais, ou seja, iniciam-se conforme 1 a 4,
acima.
3.
Diagnóstico da Doença que está causando a Epilepsia
Uma
série de dados da história clínica do paciente,
acompanhados de alguns exames complementares
mais ou menos sofisticados, permitem que se
descubra qual a causa da epilepsia de um determinado
paciente, em outras palavras, qual foi o tipo
de problema que afetou o cérebro e causou um
foco epiléptico. As principais causas de epilepsia
são defeito congênito, seqüela de parto, convulsões
febris muito fortes na infância, seqüela de
traumatismo craniano, cicatrizes que ficam depois
de infecções cerebrais, atrofia cerebral após
infarto cerebral, tumores, cistos, etc...
Assim,
deve-se perguntar aos acompanhantes de cada
paciente epiléptico como foi o parto, se houve
falta de oxigênio, ou o nenê foi prematuro;
se houve alguma batida muito forte da cabeça,
especialmente se perdeu a consciência com a
batida; se quando criança o paciente tinha convulsões
fortes quando subia a temperatura; se teve meningite
ou encefalite, etc. Este diagnóstico é importante
pois permite saber se um determinado paciente
tem chances maiores ou menores de ter as suas
crises controladas com as medicações. O encaminhamento
da investigação da causa da epilepsia freqüentemente
necessita que se façam exames de imagem cerebral,
além de eletrencefalograma.
Porém
deve ficar bem claro: para tratar as crises
epilépticas num primeiro momento, não é tão
importante saber a causa da epilepsia. É fundamental
saber reconhecer o tipo de crises que o paciente
apresenta e escolher o remédio e a dose certa.
4
. Introdução ao Manejo das Crises
O
tratamento das crises epilépticas tem como objetivo
escolher um ou mais medicamentos que vão tentar
"tirar o excesso" de atividade elétrica
no cérebro de uma pessoa com epilepsia. Como
as crises são imprevisíveis, e não se sabe quando
elas vão ocorrer, o tratamento tem que ser contínuo,
ao menos por um período de 2 a 4 anos. Se as
crises continuarem apesar dos remédios, o tratamento
não pode parar. A decisão de quando parar o
tratamento numa pessoa com epilepsia deve ser
feito por um médico especialista.
Algumas
verdades sobre o tratamento das crises epilépticas
-
Nem todos os pacientes conseguem ter suas crises
totalmente controladas, mesmo tomando os medicamentos.
Três em cada dez pacientes que chegarem ao Posto
de Saúde com uma história de crises epilépticas
têm grandes chances de continuarem tendo crises
apesar do uso correto da medicação;
-
Existem medicamentos que funcionam melhor em
uns tipos de crises epilépticas e outros que
funcionam melhor em outros tipos de crises epilépticas.
Portanto, escolher o medicamento certo e a dose
certa para cada paciente é importante;
-
Muitos pacientes dizem que estão tomando os
remédios de forma correta, mas na verdade não
estão tomando direito. É importante conversar
isto com o paciente, pois não tomar os medicamentos
da forma correta (por exemplo, pular doses)
é uma causa importante do paciente continuar
a ter crises mesmo "usando" remédios.
-
Muitos pacientes apresentam efeitos adversos
com os medicamentos usados para controlar crises
epilépticas. É importante conhecer estes efeitos
adversos para orientar o paciente. Em termos
práticos, o principal jeito de evitar os efeitos
adversos é começar com uma dose baixa e ir aumentando.
Ainda assim, muitos pacientes vão ter efeitos
adversos com o uso prolongado destes medicamentos.
5
. Principais Fármacos Antiepilépticos (FAEs),
Doses e Efeitos Adversos
No
Quadro 5 apresentamos as características das
principais drogas, doses e paraefeitos, assim
como, a seguir, no Quadro 6, as doses recomendadas
em uso pediátrico
| Fármaco |
Indicações |
Dosagem |
Principais
efeitos colaterais |
Observações |
| CARBAMAZEPINA |
Epilepsias
com crises
parciais
simples ou
complexas,
com ou sem generalização secundária |
400
-1800
mg/dia
2 a 4
tomadas |
DD:
diplopia, visão borrada, tonturas, cefaléias,
sonolência,
rash
- DI: agranulocitose, rash,
hepatotoxicidade |
Controle
periódico do leucograma
e
provas
de função hepática (PFH) |
| FENITOÍNA |
Epilepsias
com crises
parciais
simples ou
complexas,
com ou sem
generalização
secundária
Status
epilepticus |
200
- 500
mg/dia
2 a 3
tomadas |
DD:
ataxia, nistagmo, sonolência,
ID: hirsutismo,
gengivite, rash,
lupus-like,
discrasias sanguíneas,
hepatotoxicidade |
Evitar
em mulheres jovens;
Controle
periódico
do hemograma
e
PFH |
| ÁCIDO
VALPRÓICO |
Episódio
com crises
primariamente
generalizadas
(TCG,
ausências, mioclonias,
"drop
attacks") |
1000
a 3000
mg/dia
2 a 4
tomadas |
DD:
alopécia, aumento do peso corporal,
tremores, náuseas,
vômitos
- ID: hepatotoxicidade,
pancreatite,
encefalopatia |
Controle
periódico
PFH,
amilase |
| FENOBARBITAL |
Epilepsias
com crises parciais ou
generalizadas (não é a primeira
escolha, devido aos efeitos
colaterais) |
50
- 200
mg/dia
1 tomada |
DD:
sonolência, irritabilidade,
distractibilidade,
depressão,
alteração
da libido - ID: rash, hepatotoxicidade |
Controle
periódico
do hemograma
e
PFH |
| CLOBAZAN |
Terapia
adjuntiva em várias
formas
de epilepsia refratária |
10
- 60
mg/dia
1 a 4
tomadas |
DD:
sonolência, fadiga, ataxia
ID: rash |
Sempre
em associação
com outros FAEs |
| DD
= Paraefeitos dose - dependentes
ID = Paraefeitos dose - independentes |
Quadro
5 - Principais Drogas Antiepilépticas, Doses
para Adultos e Paraefeitos
| |
Inicial
(mg/kg/dl) |
Manutenção
(mg/kg/dl) |
Intervalo
de doses (vezes/dia) |
Nível
sérico (mg/l) |
| carbamazepina |
5 |
10
a 25 |
2
a 3 |
4
a 10 |
| fenobarbital |
4 |
3
a 8 |
1 |
10
a 35 |
| fenitoína |
5 |
5
a 9 |
1
a 2 |
10
a 20 |
| valproato
de sódio |
10 |
15
a 40 |
1
a 2 |
não
é útil |
Quadro
6 - Doses Pediátricas de Fármacos Antiepilépticos:
6.
Forma mais prática e direta de escolher o medicamento
a ser usado, como iniciar, como aumentar, e que
doses manter
a)
Crises que iniciam de forma parcial (tipos 1 a
4 na descrição acima), com ou sem generalização
secundária, devem ser inicialmente tratadas com
Carbamazepina (CBZ) ou Fenitoína (FNT) em monoterapia.
Enquanto o paciente persistir com crises recorrentes
deve-se ir aumentando as doses, até atingir-se
o máximo tolerável (ou seja, a dose imediatamente
abaixo daquela que produz para-efeitos dose-dependentes).
O valor numérico da dose em si varia de paciente
para paciente.
A
primeira regra prática é introduzir a medicação
de forma gradual. Após atingir-se uma dose de
800 mg/dia de Carbamazepina ou 300 mg/dia de Fenitoína
a maioria dos pacientes com as crises descritas
acima obterá um controle ao menos parcial. A partir
daí, naqueles pacientes em que persistem crises,
vai-se aumentando as doses até o máximo tolerável.
Quanto
à Carbamazepina pode chegar-se a 1.400-1.600 ou
até 1.800 mg/dia, em 3 a 4 tomadas, procedendo
a incrementos de 100 a 200 mg a cada poucos dias.
No
tocante à Fenitoína, os incrementos devem ser
da ordem de 25 a 50 mg de cada vez. Caso persista
um controle inadequado das crises, a troca de
um pelo outro deve ser tentada, mantendo-se fiel
ao principio da monoterapia. Pelas reconhecidas
interações farmacocinéticas entre a Carbamazepina
e a Fenitoína sua associação no tratamento das
crises parciais pode levar a níveis séricos baixos
de ambos os fármacos e comprometer mais ainda
o controle das crises (ver abaixo).
A
grande maioria dos pacientes que aparentemente
controlam suas crises com a associação de CBZ
e FNT também as controlam com a monoterapia simples,
em doses adequadas. Um erro muito comum é a associação
de um segundo Fármaco em politerapia, antes de
esgotar-se as possibilidades da droga original
em monoterapia. O exemplo clássico é aquele paciente
com crises parciais complexas que chega ao consultório
sem controle adequado, usando Carbamazepina associada
à Fenitoína.
Quando
houver dificuldades de manejo com a Carbamazepina
ou com a Fenitoína, ou estes fármacos, por alguma
razão não estiverem disponíveis, deve-se usar
o Fenobarbital (Gardenal). É importante saber
que o Fenobarbital controla muito bem a maior
parte das crises parciais num grande número de
pacientes. A forma de usar é simples: um comprimido
de 100 mg à noite.
O
principal problema relacionado ao uso do Fenobarbital
são os efeitos adversos sedativos. Os pacientes
podem ficar mais sonolentos, com menos disposição
e mais esquecidos. Assim, preferencialmente deve-se
utilizar a Carbamazepina ou a Fenitoína. Mas,
se precisar, usar o Fenobarbital.
Atenção:
Não esquecer que para as crianças pode-se usar
o Fenobarbital em gotas. Cada gota tem 1 mg -
100 gotas valem por um comprimido. Deve-se usar
2 a 5 gotas por quilo de peso em crianças pequenas.
b)
Crises primariamente generalizadas dos tipos TCG,
mioclonias e ausências, como parte de síndromes
epilépticas generalizadas primárias:
Devem
ser tratadas com Ácido Valpróico (VALP) em monoterapia.
Em adultos a dose adequada é da ordem de 1.500
a 3.000 mg/dia. Entretanto, alguns pacientes com
epilepsia mioclônica juvenil (de Janz - uma das
subsíndromes do grupo das epilepsias generalizadas
primárias) não conseguem ficar totalmente controlados
com monoterapia. Nesses, o VALP costuma controlar
as crises de ausência e as mioclonias, porém ocorrem
"escapes" de crises TCG. Nesses casos,
recomenda-se a associação com Carbamazepina.
Alguns
aspectos práticos merecem destaque. O primeiro
é que a dosagem do VALP necessária para trazer
controle total das crises - ausências, mioclonias
e TCG nos pacientes com epilepsia generalizada
primária é muito variável. Doses tão baixas quanto
500 mg/dia para um adulto pode deixa-lo sem qualquer
tipo de crise, enquanto outro necessita doses
muito maiores.
7.
Efeitos Colaterais
a)
Os principais efeitos colaterais da Carbamazepina
(CBZ) são:
-
visão dupla;
-
visão borrada;
-
tonturas;
-
desequilíbrio;
-
dores de cabeça.
Um
problema freqüente é quando se inicia o tratamento
com doses altas. O tratamento com a CBZ deve sempre
ser iniciado lentamente, com meio comprimido ao
dia, subindo meio comprimido na dose diária a
cada 3 - 5 dias. É fundamental avisar o paciente
dos efeitos colaterais que ele vai poder sentir.
b)
Os principais efeitos colaterais da Fenitoína
(FNT) são:
-
tonturas;
-
desequilíbrio;
-
náuseas;
-
vômitos.
Pode-se
começar o tratamento direto com 3 comprimidos
ao dia. Mas cuidado: muitos pacientes, quando
tentam aumentar a dose, ficam subitamente tontos
e com perda do equilíbrio. Sempre que se for aumentar
as doses da FNT isto deve ser feito com cuidado,
aumentando meio comprimido de cada vez, a intervalos
de vários dias.
c)
Os principais efeitos colaterais do Valproato
de Sódio (VALP) são:
-
náuseas;
-
vômitos;
-
tremor;
-
ganho de peso;
-
queda de cabelo.
Se
os vômitos não passarem o paciente tem que fazer
um exame de sangue para ver como está o fígado.
As vezes o VALP provoca alterações no fígado.
d)
Os principais efeitos colaterais do Fenobarbital
são:
-
sonolência;
-
lentidão;
-
falta de memória;
-
moleza no corpo.
Em
geral estes efeitos passam com o passar dos dias.
8.
Controle do Tratamento
a)
Freqüência das Consultas
O
paciente com crises não controladas (definidas
como 1 ou mais crises por mês), que correspondem
a 20-40% dos pacientes, deverão ter consulta mensal.
Aqueles com crises raras, isto é, menos que 1
crise por mês (correspondendo 10 a 20% dos pacientes)
devem consultar trimestralmente. Os pacientes
com crises controladas (sem crises), 50 a 70%
dos casos, deverão consultar anualmente.
b)
Eletrencefalograma (EEG)
Recomenda-se
que EEGs ambulatoriais sejam realizados durante
a evolução de pacientes epilépticos em três situações
clínicas:
-
quando as crises epilépticas persistirem, apesar
de um tratamento farmacológico considerado adequado,
tanto em termos de escolha de medicamentos, dosagem
e tempo de observação;
-
quando houver recorrência de crises após um período
de remissão;
-
quando ocorrer o aparecimento de alterações comportamentais.
Naqueles
pacientes epilépticos que estejam com suas crises
bem controladas, não há necessidade de repetição
"rotineira" de EEGs.
Recomenda-se
que o EEG seja considerado como um dos diversos
aspectos a serem analisados, quando existir a
possibilidade de suspensão do tratamento antiepiléptico
em um paciente bem controlado Reconhece-se que
a importância do EEG para esta decisão varia com
o tipo de síndrome epiléptica.
Nas
epilepsias generalizadas primárias, a persistência
de alterações eletrencefalográficas epileptiformes
é indicativa da persistência do risco para a recorrência
de crises, mesmo após um período prolongado de
controle completo. Isto parece não ocorrer nas
epilepsias parciais. Deve-se enfatizar, entretanto,
que muitos outros dados clínicos devem ser analisados,
de forma que recomenda-se que estes pacientes
sejam encaminhados para um centro especializado
em epilepsia, para que a decisão quanto suspensão
da medicação anti-epiléptica seja tomada.
Observação:
Recomenda-se que pacientes refratários ao tratamento
medicamentoso, e nos quais se julgue necessário
uma investigação eletrencefalográfica mais aprofundada,
com eletrodos especiais para definir uma eventual
indicação de tratamento cirúrgico, devem ser encaminhados
a centros especializados no manejo multidisciplinar
de pacientes epilépticos de difícil controle e
que ofereçam a possibilidade de tratamento cirúrgico.
9.
Tratamento NÃO Medicamentoso
PRIMEIROS
CUIDADOS NAS CRISES TÔNICO-CLÔNICAS GENERALIZADAS
O
que se deve fazer:
-
Manter a calma, tranqüilizar os que estejam testemunhando
a crise;
-
Proteger o paciente em crise de qualquer perigo
a sua volta;
-
Afrouxar a roupa ao redor do pescoço (por exemplo,
a gravata) para que se evitem dificuldades à respiração;
-
Colocar algo macio, por exemplo, uma roupa dobrada
ou uma almofada, sob a cabeça do paciente;
-
Colocá-lo em decúbito lateral para que se mantenham
desimpedidas as vias respiratórias;
-
Tranqüilizá-lo quando recobrar a consciência;
- Permitir que descanse ou durma em algum local
tranqüilo até que esteja pronto a retomar as suas
atividades;
-
No caso de uma crise simples durar mais que cinco
minutos, averiguar se é necessária avaliação em
Hospital;
-
Em casos de crises múltiplas, ou se uma crise
única durar mais que cinco minutos, providenciar
auxílio médico - chamar a ambulância. Se o paciente
estiver ferido, for diabético ou tratar-se de
uma gestante, pedir ajuda imediatamente.
O
que não se deve fazer:
-
Não tentar abrir a boca do paciente a força com
a introdução de algum instrumento rígido ou com
os dedos;
-
Não tentar segurar a língua do paciente. Ele(a)
não poderá engoli-la;
-
Não utilizar respiração artificial, a menos que
o paciente não respire depois que as convulsões
tenham cessado, ou se tiver aspirado água;
-
Não administrar líquidos ao paciente durante ou
depois de uma crise;
-
Não segurar o paciente.
10.
Tratamento em Situações Especiais
Crises
Convulsivas Febrís
Nestes
casos é importante frisar a necessidade de que
seja descartada a hipótese de meningite, através
de exame clínico e, se necessário, punção lombar
(a ser realizada em ambiente hospitalar). Não
está indicada abordagem medicamentosa, uma vez
diagnosticada convulsão febril. As alternativas
terapêuticas, com os prós e contras devem ser
discutidas com os pais. São fatores de risco para
o desenvolvimento de epilepsia residual a ocorrência
de crises antes dos 18 meses, a coexistência de
déficits neurológicos e as crises prolongadas
acima de 15 minutos. Nestes casos, deve-se ter
especial atenção à possibilidade de recorrência
das crises.
Epilepsia
na Gestação e Lactação
A
epilepsia não deve impedir a mulher de gerar e
ter filhos. Os resultados são satisfatórios em
mais de 90% dos casos. Quando a paciente necessitar
permanecer em tratamento medicamentoso, o ideal
é a monoterapia, com adequada monitorização clínica
caso a caso.
A
incidência de malformações congênitas em crianças
nascidas de mães epilépticas em uso de FAEs é
de aproximadamente 6% (três vezes o índice da
população normal), embora o risco de malformações
graves (lábio leporino, defeitos da fusão do tubo
neural) seja de aproximadamente 2% em filhos de
mães epilépticas em uso de FAEs, devendo ser rastreadas
a partir do segundo trimestre com o auxílio da
ultrassonografia e da dosagem de alfafetoproteina
materna. O aspecto mais importante do manejo das
crises convulsivas na gestação é que deve-se tentar
utilizar doses no máximo moderadas de apenas um
FAE. Está bem determinado que o principal aspecto
teratogênico do tratamento antiepiléptico na gestação
é o uso de múltiplos FAEs (politerapia).
Considerando
o risco de hemorragia em neonatos expostos à Carbamazepina,
Fenitoína e Fenobarbital, deve ser feita administração
rotineira de vitamina K à mãe a partir da trigésima
sexta semana de gestação e à criança logo após
o nascimento.
Não
deve ser interrompida a lactação, visto que as
concentrações que as drogas anticonvulsivantes
alcançam no leite materno são bem inferiores à
do plasma materno. Pode ocorrer sedação neonatal
se a paciente estiver recebendo altas doses de
Fenobarbital, Primidona ou um Benzodiazepínico.
11.
Manejo Social e Profissional
Os
pacientes com crises convulsivas apresentam maior
dificuldade no seu relacionamento social e na
obtenção de empregos, principalmente nas classes
sócio-econômicas menos favorecidas. Uma vez estabelecido
para a família o diagnóstico de epilepsia, verificamos
freqüentemente duas situações prejudiciais ao
paciente: rejeição ou superproteção.
A
mesma reação ocorre nos amigos, na escola e no
emprego, quando os mesmos sabem das crises convulsivas
ou presenciam uma delas.
Assim,
num programa de orientação ao manejo das convulsões,
deve ser incluída a orientação de que a epilepsia
é uma doença não incapacitante tanto social como
profissional na maioria dos casos.
Por
isso, na equipe de saúde do posto deverá haver
um responsável ou grupo responsável para informar
e dirimir dúvidas, transmitindo ao paciente e
sua família, na maioria das vezes de situação
intelectual baixa, uma conduta correta.
Os
cuidados durante a crise convulsiva devem ser
bem assimilados por aqueles que convivem diariamente
com o paciente.
A
conduta no período intercrise, principalmente
quanto à orientação a esportes é importante. O
epiléptico deve praticar esportes, excluídos obviamente
aqueles de risco, como natação desacompanhada,
mergulho. alpinismo, vôo em asa delta, etc. O
esporte é aconselhado na epilepsia, desde que
não seja feito em excesso, levando a situações
de cansaço demasiado e hiperventilação, que podem
precipitar crises convulsivas.
A
orientação quanto ao uso social de bebidas alcoólicas
é discutida e achamos ter de ser analisada individualmente.
A
dispensa do serviço militar para epilépticos não
deve ser considerada como fator restritivo profissional,
pois se trata de atividade com uso de armas e
explosivos.
A
orientação profissional é importante porque a
grande maioria das profissões não são de risco
para pacientes epilépticos e o mesmo tem todas
as chances de realizar-se em sua atividade. Um
outro aspecto é o das convulsões tardias, aquelas
que tem sua primeira crise quando o indivíduo
já está com uma atividade profissional definida
há muitos anos e necessitando uma readaptação
profissional, sendo em nossa experiência o exemplo
mais freqüente o do motorista profissional.
Nestes
momentos, a equipe de saúde é fundamental para
evitar que o indivíduo se julgue incapaz indefinidamente.
Outro
aconselhamento importante da equipe de saúde é
quanto ao matrimônio, dissipando os anseios e
medos no relacionamento do casal e orientando
corretamente a gestação e o uso de medicamentos
pela gestante epiléptica.
VIII.
SISTEMA DE INFORMAÇÃO
O
sistema de Informação do Programa de Controle
da Epilepsia se baseará no Boletim de Vigilância
e Controle, apresentado no Anexo 1.
IX.
NÍVEIS DE EXECUÇÃO
1.
Agentes Comunitários de Saúde
a)
realizar visitas domiciliares aos pacientes que
não estão comparecendo às consultas na unidade
de saúde;
b)
orientar o familiar e o paciente da importância
do uso adequado da medicação;
c)
esclarecimento ao grupo familiar quanto à doença
e precauções a serem tomadas pela segurança do
paciente;
d)
esclarecimento aos pais de uma criança com epilepsia,
quanto à doença e sua evolução evitando que seja
tratada como uma inválida.
2.
Unidades sem médico diariamente
a)
Recursos Humanos
Auxiliar
-
Orienta sobre epilepsia;
-
Entrega aos pacientes os folhetos explicativos;
-
Encaminha pacientes com história de epilepsia
ao médico;
-
Fornece Medicação anticonvulsivante disponível,
de acordo com receita médica.
Médico
não treinado
-
Atende as Intercorrências e encaminha para a unidade
de Referência mais próxima, relatando como foi
a crise;
-
Fornece receita de medicamentos anticonvulsivante
aos pacientes crônicos já diagnosticados, considerando
que suas crises devem estar sob controle com estas
medicações e que devem estar necessariamente realizando
revisões periódicas com médicos treinados.
b)
Recursos Materiais
-
Os comumente existentes nas Unidades de Saúde;
-
Medicações anticonvulsivantes em quantidade suficiente
para os pacientes crônicos cadastrados naquela
unidade;
-
Material para orientação de Epilepsia.
3.
Unidades com médico diariamente
a)
Recursos humanos
Auxiliar
-
Realiza as mesmas atividades que a Auxiliar da
Unidade sem médico diariamente.
Enfermeira
treinada
-
Orienta os pacientes sobre Epilepsia;
-
Encaminha pacientes com história de Epilepsia
para consulta médica;
Médico
Clínico Treinado
-
Realiza anamnese e exame físico do paciente;
-
Confirma os dados da história clínica;
-
Dá início ao diagnóstico diferencial, quando possível,
com auxílio de exames complementares;
-
Encaminha os pacientes para unidades de referência,
quando necessário.
-
Fornece receita de medicamentos anticonvulsivante
aos pacientes crônicos já diagnosticados.
-
Procede controle clínico dos casos tratados na
unidade.
b)
Recursos Materiais
-
Os mesmos da Unidade sem médico diariamente.
4.
Unidades com Médico Especialista
a)
Recursos Humanos
Auxiliar
-
Realiza as mesmas atividades que a Auxiliar das
Unidades antes referidas
Enfermeira
treinada
-
Realiza as mesmas atividades que a Enfermeira
da Unidade com médico diariamente.
Médico
Especialista
-
As mesmas atividades do médico clínico treinado
e mais:
-
Atende casos referenciados pelas unidades de saúde
dos municípios da Região;
-
Encaminha os pacientes para avaliação de outros
especialistas de outras áreas nos casos que julgue
necessário.
-
Encaminha pacientes com epilepsia de difícil controle
a centros de referência;
-
Encaminha pacientes portadores de epilepsia com
indicação cirúrgica a centros de referência.
DR.
GERMANO MOSTARDEIRO BONOW
SECRETÁRIO DA SAÚDE E DO MEIO AMBIENTE - SSMA
DR.
MARINON PORTO
DIRETOR GERAL DA SSMA
DR.
PEDRO DORNELLES PICON
DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE AÇÕES EM SAÚDE - DAS
DR.
RENATO SOARES GUTIERREZ
CHEFE DA DIVISÃO DE APOIO TÉCNICO E ADMINISTRATIVO
DO DAS
DR.
JARBAS FIGUEIRA OSÓRIO
CHEFE DA DIVISÃO DE PROGRAMAS DE SAÚDE DO DAS
DRA.
SANDRA MARIA SOARES
CHEFE DA SEÇÃO DE SAÚDE MENTAL E NEUROLÓGICA DO
DAS
TÉCNICOS
RESPONSÁVEIS PELA ELABORAÇÃO DA NTO:
DRA.
SANDRA MARIA SOARES
CONSULTORES:
PROF.
DR. ANDRÉ PALMINI - Assistente da Disciplina de
Neurologia da PUC,
Presidente da Liga Brasileira de Combate à Epilepsia,
Diretor Científico do Programa de Cirurgia da
Epilepsia da PUC.
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