|
Anibal Silveira
(1902-1979)
 |
Luiz
Barreto de Souza *
Artigo
extraído do Suplemento Cultural
da Assoc. Paulista de Medicina
Julho / 2001 |
Ao
completar vinte anos
de sua transformação subjetiva, Anibal Silveira,
neste número é lembrado por um de seus trabalhos
que podem dar idéia de sua posição científica
notável e original no campo da Psiquiatria e da
Psicologia, graças à síntese que soube fazer dos
fenômenos psíquicos objetivos e a dinâmica subjetiva
deles, apoiado no modelo genético estrutural da
personalidade.
Para
avaliar devidamente
o que representa toda a sua obra, elaborada desde
seus primórdios sob a égide das concepções de
Augusto Comte, antes do mais é indispensável atentar
para a diversidade dos temas e a versatilidade
com que abordou a Psiquiatria, quer quanto as
suas bases filosóficas como aos seus fundamentos
biológicos e sociológicos. Somente no horizonte
de tal perspectiva, filosófica, metodológica e
cientificamente rigorosa, é que se pode situar
a magnitude da construção psiquiátrica por ele
realizada. Torna-se nela clara, também, a participação
de Gall, Audiffrent, Kleist e Ronchach.
Sua
formação
enciclopédica
o impeliu a construir, muitas vezes penosamente
e solitário, como quando viveu com seus familiares
quase vinte anos nas instalações do Hospital de
Juqueri, ou então como quando ficou dois anos
em Chicago, junto a McCulloch, Fulton, von Bonin
e Alexander. Aliás, foi o primeiro brasileiro
a aí estagiar e trabalhar, produzindo notáveis
trabalhos científicos na década de 40, publicados
na mais conceituada literatura americana e européia
científica da época.
Não
há
dúvida quanto ao caráter
inovador de sua obra. Ela foi apresentada em mais
de 450 comunicações a congressos científicos nacionais
e internacionais. Escreveu: 60 trabalhos sobre
higiene mental, eugenia e genética humana; 38
sobre patologia cerebral e sistemas cerebrais:
125 sobre psiquiatria clínica: 50 sobre psicologia
e antropologia: 30 sobre fisiologia cerebral e
eletrencefalografia; 115 sobre o psicodiagnóstico
de Rorschach: 10 sobre leucotomia cerebral: 20
sobre organização hospitalar: mais de 200 textos
de ensino da psiquiatria; suas duas Teses, defendidas
na Escola Paulista de Medicina e na Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo, nos
tempos de A. C. Pacheco e Silva.
Não
é de estranhar que sua fundamentação na epistemologia
positivista postulou a anterioridade
dos componentes históricos e sociais da personalidade
sobre aqueles estruturais e biológicos, além de
fixar a íntima solidariedade entre as expressões
simbólicas e emocionais do homem e as condições
estruturais e dinâmicas do cérebro. A fecundidade
científica a partir de tais premissas, levou-o
a exaustivas pesquisas nos campos da psicopatologia
e da patologia cerebral, indo muito além dos discípulos
de Kleist, na sua concepção organológica da psiquiatria,
não localizatória, no sentido organicista. Desde
1934 mostrou como era anacrônica tal concepção,
encarando tais "localizações" quanto
a órgãos cerebrais, não quanto a funções, e procurou
sempre mostrá-los como integrando sistemas funcionais
cujo dinamismo é paralelo ao das funções psíquicas.
Foi muito mais reconhecido no Exterior do que
no Brasil, como vários de nossos cientistas, tendo
sido citado e apreciado pelo que de mais significativo
e sério a ciência ocidental produziu.
Personalidade
modesta e devotada ao próximo, tinha uma integração
harmônica, estrutural e dinâmica dos instintos
da individualidade nos da sociabilidade ou altruístas,
embasados por um caráter firme, prudente, corajoso
e estável que tão bem estimulariam suas funções
intelectuais. Essas qualidades caracterizavam
sua personalidade integral, madura, própria de
um gênio como, sem dúvida alguma, aqueles que
tiveram o privilégio de conhecê-lo hão de se lembrar
tão bem, e não são poucos, como pacientes, alunos,
discípulos, psicólogos e médicos, neste final
do século vinte.
É
pois evidente a razão desta pequena homenagem,
que anuncia a edição de sua obra completa,
coligida por seus discípulos, nestes tempos de
anarquia dos setores oficiais da psiquiatria nacional
e internacional, desmedicalizada, à mercê de multinacionais
de drogas. Somente uma obra, como a de Anibal
Silveira, que nos faça conhecer a teoria da personalidade
normal e patológica, da qual emana uma autêntica
psiquiatria científica, tem fundamentos indestrutíveis.
Relembrando a grande lei, do filósofo: “O
Homem se agita e a Humanidade o conduz”, a
escola que Anibal Silveira criou entre nós continua
viva e receptiva a aglutinar novos elementos,
pois constitui a mais lídima expressão no Brasil,
como tal. Sigamos esse método, não perdendo em
vão palavreado o conhecimento da autêntica psiquiatria
científica. Para seus fundamentos, o Dr. Anibal
Silveira se apoiou na obra de Augusto Comte, quando
fundou a Moral como Ciência da natureza humana.
Luiz
Barreto de Souza
é psiquiatra |