NOVARTIS
Carlos A. M. Guerreiro
Maria Augusta Montenegro
Introdução
O
tratamento medicamentoso das epilepsias passou
por várias fases. O desconhecimento da
fisiopatologia das epilepsias e da farmacologia
das drogas antiepilépticas fez com que
a politerapia fosse considerada, por várias
décadas, como a melhor opção
terapêutica.
Fenobarbital
e fenitoína foram, durante muitos anos,
as únicas opções terapêuticas
disponíveis para o tratamento das epilepsias,
e o uso isolado ou associações dessas
duas drogas era à base do tratamento. Havia,
inclusive, apresentações comerciais
que já associavam essas duas medicações.
Com
a introdução de novas drogas no
mercado, principalmente valproato e carbamazepina,
surgiu a possibilidade de monoterapia eficaz,
em que o uso de uma única droga antiepiléptica
até a máxima dose tolerada era defendido
com base na terapêutica antiepiléptica,
observando-se redução dos efeitos
adversos, pois, em geral, a incidência de
efeitos colaterais é proporcional ao número
de drogas antiepilépticas utilizadas.
Atualmente,
novas drogas com efeitos adversos menos freqüentes
e maiores índices terapêuticos estão
disponíveis e acredita-se que a combinação
de drogas com diferentes mecanismos de ação
possam trazer benefício para a parcela
de pacientes (aproximadamente 10% a 20%) que não
obtêm controle de suas crises com monoterapia.
Ainda conhece-se pouco a respeito da fisiopatologia
das epilepsias e até mesmo sobre o mecanismo
de ação das drogas antiepilépticas:
entretanto, vários autores chamam essa
nova fase de “politerapia racional”,
talvez para justificar a aprovação
dessas medicações apenas em adição
e não em monoterapia. O número crescente
de novas drogas antiepilépticas e a possibilidade
de associá-las fizeram com que fosse cada
vez mais importante conhecer as interações
entre as diversas drogas.
Interações
medicamentosas ocorrem devido à alteração
da farmacocinética e da farmacodinâmica
de uma determinada droga provocada pela adição
de um novo medicamento ao tratamento. Como as
drogas antiepilépticas possuem uma janela
terapêutica estreita, ou seja, a dose terapêutica
está muito próxima da dose tóxica,
o tratamento medicamentoso do paciente epiléptico
deve ser individualizado.
Farmacocinética
refere-se à maneira como o organismo absorve,
metaboliza, estabelece ligação da
droga com proteínas plasmáticas
e elimina a droga. Interações farmacocinéticas
determinam mudanças no nível sérico
das drogas, decorrente de aceleração
ou lentificação na metabolização
e/ou eliminação da droga, ou do
deslocamento da fração ligada às
proteínas plasmáticas (aumento da
droga livre). Devido às alterações
no nível sérico das drogas, pode
ser necessário ajustar a dose das medicações
envolvidas ou até indicar a interrupção
de uma delas.
Farmacodinâmica
refere-se à ação da droga
no organismo, seu efeito nos receptores e interação
com outras drogas.
As
interações farmacodinâmicas
podem ser aditivas, supra-aditivas, ou infra-aditivas.
Nas interações farmacodinâmicas
aditivas, o efeito combinado de duas drogas administradas
é igual à soma de cada droga isoladamente.
Quando a interação é supra-aditiva,
o efeito da combinação de duas drogas
é maior que a soma dos efeitos individuais
esperados (menos da metade da concentração
de cada droga será necessária para
conseguir o mesmo efeito). Finalmente, nas interações
intra-aditivas ou antagonísticas, o efeito
combinado das drogas é menor que a soma
dos efeitos individuais esperados (mais da metade
da concentração de cada droga será
necessária para conseguir o mesmo efeito).
Interações farmacodinâmicas
determinam mudanças no efeito farmacológico
das drogas e devem ser consideradas na escolha
da combinação ente duas drogas.
É importante observar que interações
medicamentosas supra-aditivas nem sempre são
benéficas. Para que a combinação
entre duas drogas antiepilépticas seja
benéfica, o ideal é que haja uma
maior proteção contra crises epilépticas
sem aumentar o nível de toxicidade.
A
dosagem sérica das drogas antiepilépticas
pode ser útil na monitorização
do paciente; entretanto, a relação
entre dose sérica, efeito adverso e eficácia
é muito variável. Pacientes com
níveis séricos considerados baixos
podem apresentar sinais de intoxicação,
ao passo que alguns pacientes toleram doses extremamente
altas de medicação sem apresentar
nenhum efeito adverso.
Uma
aplicação muito importante da dosagem
sérica é a comprovação
e a documentação do uso da medicação
pelo paciente. É incomum encontrar pacientes
que alegam estar utilizando a medicação
adequadamente, mas que apresentam dosagem sérica
zero em repetidas medidas.
Apesar
de a monoterapia ser o tratamento de escolha para
a grande maioria dos pacientes, cerca de 10% a
20% não apresentarão controle das
crises apenas com uma droga e se beneficiarão
com o uso de politerapia.
Atualmente,
o avanço no conhecimento do mecanismo de
ação das drogas antiepilépticas
permite a utilização de associações
de drogas com mecanismos de ação
diversos, ou seja, drogas que atuam em locais
diferentes, o que, teoricamente, produziria maior
chance de controle das crises. Entretanto, nem
sempre isso ocorre e, ocasionalmente, os efeitos
adversos podem ser maiores.
Assim, efeitos adversos nem sempre são
indesejáveis, e as características
individuais do paciente devem ser consideradas.
Perda de peso, aumento do apetite e efeito ansiolítico
podem ser benéficos em situações
especiais.
Outro
ponto importante é a interação
entre drogas antiepilépticas e medicações
de uso clínico sem efeito anticonvulsivante.
A maioria dos pacientes em uso crônico de
medicação antiepilética apresentará
necessidade de utilizar outras medicações
ao longo dos anos. Alguns cuidados devem ser tomados,
pois algumas drogas antiepilépticas podem
diminuir a eficácia de medicamentos de
uso muito freqüente, como, por exemplo, os
anticoncepcionais hormonais.
Dessa
forma, o conhecimento das propriedades farmacocinéticas,
farmacodinâmicas e das interações
medicamentosas das drogas antiepilépticas
é importante para a conduta ideal e adequada
no tratamento das epilepsias. Comentaremos apenas
sobre as drogas antiepilépticas disponíveis,
hoje, no Brasil.
Absorção
A
absorção das drogas antiepilépticas
pelo trato gastrointestinal é, de modo
geral, boa. Entretanto, antiácidos e dietas
administradas por sondas nasogástricas
podem comprometer a absorção de
fenitoína, com redução do
nível sérico. A alimentação
pode lentificar a absorção de valproato,
fenobarbital e topiramato. Por outro lado, a taxa
de absorção de fenitoína
pode ser aumentada com a alimentação.
Ligação
Protéica
Alterações
na ligação protéica podem
produzir interações medicamentosas
clinicamente significativas, particularmente para
drogas com altas ligações protéicas
(mais que 90%), principalmente a albumina sérica.
Quando uma droga desloca uma outra droga da ligação
protéica, a porção livre
de uma delas pode aumentar significativamente
e levar à intoxicação. Das
medicações de que dispomos, a fenitoína
e o valproato são altamente ligadas à
proteína.
A
associação dessas medicações
provoca uma interação complexa,
tanto por esse fator como pelo efeito inibidor
do metabolismo hepático do valproato. Aspirina
e naproxeno também podem causar toxicidade
intermitente por deslocar a ligação
protéica da fenitoína.
Metabolismo
Hepático
Das
drogas antiepilépticas, a gabapentina e
a vigabatrina são completamente eliminadas
pelos rins sem serem metabolizadas. Para as demais
drogas antiepilépticas, o metabolismo hepático
é a principal via de eliminação
para as drogas antiepilépticas.
As
vias metabólicas das drogas antiepilépticas
podem variar e levar à produção
de metabólitos ativos (por exemplo: carbamazepina:
epóxido da carbamazepina; oxcarbazepina:
derivado monoidróxido) e inativos.
O
metabolismo hepático oxidativo ocorre primariamente
pelo sistema enzimático do citocromo P
450 (CYP). Esse sistema é subdividido em
três famílias (CYP1, CYP2 e CYP3)
e sete isoenzimas (CYP 1A2, 2A6, 2C9, 2C19, 2D6,
2E1 e 3A4), que estão envolvidas na biotransformação
das drogas. Dessas isoenzimas, as mais importantes
para as drogas antiepilépticas são
CYP 2C9, 2C19 e 3A4. Muitas outras substâncias
endógenas, tais como prostaglandinas, hormônios
esteróides e vitaminas, também utilizam
essas vias.
Outra
via hepática comum a alguns anticonvulsivantes,
tais como valproato, lamotrigina e lorazepam,
é o processo de conjugação
com ácido glucurônico, via glucuronosilfransferase
uridina duosfato (GUD). Outros sistemas, tais
como hidroxilase de epóxido, podem ser
ativos. Qualquer droga metabolizada pelos sistemas
do CYP ou do GUD estará sujeita a indução
ou inibição por outras drogas. O
polimorfismo genético dos sistemas metabolizadores
de drogas pode contribuir para a variação
significativa de algumas drogas entre os pacientes.
Pacientes com mutações genéticas
no CYP 2C19 ou no CYP 2C9, principais isoenzimas
na metabolização da fenitoína,
podem mostrar resultados muito maiores nas dosagens
séricas utilizando “doses habituais”.
Indução
Hepática
Muitas
drogas antiepilépticas, particularmente
fenitoína, carbamazepina e fenobarbital,
são potentes indutores das vias CYP. Essas
drogas aumentam a síntese protéica,
que está associada com a proliferação
do retículo endoplasmático liso
e, em última análise, aumentam a
capacidade de metabolização.
Se
a droga tem um metabólito ativo, a indução
pode aumentar a formação do metabólito
enquanto abaixa a concentração do
composto original. Exemplificando, a adição
de fenitoína a carbamazepina, apesar de
diminuir o nível de carbamazepina, aumenta
a concentração de seu metabólito
ativo, o epóxido da carbamazepina. Assim,
o efeito colateral pode decorrer do aumento do
metabólito ativo, e não da droga
original.
O
número de tomadas pode ser afetado pela
indução. Algumas drogas, cuja meia-vida
está ao redor de 24 horas (por exemplo,
a lamotrigina) e que devem ser administradas uma
ou duas vezes ao dia, quando associadas às
drogas indutoras, têm flutuações
importantes e necessitam ser administradas três
vezes ao dia.
Fenitoína,
carbamazepina e fenobarbital são indutores
de amplo espectro das enzimas CYP e do GUD. De
modo geral, a eliminação da carbamazepina,
fenitoína, valproato, topiramato e lamotrigina
é marcadamente aumentada com essas medicações.
Quando
comparada com a carbamazepina, a oxcarbazepina
tem um potencial reduzido para interações
farmacocinéticas. Conseqüentemente,
pacientes que tomavam fenitoína e carbamazepina,
e passam a tomar fenitoína e oxcarbazepina,
apresentam redução da indução
hepática provocada pela carbamazepina,
o que leva a um aumento nos níveis séricos
de fenitoína. Oxcarbazepina pode levar
à diminuição da concentração
sérica de lamotrigina (sugerindo indução
do GUD), etinilestradiol e levonorgestrel. Topiramato
também é um fraco indutor do CYP
3A4. Isso não altera o nível das
drogas antiepilépticas, porém reduz
os níveis de etinilestradiol.
Lamotrigina
pode ser um fraco indutor do GUD, modificando
assim o seu próprio metabolismo e diminuindo
levemente a concentração de valproato.
As
drogas listadas na tabela I podem ser induzidas
pelas drogas antiepiléticas e, assim, a
retirada destas pode levar à intoxicação.
Acetaminofeno aumenta em 15% a eliminação
de lamotrigina. |