| Meu
primeiro contato com ele foi ao tempo da antiga
Faculdade de Direito, onde, ambos, lecionávamos:
ele, Medicina Legal, e eu, Direito Internacional
Público.
Não
sei por que, comecei a admirá-lo. Talvez
porque sentisse nele um colega franco e aberto
em suas atitudes, a par de um amigo com quem –
pressentia – se poderia contar quando se
fizesse necessário.
E
realmente iria ter a comprovação
desse pressentimento quando um de meus filhos
prestou vestibular para o curso de Direito.
Diante de meu nervosismo – comum a todo
pai nessas ocasiões – Moacyr aproximou-se
de mim, no corredor das salas de aula, procurando
animar-me, insuflando-me confiança em meu
filho.
Jamais
esquecia este episódio toda vez que o via.
Dali
para frente e sempre cada vez mais iria tê-lo
na conta de um grande amigo. E realmente ele o
foi.
Admirava-o
não só pela dedicação
e entusiasmo com que se conduzia à frente
da espinhosa e dura cátedra como pela maneira
cordial com que tratava os alunos, embora severo
na condução da disciplina que lhe
tocara ministrar.
Era
um homem descompromissado ou que só tinha
compromissos com a profissão que abraçara
e com suas convicções, das quais
não abria mão ou com as quais não
fazia qualquer espécie de transação.
Daí a sua integridade pessoal, que todos
nós conhecemos.
Nos
últimos anos, juntamente com o Dr. Heber
Soares Vargas, passou a dedicar-se à expansão
do ensino da criminologia, dela fazendo-se um
entusiasta e paladino em nossa Universidade, tendo
sido um dos organizadores do Primeiro Congresso
de Criminologia, sediado nesta cidade.
Quando
participou do Primeiro Encontro de Criminologia,
cuja organização se deveu ao Dr.
Heber Soares Vargas e que teve lugar na Faculdade
de Direito de Jacarezinho, Moacyr, com sua simpatia
irradiante, cativou os alunos daquele estabelecimento
superior de ensino, revelando grande conhecimento
da matéria com a palestra que proferiu.
Tenho
ainda em mente a viagem que fizemos juntos –
ele, os Drs. Heber, Osmy Muniz, José Carlos
Abrão e eu – para aquele Encontro
e o debate animado que se estabeleceu entre os
cinco, Moacyr sempre expondo idéias válidas
e lúcidas.
Fiquei
em débito com ele. Uma dúvida que,
agora, tornou-se sagrada. E que irei resgatar,
ainda que postumamente. Será minha última
homenagem a ele, que cumprirei com o coração
partido.
Moacyr
vinha se dedicando ao estudo do sistema penitenciário
em nosso Estado. E tinha trabalhos elaborados
a respeito. Uma semana antes de seu falecimento,
na secretaria do CESA (Centro de Estudos Sociais
Aplicados, da FUEL), presentes os Drs. Heber Soares
Vargas e José Carlos Abrão, ele
ficou de fornecer-me os dados necessários
a um artigo que me comprometera a lançar
nestas colunas sobre suas idéias a respeito
de nosso sistema penitenciário.
É
essa dívida que irei paga-lhe. Que para
mim é um ponto de honra.
Escrevi
certa feita que homens existem que simplesmente
morrem; como os há que, morrendo, despovoam
o mundo, a sociedade. Moacyr está entre
os últimos. Sua morte abriu um vácuo,
um vazio em nosso meio.
Não
que existam homens insubstituíveis, mas
sim, que há vidas que, tragadas pela morte,
oprimem-nos o coração, deixando-nos
angustiados.
Esse
o sentimento que se apoderou de mim quando, inesperadamente,
tomei conhecimento de sua morte pela televisão.
Principalmente porque não tivera conhecimento
de que, dois dias depois de nossa conversa no
CESA, ele caíra enfermo.
Para
mim foi um choque a infausta notícia. Como
o foi para muitos. Ao primeiro instante não
podia aceitar o fato, a idéia de estar
morto aquele com quem poucos dias antes conversara
longamente. Desliguei a televisão, como
procurando acostumar-me ao ocorrido; rechaçando
a idéia do desaparecimento, assim repentino,
de alguém que aprendera a admirar e respeitar.
Escrevo
tudo isto ao correr da pena. Não é
minha mente que está ditando as palavras.
É todo o meu ser que participa deste artigo.
Meu corpo e minha alma que nele se extravasam.
Que nele se contorcem e doem.
Jamais
poderia supor que poucos dias depois de minha
última conversa com Moacyr fosse escrever
este artigo. Tivesse que debruçar sobre
seu corpo e invocar-lhe a memória.
A
vida é brutal – terrivelmente brutal
– na medida em que ela nos apunhala com
a morte de pessoas que acostumamos a querer bem.
A estimar e admirar.
Na
lápide deste artigo só posso deixar
a Moacyr Camargo Martins a única coisa
que tenho para ofertar-lhe: minha imorredoura
reverência à sua memória.
Também Londrina, por certo, deve a ele
o bronze de sua gratidão, ele que foi um
pioneiro dentre os pioneiros que lançaram
os fundamentos desta terra, de que tanto nos orgulhamos
hoje. |